Nietzsche e sua filosofia


Friedrich Nietzsche é um dos filósofos mais lidos e menos compreendidos de nosso tempo. Sua obra é muito ampla, complexa e de difícil entendimento imediato, por ser escrita, em sua maior parte, sob a forma de aforismos, metáforas e ironia. Além disso, ele se opôs ao dogmatismo e qualquer tipo de sistematização, seja na filosofia como também na vida.

Para compreender sua filosofia e os diversos conceitos apresentados pelo filósofo, entre eles o "além-do-homem", "apolíneo e dionisíaco" e "moral do rebanho", é necessário uma imersão e uma certa demora em seus escritos e reflexões, por meio uma leitura cuidadosa de suas obras, estabelecendo relações entre elas, visto que ele não trata de um tema apenas num de seus livros, mas o apresenta em distintos livros.

Por conta de seu estilo de escrita, sua obra possibilita uma multiplicidade de interpretações e entendimentos, por vezes até contraditórios e contrários aos seus intuitos, pois ele não apresenta uma filosofia sistemática, mas oferece entendimentos e reflexões de maneira aberta, em processo, favorecendo o perspectivismo, ou seja, a possibilidade de interpretá-los de diversas maneiras, e não apenas de uma.
"Nietzsche recusa de antemão todos os rótulos habituais e coloca o problema do conhecimento num terreno novo e muito promissor: o do pensamento interpretativo!"
(Granier, em 'Nietzsche')
Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 1844, no vilarejo de Röcken, no Reino da Prússia, atual Alemanha, e faleceu em 1900, em Weimar. Foi filólogo, filósofo, professor, crítico cultural, poeta e compositor. Em suas obras apresentou fortes críticas sobre a moral e os valores da sociedade ocidental, sobre a filosofia tradicional, o cristianismo e sobre todo tipo de sistema de vida ou de pensamento.

Sua filosofia valoriza a "afirmação da vida" em seus instintos e potências, questionando qualquer doutrina que diminua nossas possibilidades, buscando a ampliação de nossas potencialidades. Suas ideias exerceram um grande impacto sobre pensadores do final do século XIX e do início do século XX. Seus questionamentos sobre os valores e sobre a objetividade da verdade influenciaram a filosofia continental: o existencialismo, pós-modernismo e pós-estruturalismo.
"Pois, desde que se é uma pessoa, tem-se necessariamente a filosofia de sua pessoa: mas há aqui uma notável diferença. Num homem são as deficiências que filosofam, no outro, as riquezas e forças."
(Nietzsche, em ‘A gaia ciência’, Prólogo §2)
Nietzsche não parte do entendimento da filosofia no sentido tradicional, enquanto "amizade da sabedoria", como propunha a descrição de Pitágoras (séc. VI a.C.), mas como um questionamento ativo, elaborando um diagnóstico da filosofia, da cultura e dos valores, em favor da criação de novos valores mais fortes e mais potentes. Substituindo a vontade da verdade, entendida como vontade fraca, pela vontade de potência, que valoriza a vida ao invés de inferiorizar.

Para ele, a filosofia não é uma busca de verdade, tal como tendenciavam a maioria dos filósofos da tradição, mas uma possibilidade para compreender uma multiplicidade de perspectivas, utilizando a filosofia como um meio de revisão dos modos de vida e inclusive dos modos de filosofar. Sua filosofia não parte apenas da razão, mas do corpo e dos instintos, reavaliando os valores de seu tempo e se utilizando do martelo para derrubar ídolos decadentes.
"Não somos como aqueles que chegam a formar pensamentos somente em meio aos livros - o nosso hábito é pensar ao ar livre, andando, saltando, escalando, dançando."
(Nietzsche, em 'Humano, demasiado humano')
Sua escrita é, em grande parte, expressa por meio de aforismos, um gênero textual que condensa complexos conceitos filosóficos em pequenas sentenças, não se apresentando como uma verdade única ou uma conclusão sobre um tema, mas apenas como uma perspectiva, aberta a múltiplas interpretações e possibilidades.

O aforismo se caracteriza por sua brevidade e concisão, oferecendo reflexões que traduzem entendimentos muito aprofundados. Para ler e entender sua filosofia é necessário um certo tempo para recepção e digestão. O próprio Nietzsche declara, no prefácio de seu livro 'Genealogia da moral' (1887), que sua filosofia não pode ser recebida por um só gole, mas deve ser ruminada, refletida e revisada, ao invés de engolida.
"Um aforismo honestamente modelado e cunhado não pode 'decifrar-se' à primeira leitura. Ao contrário, começa-se unicamente agora a interpretar-se para o qual é necessário uma arte de interpretação. (...) Na verdade, para elevar assim a leitura à dignidade de 'arte' é mister, antes de mais nada, possuir uma faculdade hoje muito esquecida, uma faculdade que exige qualidades de vaca, e absolutamente não as de um homem 'moderno': a de ruminar..."
(Nietzsche, Prefácio de 'Genealogia da Moral')
Sua filosofia propõe maneira diferente de filosofar para sua época, reconhecendo a mudança, o devir, a multiplicidade, o contraste e a contradição constante no ser e no mundo. Segundo Nietzsche, o filósofo grego Sócrates (séc. V a.C.), reconhecido por muitos como o marco na história da filosofia, foi responsável por valorizar o mundo abstrato do pensamento, aniquilando a força criadora da filosofia.

Nietzsche é o filósofo que coloca em questão os valores dos valores, ele se colocou a questionar sobre os valores do que foram, por muito tempo, estabelecidos como verdades inquestionáveis, entre eles o "bom", o "justo" e o "verdadeiro". Suas questões impactam diretamente na tradição filosófica, reavaliando os valores que se supunham eternos e imutáveis na história da filosofia.

Além disso, ele não fez uma separação entre mente e corpo, ou entre filosofia e vida, para ele a filosofia não é algo que se diferencia da vida, por isso ele parte da experiência de vida para elaborar sua filosofia, entendendo que toda produção filosófica é resultante de um corpo e das experiências deste corpo. Suas ideias não estão separadas de sua experiência de vida.
"O racionalismo socrático, no entanto, em nome de 'ideais mais altos' que encarnam o racional e o bem, nega a realidade do irracional e do sofrimento, desvalorizando, por conseguinte, a vida conforme ela é vivida aqui e agora."
(Woodward, em 'Nietzscheanismo')
Ampliando sua crítica a Sócrates e as bases da filosofia tradicional, ele também faz um diagnóstico e uma crítica sobre os valores dominantes na sociedade ocidental, inclusive sobre a confiança ingênua da ciência nas ideias de evolução ou progresso, ou mesmo na neutralidade de seus saberes. Em suas críticas ele retoma a afirmação do corpo e da vida, tanto em sua plenitude quanto em seu caos.

Todas essas características nos possibilitam um novo olhar para a filosofia, retomando a importância e o valor do corpo e das experiências, que haviam sido deixados de lado da tradição filosófica, por terem sido entendidos como equivocados, falsos, mentirosos, ou até mesmo "fonte de pecado". A retomada do corpo propõe uma nova forma de filosofar, característica de Nietzsche.
"Nietzsche recupera o sentido de afirmação do corpo, de afirmação da vivência, e de afirmação dos sentidos. Mesmo, e em particular, como afirmação do sofrimento e da finitude. Como modo natural de potencialização da vida, e de promoção de uma superabundância de suas forças, pela afirmação da potência do retorno da vida."
(Fonseca, em "História das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais')
Por todas essas características, Nietzsche é reconhecido como um dos filósofos mais importantes de nosso tempo, tendo influenciado tantos outros filósofos, entre eles Martin Heidegger, Karl Jaspers, Sigmund Freud, Theodor Adorno, Georges Bataille, Albert Camus, Emil Cioran, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Jacques Derrida.



Referências:
FONSECA, Afonso. História das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais. Pedang: Maceió, 2006.
GIACOIA JÚNIOR, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.
GRANIER, Jean. Nietzsche. Porto Alegre: L&PM, 2009.
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
NIETZSCHE, Friedrich. A Genealogia da Moral. Petrópolis: Vozes, 2017.
NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005.
WOODWARD, Ashley. Nietzscheanismo. Petrópolis: Vozes, 2017.
Nietzsche e sua filosofia Nietzsche e sua filosofia Reviewed by Bruno Carrasco on 15:55 Rating: 5
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