Problematizando a Psicologia

Enquanto um saber sobre o ser humano, a psicologia é praticada a partir de diversas técnicas que visam promover uma melhoria nos indivíduos em sofrimento mental ou emocional. As distintas abordagens terapêuticas atuam a partir de modelos de saúde e entendimentos de ser humano e de mundo, cada uma propõe um modo de lidar com as dificuldades emocionais e mentais.

A psicologia moderna institucionalizada, como está organizada e é praticada na atualidade, muitas vezes não auxilia a pessoa a se tornar mais saudável ou autônoma, mas ajustar seus modos de vida a um modelo normativo de saúde em sociedade. A maioria das práticas em psicologia conduzem a um modo de lidar com o sofrimento que propõe um modelo de atuação prático.

Será que essas práticas estão atuando em favor do indivíduo ou conduzem a um modelo de vida? Se a atuação em psicologia direciona as pessoas a um modo de vida, por que não colocamos em questão a quem serve esse modo de vida? A maioria dos psicólogos não se questionam sobre isso, e reproduzem modelos teóricos, acreditando a psicologia ser uma ciência "neutra" e "apolítica". 

Quando retomamos a história da psicologia, é possível constatar em sua trajetória uma atuação prática visando o ajustamento de pessoas a um modelo normativo de sociedade. A crítica em psicologia possibilita um questionamento sobre os fundamentos da psicologia científica, para pensar outros modelos de psicologia, não como um projeto normalizante, mas enquanto libertação para outros modos de vida.

“A Psicologia para mim, hoje, não passa de um ramo da Política. Um ramo ou aliado poderoso que, aliás, vem servindo à manutenção dos sistemas autoritários, fingindo ser uma ciência apolítica e independente.”
(Roberto Freire, em 'Soma - uma terapia anarquista’)

No século XVII, o filósofo e matemátco francês René Descartes (1596-1650) propõs a separação mente-corpo, apontando para um entendimento mecanicista do corpo, entendendo que este funciona a partir de leis como as da mecânica, que podem ser conhecidas a partir de estudos científicos. Neste momento começa a aparecer o interesse em estudar o comportamento humano para que se possa prever e explicar.

Durante o século XIX, com o desenvolvimento da fisiologia, o corpo passa a ser entendido como um composto de mente e sistema nervoso, os experimentos sensoriais são realizados para conhecer e estabelecer as regularidades do funcionamento fisiológico. Estes estudos influenciam o surgimento da psicologia científica, a partir da criação do laboratório experimental de Wilhelm Wundt.

O início da psicologia enquanto ciência, no final do século XIX, é marcado por movimentos sociais e econômicos, como a Revolução Francesa, que propõe um novo modelo econômico com ideais liberalistas e iluministas, e a segunda Revolução Industrial, que apontou a necessidade de organizar diferentes grupos de pessoas para trabalhar nas fábricas, regularizando comportamentos e evitando dissidências.

De acordo com Bock (2015), o início da psicologia é marcado pela tendência positivista, tendo como base o método das ciências naturais para o estudo do ser humano, visando evitar as irregularidades para manter as regularidades, conhecendo cada detalhe do ser humano para melhor manipular, alcançando um saber "objetivo" e "neutro". 

A influência dos métodos das ciências naturais conduziram ao entendimento de que para conhecer o psiquismo humano era preciso conhecer os mecanismos o funcionamento da máquina de pensar e fazer das pessoas, o cérebro. Assim a psicologia surge, a partir da fisiologia e de uma perspectiva fisiológica e cientificista sobre o funcionamento humano.

Em 1879 foi criado o primeiro laboratório de psicologia na Alemanha, pelo médico Wilhelm Wündt (1832-1920), considerado um dos fundadores da psicologia científica, por determinar seu objeto de estudo, seu método de pesquisa, temas e objetivos. No início do século XX as fábricas precisavam de uma força de trabalho organizada e disciplinada, o papel profissional do psicólogo se iniciou sobre os problemas de desajustamento na educação e no trabalho.

"Para Foucault, o desenvolvimento da psicologia entre 1850 e 1950 foi marcado pela exigência, herdada do Iluminismo, de adequar-se ao modelo das ciências naturais (...) a psicologia não nasce das regularidades, mas das contradições da vida humana. A psicologia da adaptação surge, por exemplo, do estudo das formas de inadaptação; a da memória, do esquecimento e do inconsciente; a da aprendizagem, do fracasso escolar."
(Castro, em 'Introdução a Foucault')

Nas sociedades industrializadas, o padrão de normalidade passa a ser estabelecido a partir da capacidade produtiva de uma pessoa, ou por sua adesão a um modelo "adequado" de vida, correspondendo a uma moral vigente. A finalidade das instituições psiquiátricas era eliminar as diferenças e a improdutividade, com métodos e embasamentos científicos.

Muitas dessas práticas ainda estão presentes no trabalho de psicólogos, que se orientam de acordo com as técnicas e de normativas ao invés de atentarem para as sensibilidades e necessidades singulares de cada pessoa. Há psicólogos do trabalho que se dedicam a tornar a pessoa mais eficiente e psicólogos escolar que tornam a prática educativa mais eficaz.

"Quem são, porém, as pessoas sadias? Como se definem a si próprias? As definições de saúde mental propostas pelos especialistas usualmente correspondem à noção de conformismo a um conjunto de normas sociais mais ou menos arbitrariamente pressupostos."
(David Cooper, em 'Psiquiatria e Antipsiquiatria')

Michel Foucault (1926-1984) fez um estudo sobre as técnicas de poder, destacando a disciplina e o poder disciplinar como um conjunto de técnicas de exercício de poder, com o objetivo de produzir corpos politicamente dóceis e economicamente rentáveis, tendo em vista aumentar a utilidade e docilidade das pessoas em instituições como escolas, fábricas, hospitais e prisões.

O poder disciplinar compõem uma série de técnicas de gestão de pessoas para controlar a multiplicidade de indivíduos, visando uma maior regularidade e operacionalidade. Tais técnias operam a partir de uma arte de distribuição espacial, onde cada pessoa ocupa um espaço, para que seja possível o controle dos gestos e atividades, com o registro contínuo de suas atividades, tendo como alvo os indivíduos em suas singularidades, avaliados por meio de um exame contínuo.

“Penso que a medicina como está organizada em nossos países não cura. O doente está valorizado em termos de produtividade, curado ou marginalizado segundo a sua capacidade de incorporar-se como força de trabalho num sistema que o explora. (...) Uma verdadeira medicina que leve em conta o homem deve ocupar-se da cura dos indivíduos como pessoas, e não apenas como ‘seres produtivos’.”
(Franco Basaglia, em entrevista sobre antipsiquiatria)

A psicologia positivista tem feito cada vez mais que as pessoas se sintam mal por serem como são, do que auxiliado a lidarem com suas dificuldades, em especial quando seus modos de ser não convergem com a normativa tida como "adequado" e "correto". A tendência à normalização e os modelos de "saudável" e "adequado", em oposição ao "doentio" ou "inadequado", deslegitimou diferentes modos de ser e patologizou aqueles que fogem dos padrões.

Proponho aqui um questionamento sobre essa psicologia normativa, disciplinar e positivista, que parte de um modelo hegemônico de saúde, e de um padrão de "normalidade" que patologiza a vida. Colocando em questão o que temos por "normal" e "anormal", bem como o "saudável" e o "patológico", para que assim possamos pensar numa outra psicologia, que esteja em favor da singularidade, do devir e das diferenças..



Referências:
BOCK, GONÇALVES, FURTADO (orgs.). Psicologia Sócio-Histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. São Paulo, Cortez, 2015.
CASTRO, Edgardo. Introdução a Foucault. Trad.: Beatriz de Almeida Magalhães. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2014.
COOPER, David. Psiquiatria e Antipsiquiatria. Tradução: Regina Schnaiderman. São Paulo: Editora Perspectiva, 1989.
FREIRE, Roberto. SOMA Uma Terapia Anarquista. Volume 2: A arma é o corpo - Prática da Soma e Capoeira. 2ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991.

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