A influência de Descartes na psicologia

Retrato de René Descartes, por Frans Hals, ~1700

No século XVII, com o desenvolvimento dos conhecimentos em mecânica, o relógio passa a tomar importância num ambiente envolto pelo mecanicismo na Europa, que desembocou numa curiosidade sobre as máquinas, promovendo inclusive um olhar para o ser humano como uma máquina.

Os relógios abriram caminho para a ideia de que os seres humanos também funcionavam como equipamentos mecânicos e que os métodos experimentais e quantitativos das ciências da natureza poderiam ser usados nos estudos sobre a natureza humana. Além disso, a modernidade é caracterizada pela concepção de que todos os aspectos da vida estão sujeitos a leis mecânicas.

René Descartes (1596-1650), filósofo, físico e matemático francês, que viveu durante esse período, também ficou fascinado pelas máquinas. Sua filosofia influenciou diretamente a psicologia moderna, tendo sido responsável por renunciar os rígidos dogmas teológicos, representando a transição para a tendência científica, aplicando a ideia do mecanismo do relógio sobre o corpo e a natureza humana.

Segundo ele, as leis e as fórmulas matemáticas poderiam ser aplicadas a todas as ciências, de modo a produzir uma certeza e verdades indubitáveis sobre o mundo e os seres humanos. Em seu entendimento, a mente só tinha uma função, de pensar, enquanto que todos os outros processos eram funções do corpo, que funcionava como um mero autômato.

Ele introduziu o problema mente-corpo por meio da dualidade física-psicológica, desviando a atenção do conceito da alma para o estudo da mente e suas operações. Os métodos de pesquisa passaram a se ater na observação objetiva, entendendo mente e corpo como duas entidades distintas, onde não há nenhuma semelhança qualitativa entre o mundo material ou físico e o mundo mental.

O corpo, enquanto matéria opera de acordo com princípios mecânicos. Mas a mente não tem nem substância. Mente e corpo, embora distintos, são capazes de interagir dentro do organismo humano. O corpo era composto de matéria física, tendo então características comuns a toda a matéria: extensão no espaço e capacidade de movimento.

Sendo matéria, as leis da física e da mecânica que explicam o movimento e a ação no mundo físico também devem se aplicar a ele. O corpo era visto como uma máquina cuja operação poderia ser explicada pelas leis mecânicas que governam o movimento de objetos no espaço. Descartes passou à explicação do funcionamento fisiológico em termos de física.

Descartes acreditava que o corpo funcionava exatamente como uma máquina, não via diferença entre ele e as figuras acionadas hidraulicamente. Entendia o funcionamento físico: a digestão, a circulação, a sensação e a locomoção, em termos mecânicos.

Quando descrevia o corpo, ele se referia às figuras mecânicas, comparando os nervos do corpo aos canos pelos quais a água passava, e os músculos e tendões com motores e molas. Inclusive entendia que o movimento não era causado por uma ação voluntária, mas por objetos externos, sem a intenção consciente da pessoa.

Por conta dessa teoria da ação reflexa, influenciou o entendimento da relação entre estímulo-resposta (E-R), usado na psicologia comportamental, em que um objeto externo (estímulo) provoca uma resposta involuntária. Descartes encontrou apoio para a sua interpretação mecânica do funcionamento do corpo humano no campo da fisiologia.

Neste sentido, o corpo mecânico movimenta-se e se comporta de maneiras previsíveis desde que se saiba quais são os estímulos. Embora a mente não seja composta de matéria física, ela seria capaz de abrigar o pensamento e a consciência, possibilitando o conhecimento sobre o mundo exterior. Sua característica é a capacidade de pensar.

Como percebe e tem vontade, a mente tem de influenciar o corpo e ser influenciada por ele de alguma maneira. Quando ela decide deslocar-se de um ponto a outro, essa decisão é concretizada pelos nervos e músculos do corpo. Do mesmo modo, quando o corpo é estimulado pela luz ou pelo calor, é a mente que reconhece e interpreta esses dados sensoriais a uma resposta apropriada.

Ele sugeriu que a mente dá origem a duas espécies de idéias: as ideias inatas e as ideias derivadas e ideias inatas. As ideias inatas não eram produzidas pelo contato com os objetos do mundo exterior, mas estavam potencialmente na mente, concretizadas na presença de experiências apropriadas. Algumas delas eram Deus, axiomas geométricos, a perfeição, o infinito.

As ideias derivadas eram produto das experiências sensoriais, de um estímulo externo, como o som de um sino ou a visão de uma árvore. Os estudos de Descartes serviram de influência para muitas tendências que mais tarde tiveram destaque na psicologia.

Suas contribuições sistemáticas mais dignas de nota são a concepção mecanicista do corpo, a noção de ação reflexa, a teoria da interação mente-corpo, a localização das funções mentais no cérebro e a doutrina das idéias inatas. Com Descartes, a ideia do mecanicismo passa a ser aplicada ao corpo humano e a sua psiquê.

Referências:
CARPIGIANI, Berenice. Psicologia: das raízes aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Pioneira, 2000.
FIGUEIREDO, Luiz; SANTI, Pedro. Psicologia, uma (nova) introdução. São Paulo: Educ, 2004.
SCHULTZ; SCHULTZ. História da Psicologia Moderna. São Paulo: Cultrix, 1992.

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