Mecanicismo e psicologia

Homem como palácio industrial. Stuttgart, 1926.

Desde o séc. V a.C., Platão, Aristóteles e outros filósofos gregos já refletiam sobre temas como a memória, a aprendizagem, a motivação, a percepção, os sonhos e o comportamento humano. Até o final do século XIX, a filosofia estudava a natureza humana por meio da especulação, da reflexão e intuição.

Isso se modificou quando os estudiosos passaram a aplicar os instrumentos e métodos das ciências físicas e biológicas sobre o estudo do comportamento humano. Quando os pesquisadores passaram a utilizar a observação e experimentação para o estudo a mente, a psicologia começou a se desvincular de suas raízes filosóficas.

No final do século XIX, os psicólogos definiram o objeto de estudo da psicologia e estabeleceram os métodos de estudo. O método científico foi adotado como recurso para tentar entender o comportamento humano e sua relação com a mente. O psicólogo alemão Wilhelm Wund implantou o primeiro laboratório de psicologia do mundo em 1879, em Leipzig, na Alemanha.

Porém, até chegar a este ponto houveram muitas influências que configuraram a direção e caminho percorrido pelo entendimento sobre a psicologia. Por isso, uma compreensão sobre a história da psicologia deve considerar o contexto em que ela surgiu e o modo como se desenvolveu enquanto ciência independente, bem como suas influências sociais, econômicas e políticas.

Nos jardins reais da Europa, durante o século XVII, aparece uma forma de divertimento que envolve figuras mecânicas e movimentos, onde a água, correndo em tubulações subterrâneas, operava bonecos mecânicos que se movimentavam, tocavam instrumentos musicais e produziam sons semelhantes a palavras.

Placas de pressão ocultas, ativadas quando eram pisadas, empurravam a água pelos encanamentos e maquinários que moviam as estátuas. Essas formas de diversões da aristocracia refletiam e reafirmavam o fascínio pela máquina, no século XVII. O interesse pela máquina influenciou a direção da psicologia posterior.

Trata-se do mecanicismo, que entendia o universo como uma grande máquina, onde todos os processos naturais eram determinados mecanicamente, e portanto poderiam ser explicados por meio das leis da física. Essa ideia teve origem na física, que partia do entendimento de que tudo o que havia no universo poderia ser reduzido em partículas de matéria em movimento.

Se o universo funcionava como uma máquina e estava sujeito às leis de medida e cálculo, este seria então previsível. A observação e a experimentação se tornaram os fundamentos da ciência, seguidas pela medição. Entendendo que havia um determinismo, onde todo ato seria determinado por situações passadas.

O relógio era a metáfora perfeita do mecanicismo. Os relógios eram, na época, uma sensação tecnológica, exercendo um enorme impacto sobre o pensamento humano em todos os níveis da sociedade. Por sua regularidade e precisão, os filósofos consideravam os relógios como modelos para o universo físico, encarando o mundo como um vasto relógio. Acreditava-se que a harmonia e a ordem do universo podiam ser explicadas tal como a regularidade dos relógios.

Do mesmo modo que o relógio poderia ser desmontado e seu funcionamento poderia ser entendido por meio da análise e da redução de seus componentes, acreditava-se que se poderia compreender o universo físico, tal como uma máquina, analisando e reduzindo suas partes. O reducionismo passa a ser utilizado como um método de análise em todas as ciências.

Além de entender o universo como uma máquina, organizado, previsível, observável e mensurável, os seres humanos também passaram a ser entendidos do mesmo modo. O mecanicismo possibilitou a ideia de que os seres humanos eram regidos por leis mecânicas e que os mesmos métodos experimentais e quantitativos podiam ser utilizados na pesquisa sobre a natureza humana. 

O estudo sobre o sere humano foi deixando de ser metafísica e especulativa para utilizar a observação e a experimentação científica, entendendo que o corpo funciona de acordo com princípios mecânicos, onde as leis da física e da mecânica explicariam o movimento e a ação. O corpo passou a ser visto como uma máquina que poderia ser explicada pelas leis mecânicas.

Por conta do determinismo, passou a se entender que o corpo mecânico se movimenta e se comporta de maneiras previsíveis, desde que se saiba quais são os estímulos determinantes. As ideias complexas seriam frutos da composição de ideias simples, o que corresponde a teoria da associação, na qual ideias simples ao serem vinculadas formam ideias complexas.

A análise da vida mental deveria se operar por meio da redução a elementos mais simples, e a associação destes para compor as ideias complexas. Tal como os relógios podiam ser reduzidos às suas peças e componentes menores, podendo ser montado outra vez para formar a máquina complexa, seria possível fazer o mesmo com as ideias.

Assim, passou-se a considerar a mente como já se considerava o corpo: uma máquina. O filósofo escocês James Mill (1773-1836) aplicou a doutrina mecanicista ao estudo da mente humana, entendendo que a mente não passava de uma máquina. Segundo ele, a mente era uma entidade passiva que sofre a ação de estímulos externos. A pessoa responderia a esses estímulos de modo automático e seria incapaz de agir com espontaneidade.

Deste modo, não deu espaço algum para o livre arbítrio. Segundo Mill, a mente deveria ser estudada através da análise, pela redução a seus componentes elementares. Para entender fenômenos complexos, seria necessário decompor até chegar aos seus componentes indivisíveis. Ele sugeriu que as sensações e as ideias eram os únicos tipos de elementos mentais existentes.

A associação acontecia de forma mecânica, e as ideias resultantes eram apenas a soma dos elementos individuais. Os estudiosos adeptos do materialismo acreditavam que todas as coisas podiam ser descritas em termos físicos e compreendidas por meio das propriedades físicas da matéria e da energia.


Por Bruno Carrasco.

Referências:
BOCK; FURTADO; TEIXEIRA. Psicologias - uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2002.
CARPIGIANI, Berenice. Psicologia: das raízes aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Pioneira, 2000.
SCHULTZ; SCHULTZ. História da Psicologia Moderna. São Paulo: Cultrix, 1992.
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