Ensaios sobre fenomenologia - Lima


O livro 'Ensaios sobre fenomenologia', organizado por Antonio Lima, oferece um conjunto de textos de pesquisadores que discutem alguns dos temas mais importantes da fenomenologia, a partir dos fundamentos de Husserl e sua influência em diversas correntes da filosofia contemporânea, principalmente a ontologia de Martin Heidegger e a fenomenologia da existência de Maurice Merleau-Ponty.

Alguns trechos do livro:

Dentre as correntes mais influentes da filosofia do século XX, a fenomenologia aparece como uma das mais importantes. Inúmeros filósofos se valeram do método fenomenológico como fundamento para pensar e elaborar suas filosofias. Assim, a partir da leitura e interpretação do método fenomenológico formulado por Husserl, autores como Max Scheler, Heidegger, Sartre, Merleau- Ponty, Lévinas e outros desenvolveram suas filosofias à luz desse "método de investigação", como diz Heidegger em Ser e tempo. Ou seja, "a expressão 'fenomenologia' significa, antes de tudo, um conceito de método" (HEIDEGGER, 2006, p. 66).

Em sua etimologia, o termo significa estudo dos fenômenos, daquilo que aparece à consciência, daquilo que é dado . A fenomenologia pretende ser "ciência das essências" e não de dados de fato.

A fenomenologia como método radical, no sentido de abrir caminho para a realidade mais fundamental, as essências, converte- se na disciplina que justificará todas as ciências de maneira mais rigorosa.

"Às próprias coisas", este foi o lema inicial de Husserl. A fenomenologia se constituiu, desde logo, num apelo àquilo que é imediato, mas a sua característica principal foi a de proceder com absoluta fidelidade ao modo de ser dos objetos. A fenomenologia tem por objeto as coisas que se manifestam ou se mostram, tais como se manifestam os fenômenos; neste sentido, as coisas constituem aquilo que é rigorosamente dado, aquilo que eu encontro e que é, para mim, originalmente presente. Para Husserl, o fenômeno2 é consciência enquanto fluxo temporal de vivências, apresentando intencionalidade enquanto estrutura, ou seja, consciência de algo. A fenomenologia procura examinar a experiência humana de forma rigorosa, como uma ciência descritiva. Desta maneira, a reflexão se faz necessária a fim de tornar possível observar as coisas tal como elas se manifestam e descrevê-las. É a investigação daquilo que é genuinamente possível de ser descoberto e que está potencialmente presente, mas que nem sempre é visto através de procedimentos próprios e adequados. É o encontro com as coisas mesmas.

Para tanto, Husserl propõe a suspensão de qualquer julgamento, (sobre a existência, sobre as propriedades reais e objetivas do que aparece), abandonando os pressupostos em relação ao fenômeno que se apresenta, ao que denomina de suspensão fenomenológica ou epoché. A fenomenologia (Phenomenom + logos) é então o discurso sobre aquilo que se mostra como é, caracterizando esta ciência como estando em contato direto com o sentido das coisas, dirigindo o conhecimento para o que há de essencial nelas. É a filosofia do inacabamento, do devir, do movimento constante, onde o vivido aparece e é sempre ponto de partida para se chegar a algo.

Husserl chama fenômeno àquilo que se refere à minha observação intelectual, isto é, à observação pura. Para poder chegar a esta observação é necessário deixar de lado todas as ideias preconcebidas, todos os preconceitos. O que o método fenomenológico exige é que se inicie a partir daquilo que se vê diretamente, quando não se deixa desviar do fenômeno. Trata- se de voltar às próprias coisas, interrogá- las na sua própria maneira de se nos oferecerem.

Considera- se que a fenomenologia, como projeto husserliano que assume um papel explicitamente filosófico, tem seu momento inicial nas Investigações Lógicas.

Para Husserl, qualquer reflexão a respeito dos aspectos essenciais do conhecimento teórico (o sujeito, o objeto, a lógica, a relação entre conceitos, a proposição etc.) que tenha aderido, tácita e ingenuamente, ao suposto de que ele é um fato; que o entenda dessa maneira e tire conclusões com base nesse entendimento naturalizante, está, por princípio, emaranhada em equívoco, sendo vítima de uma confusão inevitável e insuperável enquanto mantiver esse pressuposto.

Em vez de uma reflexão feita em bases naturalísticas, a problematização filosófica válida do conceito de ciência, de teoria científica e de lógica das ciências que pretenda atingir com êxito seus aspectos essenciais, encontra seu fundamento em princípios isentos de contingências, em evidências apodícticas e em leis essenciais.

Husserl acredita que o método da análise intencional, que define a fenomenologia nessa fase da primeira década do século XX, é capaz de dar acesso às leis puras essenciais do conhecimento. Esse não é mais abordado em seu lado fático, mas passa a ser investigado, em seus aspectos formal e ideal, como um fenômeno puro da consciência.

O princípio da intencionalidade, tomado de empréstimo da psicologia descritiva de Brentano, diz que toda consciência é consciência de algo, distinto dela mesma.

O conhecimento é produzido por um sujeito intencional como uma efetuação consciente sua, através de suas vivências; As vivências valem para o sujeito e ele as possui como fenômeno, e como tal não são reais, consistindo, em vez disso, de um conteúdo puramente ideal. O conhecimento é um momento não independente dessas vivências; A fenomenologia alcança o fenômeno do conhecimento enquanto conteúdo ideal. Ela o faz ao tematizar as puras essências inerentes à intencionalidade do sujeito.

é o que interessa para a fenomenologia. A "aparição", no sentido do que aparece, enquanto tal 3, é o tema objetivo para o qual o ato intencional se dirige enquanto aparece à consciência, é o que se chama propriamente "fenômeno", no registro husserliano.

Nas Investigações Lógicas, o projeto da fenomenologia se firma no gesto de dar início a uma ciência apriorística das vivências imanentes à consciência.

Nas Investigações, tratava-se de entender o sujeito cognoscitivo na forma pura, a priori de sua intencionalidade, com a universalidade e idealidade que acompanham as formas puras. Em Ideias I, o problema é enunciado como o de uma filosofia transcendental, e o ego puro, autor e depositário dos fenômenos, quaisquer que sejam, é também ego transcendental, no sentido de que a constituição do sentido da totalidade dos objetos, os atos de doação de sentido de um e o mesmo de cada objeto e de doação de validez transcendente (objetivo- real) se fazem na trama de intencionalidade desse ego.

O processo gerado pela atuação do ego, atuação doadora de possibilidade e sentido, que permite alcançar os entes transcendentes e, conjuntamente, o mundo transcendente, é denominado constituição. Em virtude da constituição, o perceber, o pensar, o representar, o intuir etc., se exercem espontaneamente como intencionalidades validadas em suas funções específicas.

O trabalho de constituição é contínuo, começa com as vivências antepredicativas, pré- categoriais, prossegue em todas as etapas do conhecimento que existe em cada região objetiva, do natural ao teórico, e culmina na autoconstituição da intersubjetividade transcendental.

Em Ideias II, obra inegavelmente sistemática, riquíssima em análises e distinções, são trabalhadas três regiões: natureza material (a coisa física), natureza animal (alma ou psiquismo) e mundo espiritual. Uma preocupação é assegurar a especificidade do mundo espiritual e, com isso, a autonomia das ciências do espírito. Uma série de fenômenos é abordada. Mas não fica fixada, como resultado, cada região, enquanto um corpo teórico nitidamente delineado, com suas respectivas categorias regionais.

O corpo, na filosofia de Merleau-Ponty, é visto como o "veículo" do ser- no- mundo, o liame que situa o sujeito temporal e espacialmente. Mundo e corpo compõem realidades inseparáveis, formando um sistema em que um não é exterior ao outro. Por isso que a consciência, não sendo mais a primeira nem a única realidade, deixará de ser um puro dado, pensamento de si para si, passando a constituir o mundo, e a habitá-lo.

Para Merleau-Ponty, a percepção do mundo pelo corpo- sujeito funda definitivamente a ideia de verdade; assim não há mais um ponto de origem na relação do homem, sujeito corporal, com o mundo, porque é a percepção que funda e inaugura o conhecimento.

O sujeito é corporal, e ser corpo é estar atado a determinado mundo. Portanto, para Merleau- Ponty, trata- se de evidenciar o pertencimento da vida humana ao próprio mundo, pois o homem encontra- se lançado no mundo enquanto realidade natural e humana.


Fonte:
LIMA, Antônio Balbino, org. Ensaios sobre fenomenologia: Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty. Ilhéus, BA: Editus, 2014.

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