Loucura, normalidade e cultura

Autorretrato, Vincent Van Gogh, 1889

A loucura é um tema muito amplo e complexo, sendo difícil definir teoricamente como uma categoria universal, pos assim teria de encarar a loucura separada de seu contexto. Para se definir uma pessoa como louca, é preciso, antes de tudo, partir de uma ideia sobre o que seja o "não-louco", ou a maneira "normal" de ser.

Entender a loucura como um desvio à norma, é colocar esta como oposto da "normalidade", ou seja, das "regras morais" de um grupo específico, associando assim a loucura com a "anormalidade", definição esta que inferioriza a experiência daquele que difere com relação à uma "norma estabelecida".

Se a loucura é um comportamento contrário à norma, então a pergunta deve ser outra. Devemos, primeiramente nos perguntar o que é ser normal? A palavra latina norma significa "esquadro", se relaciona àquilo que não se inclina nem para a direita nem para a esquerda, que é reto, e que se mantém num justo meio termo.

Portanto, a norma e a regra servem para endireitar uma pessoa. Neste entendimento, normalizar é "reajustar" a existência que está num caminho "diversificado" e "irregular". O louco, entendido como anormal, aparece justamente como uma alguém que difere à uma definição do que seja normal, que contraria uma normativa.

A função e a existência de uma norma aparecem como uma maneira dos "normais" reagirem aos que se diferem da norma, justamente não saberem lidar bem com com a diferença. Uma norma só vem a ser norma por meio de sua função normativa ou de regulação, tendo como intuito evitar e desencorajar sua infração.

O anormal, neste sentido, é apenas uma consideração de oposição ao normal, e não uma determinação universal, pois é sempre estabelecido a partir do que é o normal, de um contexto que estabelece o normal e o anormal, sendo resultante de uma relação, pois existe em oposção ao normal. Por isso ocorre a dificuldade em definir a loucura como uma classificação que sirva para todos.

Portanto, a conceituação do que seja "normal" ou "anormal", "saúde" ou "doença", parte sempre de uma experiência coletiva e uma normativa social específica. É dentro de uma cultura e de uma sociedade que são estabelecidas as classificações de normalidade ou de anormalidade. Assim, aquilo que é normal num grupo social poderá ser considerado patológico em outro, e vice-versa.

"A doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal."
(Foucault, em ‘Doença mental e psicologia’)

Na década de 1930, a antropóloga americana Ruth Benedict (1887-1948) constatou que cada cultura seleciona alguns modos de ser e os determina como modos de conduta adequados. As pessoas que se aproximam mais deste padrão estabelecido são bem vistas, enquanto os que se comportam diferente dessas convenções são tidos como anormais, loucos, problemáticos, inadequados, baderneiros, etc.

Partindo desta perspectiva antropológica, cada sociedade elabora uma noção sobre a loucura, por meio do conjunto de modos de ser que são valorizados ou repreendidos culturalmente. Os indivíduos cujos comportamentos não são confirmados pela normativa social são tidos como "loucos", assim a noção de loucura varia de acordo com os costumes, enquanto um afastamento do padrão cultural.

Segundo essa vertente, independente da cultura que se estiver, o louco seria sempre um desviante a um modo de ser estabelecido como adequado e "normal". A Etnopsiquiatria, estudo das doenças mentais, males e moléstias dos distintos grupos étnicos e culturais, parte da concepção de que as coletividades humanas elaboram seus próprios modelos de loucura e de normalidade.

Quando constatamos que há diferentes modelos sociais de loucura, entendemos que o indivíduo não enlouquece por si mesmo, mas de acordo com um modelo previsto pela cultura da qual é membro. Cada sociedade estabelece ideias sobre como deve ser o modo de agir, pensar e sentir dos normais, e tudo o que foge a esses limites passa a ser tido como loucura ou anormalidade.


Referências:
FOUCAULT, Michel. Doença Mental e Psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Universitário, 2000.
FRAYZE-PEREIRA, João. O que é Loucura. São Paulo: Brasiliense, 2002.

Loucura, normalidade e cultura Loucura, normalidade e cultura Reviewed by Bruno Carrasco on 03:52 Rating: 5

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