Início da psicologia enquanto ciência

A psicologia científica se iniciou na Europa, no final do século XIX, num contexto onde a ciência moderna, em especial o positivismo, estava em ascensão, pautada na busca das regularidades, entendendo que o ser humano tinha o poder de utilizar a natureza a seu serviço. Aos poucos, essa perspectiva foi direcionada também para as pessoas, que se tornaram o objeto de estudo das ciências humanas e da psicologia.

O cientista se dedicava conhecer e analisar os fenômenos naturais, com intuito de controlar e manipular estes por meio de experimentos controlados. Acreditava-se que a ciência seria capaz de, por meio de procedimentos específicos, atuar de maneira objetiva e neutra, deixando de lado a subjetividade, as expectativas e os sentimentos do cientista, buscando alcançar um conhecimento verdadeiro e objetivo.

"características que marcam a ciência no século XIX: positivista, porque se constituiu como sistema baseado no observável; racionalista, pela ênfase na razão como possibilidade de desvendar as leis naturais; mecanicista, porque se pautou na ideia do funcionamento regular do mundo, guiado por leis que poderiam ser conhecidas; associacionista, porque se baseou na concepção de que as ideias se organizam na mente de forma a permitir associações que resultam em conhecimento; atomista, pela certeza de que o todo é sempre o resultado da organização de partes; e determinista, porque pensou o mundo como um conjunto de fenômenos que são sempre causados e que essa relação de causa-efeito pode ser descoberta pela razão humana."
(Ana Bock, em 'Psicologia sócio-histórica')

Em meados do século XIX, começa-se a despontar um interesse pelo estudo das diferenças individuais, onde o ser humano deixa de ser apenas um sujeito pesquisador, para se tornar também o objeto de estudo. A psicologia científica se iniciou nesta busca de conhecer e controlar as diferenças a partir do olhar científico, buscando leis, regras e princípios gerais, evidenciando aquilo que se repetia.

O médico, filósofo e psicólogo alemão Wilhelm Wündt (1832-1920) é considerado um dos fundadores da psicologia científica, juntamente com Ernst H. Weber e Gustav T. Fechner. Wündt foi o  pioneiro na formulação de um projeto de psicologia como ciência independente, tendo criado o laboratório de experiências científicas para a pesquisa e o ensino da psicologia.

"No levantamento do quadro em que se praticava a psicologia no final do século XIX, vale que se ponham em destaque, em primeiro lugar, a preocupação com a medida dos processos sensoriais, efetuada por Weber e Fechner; em segundo lugar, o entusiasmo com que foi acolhido o método experimental, na verdade decorrente do processo de conceituação da psicologia como ciência natural; em terceiro lugar, a desqualificação da consciência, apenas definida como um epifenômeno e, em decorrência, a negação de toda a subjetividade que, já no século XX, se consagra com o behaviorismo."
(Penna, em 'Introdução à Psicologia Fenomenológica')

Segundo ele, o objeto de estudo da psicologia era a experiência imediata dos sujeitos, a experiência tal como o sujeito a vivência antes de pensar sobre ela, antes de comunicá-la, antes de "conhecê-la". Ele pesquisou sobre os processos elementares da experiência mental, determinados pelas condições físicas do ambiente e pelas condições fisiológicas dos organismos. Ele analisou os elementos da experiência imediata e sas formas mais simples de combinação.

O psicólogo estruturalista britânico Edward Titchener (1867-1927) estudou em Leipzig, na Alemanha, foi aluno Wündt, e procurou entender os acontecimentos da experiência mental. Segundo ele, a mente não tinha muita autonomia, pois dependia do sistema nervoso, por isso deveria ser explicada por meio do entendimento do sistema nervoso. Portanto, o fisiológico explicaria o mental, então o estudo da psicologia acontecia por meio dos métodos das ciências naturais: a observação e a experimentação.

Os psicólogos funcionalistas definiram a psicologia enquanto uma ciência biológica interessada em estudar os processos, as operações e os atos mentais como formas de interação adaptativa aos ambientes. Esses psicólogos partiram do pressuposto da biologia evolutiva, onde os seres vivos e os animais sobreviveriam por conta de suas características orgânicas e comportamentais mais ajustados ao ambiente.

Para eles, os processos e as operações mentais aconteciam de maneira adaptativa, se expressando nos comportamentos adaptados. Portanto, a mente poderia ser estudada a partir dos comportamentos que eram observáveis, neste momento a psicologia deixa de ser a ciência da psiquê, ou da mente, para se tornar a ciência do comportamento.

"Para Foucault, o desenvolvimento da psicologia entre 1850 e 1950 foi marcado pela exigência, herdada do Iluminismo, de adequar-se ao modelo das ciências naturais e, ao mesmo tempo, pelas contradições desse projeto. Por um lado, a necessidade de aplicar um método de conhecimento que fundamente seus resultados em dados objetivos, como o fazem a física ou a biologia, e, por outro, a impossibilidade de levá-lo a cabo. Com efeito, à diferença do que sucede com o conhecimento da natureza, a psicologia não nasce das regularidades, mas das contradições da vida humana. A psicologia da adaptação surge, por exemplo, do estudo das formas de inadaptação; a da memória, do esquecimento e do inconsciente; a da aprendizagem, do fracasso escolar."
(Castro, em 'Introdução a Foucault')

O psicólogo estadunidense John Watson (1878-1958) é considerado o fundador do comportamentalismo. Segundo ele, o objeto da "psicologia" científica já não é a mente, mas o comportamento e suas interações com o ambiente. Seu método de estudo deve ser o de qualquer ciência natural, a observação e a experimentação dos comportamentos observáveis, evitando a auto-observação.

Seu intuito era de estudar o comportamento, os movimentos do corpo e suas relações com o ambiente. Tudo aquilo que fazia parte da experiência subjetiva individualizada deixa de ter lugar na ciência, pois não era acessível para os métodos objetivos da ciência, que se apresentava interessada em comportamentos meramente objetivos.

"Tudo aquilo que faz parte da experiência subjetiva individualizada deixa de ter lugar na ciência, seja porque não tem importância, seja porque não é acessível aos métodos objetivos da ciência. (...) o 'sujeito' do comportamento não é um sujeito que sente, pensa, decide, deseja e é responsável por seus atos: é apenas um organismo. Enquanto organismo, o ser humano se assemelha a qualquer outro animal, e é por isto que essa forma de conceber a psicologia científica dedica uma grande atenção aos estudos com seres não humanos, como ratos, pombos e macacos, entre outros. (...) toda a rica experiência subjetiva dos indivíduos é deixada de lado na ciência, a ideia de sermos seres livres, autoconscientes, responsáveis e únicos são ridicularizadas; os seres humanos passaram a ser tidos como meros organismos sujeitos às leis gerais do comportamento na sua interação com o ambiente."
(Figueiredo & Santi, 'Psicologia: uma (nova) introdução')

Os principais intuitos das pequisas de Watson não tinham o menor interesse sobre a "vivência" do sujeito, em sua experiência interna. Seu foco estava exclusivamente voltado para os comportamentos observáveis, com o objetivo muito prático de prevê-lo e controlá-lo da forma mais eficaz possível.

Referências:
BOCK, GONÇALVES, FURTADO (orgs.). Psicologia Sócio-Histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. São Paulo, Cortez, 2015.
CASTRO, Edgardo. Introdução a Foucault. Trad.: Beatriz de Almeida Magalhães. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2014.
FIGUEIREDO; SANTI. Psicologia: uma (nova) introdução. São Paulo: Educ, 2000.
PENNA, Antonio. Introdução à psicologia fenomenológica. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001.

Início da psicologia enquanto ciência Início da psicologia enquanto ciência Reviewed by Bruno Carrasco on 20:41 Rating: 5
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