A ética na história da filosofia


O que é ética, ela é universal? Será que a ética sempre foi a mesma no decorrer do tempo, ou, pelo contrário, diferentes normativas surgiram e se transformaram? Comento neste breve texto um pouco das transformações da noção sobre a ética no ocidente com o passar do tempo, iniciando pela Grécia Antiga, nosso berço cultural.

Na Grécia Antiga se desenvolveu uma ética racionalista, onde a razão deveria prevalecer sobre as paixões e os desejos individuais. O correto correspondia ao comportamento que era guiado pela razão. O incorreto, ou o mal, correspondiam as paixões desenfreadas, que deveriam ser contidas.

Os filósofos sofistas, por volta do século V a.C., entendiam que não era possível a existência de normas morais e verdades que fossem universalmente válidas. Eles adotavam uma postura de uma ética relativista ou subjetivista. Contrariando eles, Sócrates (469-399 a.C.) defendeu a existência de uma verdade e de uma ética que fosse universalmente válida, que partia da essência humana, fundamentando uma moral universal.

Mas, qual é a essência do ser humano? Para Sócrates era sua característica racional. Segundo ele, o ser humano é essencialmente razão. E, portanto, essa razão que deve fundamentar todas as normas e os costumes morais. Por conta disso, a ética socrática costuma ser chamada de ética racionalista, por partir da razão. Deste modo, o indivíduo que age conforme a razão é aquele que age "corretamente".

Platão (428-328 a.C) foi discípulo de Sócrates, e como seu mestre manteve o racionalismo ético. Além disso se aprofundou nas diferenças "mundo ideal" e "mundo aparente", entre corpo e alma, entre essência e aparição. Segundo Platão, o corpo costuma desviar o indivíduo do caminho para o bem, por conta dos desejos e paixões, portanto as paixões são vistas como ruins e problemáticas.

Aristóteles (384-322 a.C) foi discípulo de Platão, ele buscou construir uma ética mais realista, que se aproxima mais da realidade do indivíduo. Aristóteles se questionou sobre qual o intuito do ser humano, e entendeu era a felicidade, de modo que todos os seres humanos buscam a felicidade. Para ele, a felicidade não é o mesmo que um mero prazer de sensações momentâneas, ou a riqueza e o conforto material.

Segundo Aristóteles, a felicidade última e maior só pode ser encontrada na vida teórica, que promove o que há de mais essencial no ser humano, a razão. A pessoa que se desenvolve no plano teórico e contemplativo pode então alcançar a essência da felicidade de forma consciente, guiando assim sua conduta, contrário daquele que se deixa agir apenas pelo hábito ou pelas paixões. O filósofo grego propôs a ética do "meio-termo", que se trata de agir de acordo com as virtudes, de maneira equilibrada.

No período do Estoicismo, por volta do século III a.C., se desenvolveu uma ética baseada na busca da paz interior e no autocontrole individual. O princípio da ética estoica é a apatia (apatheia) e amor ao destino (amor fati). Segundo os estoicos, tudo faria parte de um plano superior, guiado por uma razão universal. O Epicurismo, no mesmo período, defendia a evitação da dor e busca do prazer espiritual, do autodomínio e da paz de espírito e a ataraxia, ausência de inquietude ou preocupações, a imperturbabilidade da alma.

Com o cristianismo na Idade Média, se desenvolve a ética cristã, que entende o objetivo da vida humana fora deste mundo, mas no mundo divino. Passa a buscar a perfeição moral por meio do amor de Deus. No século XVIII, São Tomás de Aquino (1225-1274) retomou a ideia de felicidade da ética aristotélica mas colocou Deus como a fonte dessa felicidade.

Por volta do século XV, no Renascimento, o ser humano volta a ser visto como o centro de interesse, possibilitando uma nova concepção moral, centrada na autonomia. Mais a frente, durante o Iluminismo, no século XVIII, os filósofos passam a defender a ideia de que a moral deve ser fundamentada não mais pelos valores religiosos, mas sim pelos próprios seres humanos.

O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) descreve a natureza humana como uma natureza racional, e entende a razão humana como uma razão legisladora, capaz de elaborar normas de vida universais. Segundo ele, as normas morais são originadas na razão, um ato só pode ser considerado moral quando praticado de modo consciente e por dever.

Ele denomina a norma como um imperativo categórico, que deve ser consultada sempre, em qualquer decisão que venhamos a tomar, de modo que não cause prejuízo para a humanidade. Porém, nossa vontade pode ser também orientada pelas paixões, medos e desejos, que, segundo Kant, atrapalham nossa postura ética, e portanto deve ser evitada, pois a ética deve ser guiada apenas pela razão.

Na idade contemporânea, entre os séculos XIX e XX, a ética se desdobrou numa série de concepções distintas. A maior parte das vertentes recusam de uma fundamentação única, universal, exterior e transcendental, entendendo o indivíduo concreto como criador dos valores e das normas morais, que se transformam no passar do tempo e de acordo com o espaço.

O filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831), formulou uma ética levando em conta a história e a relação do indivíduo com a sociedade. Segundo ele, a moralidade se apresenta de diferentes maneiras ao longo da história de cada sociedade. A moral seria o resultado da relação entre o indivíduo e o conjunto social.

Karl Marx (1818-1883), estudioso e crítico de Hegel, passou a ver a moral como uma produção social que atende a necessidades específicas de uma sociedade, e regulamenta as relações sociais. Como as relações sociais se transformam ao longo da história, transformam-se também as normas morais e os indivíduos que regulam essas relações. A moral passa a ser vista como uma consciência específica de cada momento do desenvolvimento social.

Os valores que fundamentam as normas morais são resultado das relações sociais e, portanto, não são absolutos, não valem de forma universal para todos os indivíduos nem para todos os tempos. Os valores morais passam a ser concebidos concebidos numa determinada forma de existência social.

O filósofo alemão Jürgen Habermas (1929-) propõe uma ética discursiva, embasada no diálogo e no consenso entre os sujeitos. O que se buscaria nesse diálogo é a construção de uma razão que é reconhecida pelos participantes de um certo grupo, sendo esta uma fundamentação para a ação moral. 

Trata-se de uma razão comunicativa, que não está pronta nem acabada, mas que se constrói a partir de uma argumentação que leva a um consenso entre os indivíduos. Trata-se de uma razão interpessoal e não subjetiva, processual e não definitiva ou acabada. A ética de Habermas é uma aposta na linguagem e na capacidade de entendimento entre as pessoas, propondo uma ética democrática e não autoritária, baseada em valores consensualmente aceitos e validados entre os indivíduos.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.

Referência:
COTRIM, G.; FERNANDES, M. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2013.
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