Epicuro e o cuidado da alma

Epicuro foi um filósofo grego do período helenístico, nascido em Samos, em 341 a.C., que viveu até os 72 anos, tendo falecido em Atenas por volta de 270 a.C. Como outros filósofos de seu tempo, buscou por meio da filosofia desenvolver uma ética e uma prática de cuidado de si, propondo um modo de vida em favor prazer, com a ausência da dor e das inquietações.

Sua filosofia tinha como intuito proporcionar o cuidado da alma, propondo uma vida tranquila e simples, por meio da avaliação de nossas escolhas, buscando nos dedicar aos prazeres mais prolongados ao invés daqueles meramente imediatos. O epicurismo foi uma das filosofias mais importantes da antiguidade grega, tendo perdurado por cerca de sete séculos no mundo greco-romano.

Para Epicuro, o mais importante era nos dedicar a atividades prazerosas, com intuito de se obter uma vida feliz e uma ausência de perturbações. Para isso, não bastava se dedicar a qualquer atividade prazerosa, era preciso avaliar suas consequências, com intuito de buscar os prazeres que proporcionam a tranquilidade da alma, e cujas consequências geram menor dor ou sofrimento.

Ele entendia o prazer como o princípio e o fim de uma vida feliz, mas constatou que nem sempre avaliamos bem o modo como nos direcionamos aos prazeres, pois muitas vezes acabamos nos tornando vítimas de desejos que não nos proporcionam felicidade e tranquilidade. Ele entendia que ser feliz não consistia em buscar muitos prazeres ou qualquer tipo de prazer, mas os prazeres que alimentam a nossa alma.

"E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações."
(Epicuro, em 'Carta a Meneceu')

A felicidade seria um estado de ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma, um estado de serenidade, que é alcançado por meio da reflexão filosófica e uma avaliação sobre nossa vida e nossas escolhas. O filósofo defendia que todas as pessoas poderiam alcançar a felicidade, e que não era preciso muito para ser feliz, uma das principais condições estava em avaliar o que escolhemos e o que rejeitamos.

Sua filosofia tinha um caráter prático, que ao invés de especular sobre o mundo e a verdade, seria mais interessante se utilizada para olhar para nós mesmos, utilizando o conhecimento como possibilidade de uma vida mais feliz e tranquila. Filosofar envolvia necessariamente ações para consigo mesmo, uma prática ética de cuidado de nossa alma.

Precisamos ter conhecimento sobre aquilo que nos gera prazer e alegria, e aquilo que nos gera dor ou frustração. Procuramos a felicidade em muitas coisas, mas de acordo com o filósofo bastavam poucas para uma vida feliz, como estar em boas companhias, viver em liberdade e dedicar um tempo para avaliar a própria vida. O curioso é que nenhum desses elementos demandam dinheiro, mas sim boas escolhas.

"(...) a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la."
(Epicuro, em 'Carta a Meneceu')

Uma vida feliz seria o mesmo que uma vida simples, como por exemplo se encontrar com bons amigos de tempos em tempos para conviver e compartilhar atividades como comer e beber; levar a vida de maneira autossuficiente, em liberdade, sem depender de outras pessoas; e, acima de tudo, dedicar-se um tempo e espaço para avaliar a própria vida, entendendo que nossas angústias diminuem conforme dedicamos um tempo para refletir sobre elas.

Para que isso fosse possível, seria útil um certo afastamento das distrações da cidade, para se ter um tempo e espaço que possibilitem repensar a nossa vida e nossas escolhas. Por isso, Epicuro escolheu um jardim distante da cidade para construir a sua casa e convidar amigos para morar próximos, tornando este espaço próprio para viver e filosofar, longe do tumulto do comércio e mais próximo do silêncio e da natureza. Não devemos nos preocupar com o futuro, pois apesar de intervirmos no mundo, o futuro não é totalmente nosso.

"Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais."
(Epicuro, em 'Carta a Meneceu')

Epicuro entendia que as pessoas perdem muito tempo com coisas que são pouco importantes, ao invés de buscarem o que realmente importa. Ele não concebia a alma como uma instância eterna, mas mortal, por isso mesmo defendia a necessidade de se viver bem a vida. Mesmo que curta deve ser bem vivida, pois não adiantaria viver muito se a vida não fosse bem aproveitada. E viver bem tem mais relação com a qualidade de vida do que com a quantidade, a partir de uma análise sobre nossas escolhas e consequências.

"Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve."
(Epicuro, em 'Carta a Meneceu')

A busca de prazeres não deve se direcionar a qualquer tipo de prazer, mas prazeres escolhidos a partir da avaliação do bem que eles podem nos proporcionar. Alguns prazeres podem trazer sofrimentos e algumas dores podem gerar prazer. Mas o verdadeiro prazer consiste naquele que proporciona uma ausência de dor no corpo e tranquilidade da alma.


Por Bruno Carrasco.

Referências:
EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). Trad.: Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. São Paulo: UNESP, 2002.
GHIRALDELLI JR, Paulo. A filosofia como medicina da alma. Barueri, SP: Manole, 2012.
GOMES, Táura Oliveira. A ética de Epicuro: um estudo da carta a Meneceu. Revista Eletrônica UFSJ. São João del-Rei, n. 5, p.147-162, jul. 2003.

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