Heráclito e Parmênides: mudança e permanência

Trecho da 'Escola de Atenas', de Rafael Sanzio, 1510

Os filósofos Heráclito e Parmênides, da Grécia Antiga, apresentaram uma das primeiras grandes dualidades e contradições da história da filosofia sobre os seres e o mundo, entre a mudança e a permanência, o não ser e o ser, a experiência sensível e o pensamento, o movimento e a repetição, a transformação e a identidade, questões estas que ainda persistem em nosso tempo.

Heráclito foi um filósofo que viveu entre o século VI e V a.C., pretendeu compreender a multiplicidade das coisas, sem rejeitar as contradições aparentes, buscando apreender a realidade em sua mutabilidade. Para ele, as coisas estão constantemente em transformação. O que temos num dado momento é diferente do que foi há pouco tempo atrás, e será diferente depois. Ele nasceu em Éfeso, na Jônia, onde atualmente é a Turquia, por volta de 544 a.C. 

"Nunca nos banhamos nos mesmos rios."
(Heráclito de Éfeso)

Segundo Heráclito, não há como nos banhar nos mesmos rios, pois as águas nunca serão as mesmas, pois o rio está em constante fluxo, além disso nós também não seremos os mesmos, pois estamos sempre nos transformando. Nos mesmos rios correm outras e novas águas, e em nós mesmos a mudança opera continuamente, estamos sempre deixando de ser algo para nos tornar outro. Ele entendia o mundo e o ser em constante movimento e transformação.

Ele utilizou o elemento fogo para representar seu entendimento sobre o ser e o mundo, que representa o movimento contínuo e incessante, a agitação do devir. Para o filósofo, o ser é múltiplo, pois se constitui de diversas oposições internas, numa luta constante entre contrários, entre a euforia e a melancolia, a alegria e a tristeza, a completude e a ausência. Heráclito faleceu por volta de 484 a.C., por sua filosofia diferenciada ficou conhecido como "o obscuro".

O filósofo Parmênides, contemporâneo à Heráclito, se opôs e contrariou sua filosofia, em especial seu entendimento com relação à mudança. Para Parmênides, o ser é imóvel e estático, ao invés de mutável. Ele entendia que era impensável supor que uma coisa é e não é ao mesmo tempo, estabelecendo indícios do princípio de identidade, posteriormente utilizado na lógica. Ele nasceu em Eléia, na Magna Grécia, por volta de 540 a.C., onde atualmente é a Itália.

Parmênides negou, portanto, a existência do movimento que percebemos no mundo, onde as coisas aparecem e desaparecem, nascem e morrem, ele buscou o que havia de permanente nessa mudança. Segundo ele, esses movimentos acontecem apenas na experiência sensível, em nossa percepção que é ilusória, pois para ele os sentidos nos enganam e apenas o mundo inteligível é verdadeiro. Segundo ele, o movimento não tem lógica; o ser é único, imutável, imóvel e infinito.

Para este filósofo, o mundo percebido por meio de nossos sentidos é ilusório, composto de aparências falsas e opiniões enganosas. Ele contrapôs, portanto, a concepção de um mundo mutável para a noção de mundo estável. Ele dizia "o ser é", no sentido de que este é sempre idêntico a si mesmo, eterno, imutável e pode ser concebido apenas por meio de nosso pensamento. Foi o primeiro a defender a ideia de que a aparência sensível das coisas não existe verdadeiramente, contrapondo o "ser" ao "não-ser".

"O ser é e não pode não ser, o não-ser não é, e não pode não ser."
(Parmênides de Eléia)

Deste modo, Parmênides se opõe a filosofia de Heráclito, que se dedicava ao devir, a constante transformação das coisas, como o dia que virava noite, o novo que envelhecia, ou o vivo que morria, dedicado à multiplicidade do mundo e dos seres. Contrariando Heráclito, ele afirma que a verdade exige a identidade, a imutabilidade e a unidade do ser, negando portanto a mudança e o "não-ser". Para ele, a verdade corresponde à estabilidade e à unidade, ao invés da mudança e da contradição.

A filosofia, que havia iniciado com os os primeiros filósofos como uma cosmologia,  buscando entender o mundo em seus aspectos físicos, passa a se dedicar à metafísica e à ontologia. Todas as concepções de mudança, multiplicidade e contradição passaram a ser entendidas como meras aparências falsas. Essa forma de pensamento será reforçada pela filosofia de Platão (428-347 a.C.), em sua teoria das ideias, que entende o mundo sensível como falso e perecível, e o mundo das ideias como o verdadeiro e eterno.

Essa tendência de desvalorizar o mundo sensível e aparende vai se fazer presente de maneira muito intensa na filosofia seguinte, infuenciando as tendências de filosofia medieval e moderna. Apenas na contemporaneidade essas concepções voltam a ser colocadas em questão, por filósofos como Friedrich Nietzsche (1844-1900), Jean-Paul Sartre (1905-1980), Michel Foucault (1926-1984), entre outros, e tendências como o existenciaismo, a fenomenologia e as filosofias pós-modernas.

Por Bruno Carrasco.

Referências:
ARANHA, Maria Lúcia; MARTINS, Maria Helena. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 2009.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2002.

Heráclito e Parmênides: mudança e permanência Heráclito e Parmênides: mudança e permanência Reviewed by Bruno Carrasco on 20:00 Rating: 5

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.