Filosofia como terapia

O diálogo filosófico é uma atividade que pode ser utilizada para lidar com nossas dificuldades e aflições. A psicologia e os medicamentos nem sempre são suficientes para resolver nossas aflições. A filosofia como terapia pode auxiliar a identificar a questão que estamos atravessando e encontrar novos caminhos para resolver.

Essa prática propõe justamente atribuir à filosofia um caráter prático, com fins terapêuticos, de um cuidado com a existência de maneira ética. Deste modo, entende-se a filosofia não como apenas um conjunto de teorias e apontamentos, mas como uma atividade e terapèutica, que possiblita uma reflexão mais apurada sobre nossas experiências e emoções.

A saúde emocional é um tema que perpassa a filosofia desde muitos tempos. A própria filosofia já foi entendida como uma espécie de "medicina da alma", sobretudo com o estoicismo e algumas filosofias helenísticas. Enquanto a medicina se ocupava do corpo, a filosofia se ocuparia do cuidado com alma, das emoções e da subjetividade.

Em diversos momentos de nossa vida sofremos angústia emocional diante de nossas escolhas e vivências, e isso não significa necessariamente que temos uma doença ou um transtorno, o sofrimento e angústia fazem parte da experiência humana. E inclusive não há respostas prontas para nossas angústias, é preciso encontrar nossa própria compreensão.

"Uma filosofia terapêutica favoreceria portanto um conhecimento intuitivo, ou uma abertura para nossos afetos, muitas vezes inconscientes, o que nos permite entendermos melhor como nossos sentimentos funcionam."
(André Martins, em 'Filosofia e saúde: métodos genealógico e filosófico-conceitual')

A sessão com um filósofo terapeuta geralmente acontece na forma de uma conversa, que aos poucos vai se aprofundando sobre suas aflições e dificuldades emocionais vivenciadas pela pessoa em atendimento, até que esta possa ampliar suas perspectivas sobre si mesma, relacionando com temas e questões que já foram elaboradas por filósofos diversos.

Há diversas maneiras de conduzir a terapêutica, de acordo com as fundamentações e referências de cada filósofo, mas o primeiro momento geralmente consiste em identificar as dificuldades e aflições, e as emoções que estão envolvidas. Em seguida, é o momento de refletir sobre meios possíveis para lidar com a situação, possibilitando uma visão mais ampla de nossa condição, possibilitando fazermos escolhas mais apropriadas.

Esta modalidade de terapia se configura como uma forma de terapia alternativa, que exercita o pensar por si mesmo. algo raro no momento em que vivemos de sociedade de massa e de cultura alienada. Porém, o uso da filosofia como terapia não substitui as práticas psicológicas ou psiquiátricas, mas se oferece como uma outra opção, que aposta no diálogo filosófico em favor da saúde emocional.

Há pessoas que realmente precisam de cuidados psicológicos ou psiquiátricos, com necessidade de serem medicadas e até mesmo internadas, dependendo de suas condições. Mas há também pessoas não estão doentes, apenas atravessam momentos difíceis e crises que podem ser analisadas a partir do exercício da filosofia.

Esta prática, portanto, oferece meios para favorecer o crescimento e a realização interna, que pode ser pautada por distintos filósofos e correntes filosóficas, entre eles Sócrates, Epicuro, Sêneca, Epiteto, Espinoza, Nietzsche, Wittgenstein, entre outros.

"Para Espinosa, a terapêutica consiste basicamente em (I) estarmos aptos a perceber como se dá nosso funcionamento afetivo; (II) selecionarmos nossos encontros (com pessoas, coisas, eventos, alimentos etc.) favorecendo aqueles que nos trazem afetos ativos; (III) no caso dos maus encontros, pois em algum grau são sempre inevitáveis, posto que não podemos nem faz sentido desejar controlar o mundo em torno, trata-se de transformar os afetos passivos sentidos em afetos ativos."
(André Martins, em 'Filosofia e saúde: métodos genealógico e filosófico-conceitual')

Enfim, realmente podemos nos beneficiar no campo da saúde emocional por meio da atividade reflexiva e questionadora da filosofia, sendo utilizada de maneira mais concreta e prática, a partir da realidade presente e viva, ao invés de se focar em questões abstratas e metafísicas.


Por Bruno Carrasco.

Referências:
GUTIERREZ, Suzana Gomes. Sobre a Filosofia como uma Atividade Terapêutica. Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, Série 3, v. 14, n. 2, p. 203-226, jul.-dez. 2004.
MARTINS, André. Filosofia e saúde: métodos genealógico e filosófico-conceitual. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(4):950-958, jul-ago, 2004.

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