Spinoza e a ética dos afetos

Retrato de Spinoza, cerca de 1665, Autor desconhecido

O filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677) foi responsável por uma revolução na maneira de encarar os afetos, propondo uma ética dos afetos como uma alternativa à moral normativa.

Desde Platão, no século IV a.C., as paixões e os afetos eram entendidos como vícios e fracassos que deveriam ser corrigidos por meio da razão, esta controlando os sentimentos, impulsos e prazeres. No século XVII, René Descartes (1596-1650) operou uma separação entre mente e corpo, uma filosofia dualista, entendendo que a mente racional tinha um poder absoluto sobre as ações do corpo e um domínio sobre os afetos e as paixões.

O corpo, na filosofia antiga e moderna, inclusive no cristianismo, foi entendido como fonte de erro, irracionalismo e pecado, tendo de ser continuamente controlado pela razão. Spinoza se colocou contrário a esta tradição, entendendo que os afetos não são irracionalidade. Para ele, a felicidade não dependia do bom uso da razão, mas de uma libertação das potências afetivas, em especial da alegria.

"Se uma coisa aumenta ou diminui, estimula ou refreia a potência de agir de nosso corpo, a ideia dessa coisa aumenta ou diminui, estimula ou refreia a potência de pensar de nossa mente."
(Spinoza, em 'Ética')

Não somos apenas razão, mas também afetos e sentimentos, a razão não é superior ao corpo e nem o corpo é superior a razão, além disso não há uma relação de causalidade entre eles. Spinoza defende uma perspectiva monista, entendendo que mente e corpo compõem a mesma instância, de modo que não há poder de um sobre o outro, nem diferença entre o conhecimento da razão e o conhecimento dos afetos.

Tudo o que há é composto de uma única substância infinita, onde o ser humano é apenas uma modificação finita desta substância, como todas as outras coisas do Universo. O conhecimento nos possibilita compreender o modo como nos colocamos no mundo, seja passivamente ou ativamente. Não é possível alcançar a liberdade agindo contra a natureza, mas nos colocando de forma ativa nela.

A moral, enquanto uma prescrição de conduta, dita as regras de comportamento a partir da razão, orientando uma forma de viver "adequada", regulamentando os costumes. Na filosofia, a moral era defendida pelo argumento da existência de valores transcendentes e da possibilidade do controle da razão sobre os desejos. Diferente desta tendência, Spinoza propõe uma perspectiva imanente, abandonando a moral normativa em favor de uma ética e ciência dos afetos.

Por estar inserido na natureza, o corpo é por ela afetado, quando afetado se comporta de maneira passiva e quando afeta se comporta ativamente. O pensamento tem a possibilidade de direcionar as afecções do corpo, sendo ativo quando é produzido a partir de sua potência e atuando sobre si mesmo. Agimos passivamente quando algo nos acontece sem depender de nós mesmos, e ativamente quando somos a potência criadora daquilo que nos acontece.

O desejo, segundo Spinoza, é fundamental e nos possibilita dedicar a atividades que servem em favor da vida, para a conservação e expansão de sua potência. O desejo acontece passivamente quando é determinado por objetos e eventos exteriores a nós, então sofremos o efeito da paixão, e acontece ativamente quando o desejo é determinado por nós mesmos, quando somos causa de nossos afetos.

Assim podemos pensar uma ética dos afetos, diferente de uma moral normativa, para uma transformação da atividade do desejo, saindo de um estado passivo para o ativo. A partir desta ética, nossa ação seria justa e verdadeira quando primeiramente desejamos tal ação. Sua ética não parte de valores transcendentes, como o "bom" ou o "ruim", mas propõe uma relação imanente, que busca conhecer aquilo que nos faz bem ou mal.

Neste sentido, bom é aquilo que possibilita a passagem de um estado inferior a um estado superior. Aquilo que é bom está no campo das paixões alegres, possibilita um elogio à vida, contrariando tudo o que nos separa dela, como por exemplo os julgamentos e normativas morais que nos colocam contra a nossa felicidade. O caminho para um bom uso das paixões propõe o pensamento mais ativo, juntamente com o corpo, determinando ao invés de ser determinado.

"O caminho para se alcançar uma vida feliz implica necessariamente no aperfeiçoamento das emoções. Há muitas paixões que diminuem o nosso conatus. E outras, por outro lado, o aumentam. A libertação das paixões escravizadoras se encontra na substituição dessas paixões, assegurando assim a independência e a serenidade ante as adversidades do meio."
(Lima, em 'O conceito de felicidade em Espinosa')

A ética de Spinoza não sugere o controle dos desejos, mas o uso destes de uma maneira mais interessante. Um afeto não pode ser controlado pela razão, mas pode ser vencido por outro mais forte, superando assim a tristeza, o ódio ou o medo, fortalecendo a potência de agir do corpo e da mente, que passa a pensar e agir por si mesmo, passando da passividade à atividade.

Spinoza propõe utilizar a razão em favor do corpo, ao invés de controlar ou dominar os afetos. Assim podemos deixar de buscar pautar nossas ações a partir das noções de "bom" ou "ruim", e partimos de nossos afetos constatando aqueles que torna ativa ou passiva nossa potência de agir. Uma vida livre consiste em substituir os afetos que diminuem nossa potência de agir pelos que ampliam.



Referências:
LIMA, Orion Ferreira. O Conceito de Felicidade em Espinosa. Filogênese (Marília), v. 1, p. 99-107, 2008.
SEPE, Fernando. Spinoza crítico de Descartes: uma ética dos afetos como alternativa à moral. Revista Conatus - Filosofia de Spinoza. Vol. 7. No. 13. Julho, 2013.
SPINOZA, Benedictus de. Ética. Trad.: Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

Spinoza e a ética dos afetos Spinoza e a ética dos afetos Reviewed by Bruno Carrasco on 16:40 Rating: 5
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