Arte e afirmação da vida em Nietzsche

Guernica, Pablo Picasso, 1937

Para Nietzsche, a arte - enquanto criação - tem um valor muito superior ao conhecimento, pois se coloca como uma afirmação da vida, ao invés de buscar um mundo ilusório para se proteger dela, agindo diretamente a partir da vida, transformando-a em algo novo e inventivo.

A arte possibilita novas experiências de vida, retomando seu caráter estético e transformador, ao invés de buscar uma "verdade", afirmando a vida em seu caos e em sua plenitude, colocando-se em favor da vida, juntamente com tudo aquilo que a promove: o corpo, os instintos e as emoções.

Friedrich Nietzsche analisou o modo como a razão e a consciência podem se voltar contra a vida, sufocando-a em categorias morais e metafísicas rígidas, negando sua potencialidade e seu valor, por meio da crença num mundo superior de ideias ou da razão, desvalorizando o mundo experimentado dos sentidos e das vivências.

A arte trágica, que se expressa por meio da integração entre o instinto apolíneo e dionisíaco possibilita a união entre a essência e aparência, articulando impulsos contraditórios, ao invés de suprimir um deles. Não se limitando à busca de uma "verdade", "essência" ou do "ideal de mundo", mas aceitando o conflito entre os opostos, por meio da arte trágica.

"Nietzsche argumenta que a tragédia combina dois tipos de estética que são usualmente mantidos em separado nas outras artes: o apolíneo e o dionisíaco. Apolo é o deus da beleza; Nietzsche o associava ao sonho, harmonia, forma e artes plásticas (como a escultura). Dionísio é o deus do vinho; Nietzsche o associava à intoxicação, desarmonia, ausência de forma, sublimidade e música. Nietzsche considera a combinação de ambas as estéticas na tragédia como a forma ideal de arte, uma forma que mais bem nos permite lidar com a vida e afirmá-la."
(Ashley Woodward, em 'Nietzscheanismo')

Segundo Nietzsche, a finalidade da arte trágica é enaltecer a vida, o que não consiste em mascarar as dores, mas numa forma de atuação perante o sofrimento. A arte trágica é aquela que se permite experimentar a dor e a alegria, criando algo a partir dessas experiências.

A arte trágica promove a afirmação da vida e uma potencialização da alegria de viver, um sentimento de que a individualidade não será delimitada ou recortada, mas enquanto abertura à possibilidades de vida, experimentando-as de maneira singular. Diferente da noção de uma individualidade fechada em si, valoriza-se a multiplicidade, unindo as tendências apolíneas e dionisíacas.

"A arte é essencialmente afirmação, divinização da existência. Nietzsche valoriza os impulsos estéticos como condição de criação de novas condições de existência."
(Rosa Dias, em 'Nietzsche, vida como obra de arte')

A valorização da arte trágica, ao invés da busca pelo conhecimento "verdadeiro", possibilita um acesso às questões mais fundamentais da existência, que foram deixadas de lado pela metafísica clássica, instaurando racionalidade, girando apenas em torno da busca das "essências" e das "verdades".

Assim, a arte e a filosofia trágicas são exemplos de forças possíveis para um novo tipo de conhecimento e uma nova forma de vida, que não parte da razão ou das essências, mas que é guiada por valores artísticos, estéticos: o corpo e seus impulsos.

A ciência e filosofia tradicional buscavam encontrar a verdade do mundo e do ser humano através da negação da aparência, entendendo a verdade enquanto uma qualidade que não está disponível no mundo sensível e aparente, mas num outro mundo ideal da razão. Negava-se, portanto, o mundo sensível "falso" para admitir um mundo racional "verdadeiro".

Diferente desta perspectiva, Nietzsche propõe que a arte trágica afirma sua verdade no próprio mundo sensível e experimentado, do modo como este se apresenta. Por isso, há uma superioridade da arte sobre a ciência, afirmando integralmente a vida. A força da arte é a força da afirmação da vida, enquanto que a da ciência acaba sendo a negação da vida.

"A arte é mais potente do que o conhecimento, pois ela quer a vida, enquanto o objetivo final que o conhecimento atinge nada mais é do que - o aniquilamento."
(Nietzsche, em ‘Fragmentos póstumos’)

Nietzsche propõe uma inversão da correlação de forças, contraponto a negação da vida pela racionalidade que busca a verdade por meio da arte trágica, considerada então enquanto uma forma de afirmar a vida do modo como esta se apresenta e acontece.

Segundo o filósofo, a razão científica reprimiu a força criadora da vida, procedimento este que se inicia na razão socrática e na metafísica platônica. Portanto, é preciso revalorizar a arte, para que se possa revalorizar a vida, criando uma superabundância de forças, utilizando a afirmação da vida como um grande estimulante da própria vida, retornando o saber para a vida.

"Foi Nietzsche, na segunda metade do século XIX, que, opondo-se às tendências predominantes nas religiões, na filosofia, na ciência, e na moral, afirmou o valor incondicional do corpo, dos sentidos e da vivência. Tal como eles se manifestam em sua espontaneidade. (...) Afirmar e resgatar o valor incondicional da vida do aquém, da vivência do corpo e dos sentidos."
(Afonso Fonseca, em 'Para uma história das psicologias e psicoterapias fenomenológico-existenciais’)

Nietzsche contrapõe o modo de ser científico e racional, ao modo intuitivo e artístico. O primeiro refugia-se na cápsula, considerando os conceitos como a verdade das coisas, enaltecendo a razão ao invés da experiência, enquanto que o segundo conhece o engano das determinações e dos conceitos, reconhece o valor da vida, se movimentando de maneira livre e criativa.

Para ele, o tipo intuitivo e artista é superior ao lógico e o cientista. Ele não é guiado por convenções, classificações e conceitos, mas direcionado pelas intuições, experimenta a vida por intensidades, se colocando em favor de novas formas de vida, experimentando a vida como um jogo de criança.



Referências:
DIAS, Rosa. Nietzsche, vida como obra de arte. Rio de Janeiro: Civ. Brasileira, 2011.
FONSECA, Afonso. História das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais. Pedang: Maceió, 2006.
MACHADO, Roberto. Nietzsche e a Verdade. São Paulo: Paz e Terra, 2017.
WOODWARD, Ashley. Nietzscheanismo. Petrópolis: Vozes, 2017.

Arte e afirmação da vida em Nietzsche Arte e afirmação da vida em Nietzsche Reviewed by Bruno Carrasco on 23:17 Rating: 5
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