Psicopatologia fenomenológica

(A criança doente II, Edvard Munch, 1896)

Psicopatologia é uma área que se dedica ao estudo do sofrimento emocional, servindo de base para a psiquiatria e a prática clínica de psiquiatras e psicólogos clínicos. O termo psicopatologia resulta da soma de "psique", "pathos" e "logos", que seria algo como "o conhecimento sobre o sofrimento, as paixões e os excessos da alma".

Na concepção tradicional, a psicopatologia procede a um entendimento descritivo e classificativo dos comportamentos e modos de ser que desviam de uma norma ou média. Por meio desta atividade foram elaborados livros e manuais de classificações das doenças e transtornos mentais, que intitulam e qualificam os "desvios" em termos específicos.

Essa classificação das doenças mentais costuma ser utilizada para diagnosticar uma situação clínica e operar com os procedimentos terapêuticos, que muitas vezes são estabelecidos a partir do diagnóstico classificatório. Porém há outras perspectivas em psicopatologia, que se diferenciam desse caráter normativo, entre elas a vertente fenomenológica.

"A hegemonia do modelo biomédico de ciência, a supremacia da psicopatologia não teórica explícita nos DSMs - Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (American Psychiatric Association, 1994) - somadas à sua adoção sistemática, fazem parecer existir, até mesmo para os psicólogos e psiquiatras mais comprometidos com o rigor técnico, uma só noção de psicopatologia, o que não se faz verdade."
(Karwowski, em 'Por um entendimento do que se chama psicopatologia fenomenológica')

A psicopatologia fenomenológica não utiliza descrições e classificações prévias sobre os transtornos mentais ou emocionais, evitando a categorização e a delimitação de sua intervenção terapêutica. Na prática fenomenológica não se parte de uma classificação para tratar a pessoa, mas busca-se aproximar e compreender a experiência da pessoa diante do sofrimento emocional que esteja atravessando.

Deste modo, a proposta fenomenológica se direciona para a experiência da pessoa em sofrimento, sem se utilizar de um saber prévio, mas se aproximando do modo como ocorre essa experiência de maneira particular, da maneira como a pessoa vivencia sua situação, revelando a singularidade ao invés da generalidade, buscando o que se apresenta em cada encontro.

A fenomenologia se dedica a compreender o fenômeno que se manifesta por si mesmo, buscando captar suas singularidades e particularidades. Seu método propõe colocar entre parênteses os pressupostos teóricos e as observações previas, com o intuito de se aproximar do fenômeno que se mostra, que consiste justamente na experiência da pessoa.

Deste modo, sua prática não visa enquadrar uma situação específica numa categorização de sofrimento emocional, mas valoriza a experiência da pessoa, se abrindo para seu modo de experimentar sem rotular ou se utilizar de um diagnóstico pronto. Esse procedimento é entendido como a redução fenomenológica.

"É sentir como o cliente, é ver como o cliente, é entrar em seu mundo para perceber da mesma forma como ele percebe, mas sair sem se misturar as suas sensações e percepções. Reduzir ao fenômeno é fazer com que o cliente entre em contato com a sua experiência, do como ele está se sentindo. É um processo de conscientização. É a partir dessa descrição que se chega ao fenômeno."
(Araújo, em 'O diagnóstico na abordagem fenomenológica-existencial')

Deste modo, visa o modo como a pessoa se sente diante de uma determinada situação, dando valor a sua experiência, do modo como essa acontece e se expressa, se aproximando inclusive do modo com os significados que essa pessoa atribui aos seus sofrimentos, buscando as forças e as fraquezas de sua experiência diante de um sofrimento emocional.

Nesta vertente, os conceitos de "normalidade" e de "saúde emocional" são questionados e problematizados, sendo colocados em crítica e em reflexão, constatando que seus critérios são muitas vezes frágeis e inconsistentes. Na fenomenologia, a saúde emocional está mais relacionada ao exercício da autonomia existencial e da capacidade de superar seus conflitos, do que do "ajustamento" a uma norma.



Referências:
ARAÚJO, Adriana Maria Leite. O diagnóstico na abordagem fenomenológica-existencial. Revista IGT na Rede, v. 7, n. 13, p. 315-323. 2010.
KARWOWSKI, Silverio Lucio. Por um entendimento do que se chama psicopatologia fenomenológica. Rev. abordagem gestalt., Goiânia, v. 21, n. 1, p. 62-73, jun. 2015.
Psicopatologia fenomenológica Psicopatologia fenomenológica Reviewed by Bruno Carrasco on 05:00 Rating: 5

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