Rizoma em Deleuze e Guattari


Rizoma é um termo originado da botânica, utilizado pelos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, para descrever uma maneira de encarar o indivíduo, o conhecimento e as relações entre as pessoas, ideias e espaços, a partir de uma perspectiva de fluxos e multiplicidades, que não possui uma raiz ou centro.

Em biologia, rizoma é uma estrutura de algumas plantas onde seus brotos podem se ramificar em qualquer ponto, transformando-se num bulbo ou tubérculo, podendo operar como raiz, talo ou ramo, independente de sua localização. Trata-se de um modelo que não possui centralidade, que se ramifica e dispersa para vários lados.

Em 'Mil Platôs', este conceito é apresentado para propor um entendimento sobre as relações entre as pessoas e o mundo, sobre o modo como conhecemos e como nos constituímos, a partir de uma noção que não parte de uma única base, mas de distintas conexões e pontos que se ramificam entre si, gerando tantas outras formas possíveis.
"O rizoma procede por variação, expansão, conquista, captura, picada. Oposto ao grafismo, ao desenho ou à fotografia, oposto aos decalques, o rizoma refere-se a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga."
(Deleuze & Guattari, em 'Mil Platôs - Vol. 1')
Diferente da raiz, que é fixa e centrada, que cresce apenas para cima, impedindo a possibilidade de distintas conexões, o rizoma se desenvolve de maneira horizontal, se multiplicando em diversos caminhos e se expandindo para distintas direções, se conectando para todos os lados possíveis.

Oposto a um modelo tradicional e arbóreo, que entende que as coisas surgem a partir de uma mesma raiz e tendem para o mesmo caminho, o conceito de rizoma parte do entendimento que as coisas podem se ligar a tantas outras distintas, e seguir para outros caminhos. Assim, podemos conectar psicologia com as artes plásticas, ou a filosofia com botânica, como fizeram Deleuze e Guattari.
"O rizoma nele mesmo tem formas muito diversas, desde sua extensão superficial ramificada em todos os sentidos até suas concreções em bulbos e tubérculos."
(Deleuze & Guattari, em 'Mil Platôs - Vol. 1')
Entre as características do rizoma estão sua possibilidade de conexão de um ponto a qualquer outro ponto, a heterogeneidade de suas conexões, sua multiplicidade, a possibilidade de se romper em qualquer lugar e estabelecer novas conexões, a ausência de um eixo ou de uma estrutura, e sua singularidade que não segue um modelo previamente definido.

Nesta perspectiva, o modo como o indivíduo se constitui não acontece por meio de uma derivação de princípios primeiros, a partir de uma origem ou identidade, mas por relações e conexões múltiplas e diferenciadas, resultante de uma simultaneidade de elementos que partem de diversos pontos e possibilitam tantos outros caminhos e conexões.

O rizoma não é constituído por linhas de subordinação hierárquicas, como uma raiz que dá origem a ramos que partem do mesmo eixo. No modelo rizomático, qualquer elemento pode alterar e afetar qualquer outro elemento. O rizoma não possui centro, sendo constituído por uma multiplicidade de relações que se afetam e se implicam mutuamente.
"Um rizoma é feito de platôs (...) uma região contínua de intensidades, vibrando sobre ela mesma, e que se desenvolve evitando toda orientação sobre um ponto culminante ou em direção a uma finalidade exterior."
(Deleuze & Guattari, em 'Mil Platôs - Vol. 1')
Neste sentido, propõe-se uma forma de pensamento e vida nômade, que não busca se fixar ou estabelecer bases, mas que se estabelece e se rompe nas distintas conexões. O modelo arbóreo segue a lógica da árvore, entende que é necessário uma base bem enraizada, que desenvolve um tronco comum, onde derivam os galhos, folhas e frutos.

Diferente desta compreensão arbórea, entende-se que o indivíduo e a sociedade se fazem e se desfazem de maneira rizomática, múltipla e complexa. Assim se propõe olhar para o fluxo e o movimento, ao invés de buscar as categorias fixas e o que é estático. Isso possibilita compreender o modo ocorrem as relações entre elementos distintos, que podem parecer até mesmo contraditórios entre si.
"Deleuze e Guattari irão problematizar o modo tradicional de pensar, arborescente, pensando de modo rizomático. (...) Assim, opõe-se ao pensamento arborescente, que é composto por pontos hierárquicos e que compõe um caminho progressivo, no qual se dá valor ao ponto, pois o espaço se limita a dois pontos. Mas o rizoma não é feito de pontos, não tem um início e nem um fim, suas linhas vão a todas as direções, estão sempre a fazer conexões. No rizoma o que importa é o meio, o entre"
(Barros, Munari, Abramowicz)
O modelo arbóreo implica em codificações do fluxo, em classificar e estatizar o movimento. Quando, por exemplo, dizemos que uma pessoa é professora ou arquiteta, reduzimos a multiplicidade da experiência de uma pessoa e de seu movimento a uma forma de identidade fixa. A árvore possui um centro fixo, o rizoma não possui centro e não se fixa.

A esquizoanálise, enquanto proposta clínica, não parte do entendimento do sujeito como constitutivo ou resultante da estrutura da família, tal como propunha a psicanálise tradicional, mas entende o indivíduo enquanto resultante de uma multiplicidade de relações e elementos, entre eles a economia, a cultura, os saberes, a arquitetura, os espaços, entre tantos outros.
"Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo 'ser', mas o rizoma tem como tecido a conjunção 'e... e... e...'."
(Deleuze & Guattari, em 'Mil Platôs - Vol. 1')


Referência:
Barros, Munari, Abramowicz. Educação, cultura e subjetividade: Deleuze e a Diferença. Revista Eletrônica de Educação. São Carlos (SP): Universidade Federal de São Carlos, Programa de Pós-Graduação em Educação, 2007.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. São Paulo: Editora 34, 1995.

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