Filosofia Contemporânea

(The Double Secret, René Magritte, 1927)

A  filosofia contemporânea corresponde a distintas produções filosóficas ocorridas desde meados do século XIX até os tempos atuais. Possuem características bem distintas das filosofias anteriores, questionando a validade do conhecimento, a ideia de verdade e a tradição filosófica. Além disso, se dedicam a novas questões sobre a existência, a subjetividade, o relacionamento, os conflitos sociais, econômicos, científicos e políticos.

A história da filosofia costuma ser dividida em períodos que correspondem a uma série questões e problemas de cada época. Para suas divisões, são utilizados os termos tal como nos períodos históricos, sendo sua datação aproximada: Filosofia Antiga (séc. VI a.C. à V.), Filosofia Medieval (séc. V à XV), Filosofia Moderna (séc XVI à XVIII) e Filosofia Contemporânea (séc. XIX à atualidade).

De um modo geral, a Filosofia Antiga  tinha por questão principal os fundamentos da realidade, a metafísica e a ética pessoal, a Filosofia Medieval se direcionou para conciliar a fé do cristianismo com a razão filosófica, a Filosofia Moderna em grande parte se ocupou da epistemologia, a elaboração de um método de conhecimento seguro e confiável, e a Filosofia Contemporânea  passou a buscar compreender os diferentes significados, saberes e as singularidades dos indivíduos e grupos, entre outros temas.

Ocorreram diversas transformações históricas e sociais entre o final do século XVIII aos tempos atuais, entre elas a Revolução Francesa (1789-1799) com ideais de liberdade, igualdade e fraternidade; a Revolução Industrial, do século XVIII em diante, onde o trabalho passa a ser feito com o uso de máquinas e a produção em série; a Independência da América, onde os países da América deixaram de ser colônias da Europa; o desenvolvimento do capitalismo com a liberdade de comércio e exploração do trabalho humano, as inovações tecnológicas, como a locomotiva elétrica, motor gasolina, avião, telefone; entre outras.

Todas essas mudanças transformaram a maneira de olhar para o mundo e de fazer filosofia. Além desses eventos, outros também tiveram enorme importância, como o Romantismo, movimento cultural, artístico e filosófico do século XIX que passa a valorizar a subjetividade e as emoções; a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, no início do século XX, que assolaram o mundo com muitas mortes e destruição; o Nazismo, o Fascismo, o Socialismo, diferentes ideologias político-econômicas e os conflitos ideológicos gerados entre as tendências ideológicas direita e esquerda; e a revolução na informática, com o desenvolvimento das tecnologias de informação.

Essas novas circunstâncias geraram questionamentos sobre os propósitos das filosofias modernas, que pretendiam alcançar verdades gerais e saberes totalizantes para explicar o ser humano e o mundo de maneira única, a valorização e priorização a razão em detrimento da experiência pessoal e subjetiva, e a suposição de saber "neutro" sobre o mundo. Essas pretensões do período moderno foram muito questionadas e duramente criticadas pelas filosofias contemporâneas.

A ideia de que a razão científica fosse capaz de solucionar e resolver todos os aspectos da vida cotidiana foi colocada em questão pelas filosofias contemporâneas. Entre as perguntas que começam a aparecer neste momento estão: o que é ética e qual sua relação com a vida prática? Qual o significado da existência? A ciência pode resolver os problemas da humanidade? As tecnologias nos trazem benefícios ou prejuízos?

De um modo geral, as filosofias contemporâneas reconhecem a impossibilidade de se alcançar valores e verdades absolutas sobre o mundo e sobre o ser humano, pois compreendem que há uma pluralidade de saberes e entendimentos possíveis, valorizando as experiências individuais e as singularidades, constatando que não há como confiar tanto, ou unicamente, na razão para resolver os problemas do ser e do mundo.

Também rejeitam uma concepção de uma única noção de realidade, deste modo não aceitam o uso do poder por meio da ciência ou do saber, entendendo que coexistem diferentes entendimentos sobre a realidade e os fenômenos, desconfiando da ciência como meio de resolver os problemas da humanidade, passando a olhar para o mundo e para o ser humano de uma maneira mais múltipla e complexa.

Essas filosofias possibilitaram um papel muito mais investigador e questionador da filosofia, constatando nossas limitações de entendimento, questionando o papel da ciência e os mecanismos de poder. As filosofias contemporâneas são marcadas por uma atitude de investigação crítica e de questionamento sobre os saberes instituídos.

"A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo"
(Maurice Merleau-Ponty)

O existencialismo está entre uma das primeiras vertentes de filosofia que se aproxima da tendência das filosofias contemporâneas, pois questiona diversos entendimentos da filosofia tradicional, como o essencialismo, o racionalismo, o idealismo, o evolucionismo, o positivismo e a metafísica.

Entre as vertentes filosóficas deste período estão o Marxismo, que promoveu uma análise socioeconômica das relações materiais de classe e da história; o Existencialismo, que busca compreender a existência humana, valorizando a liberdade e as singularidades; a Fenomenologia, que pretende analisar os fenômenos tal como eles se mostram; a Filosofia Analítica, que propõe uma análise da linguagem, do sentido das palavras e expressões; o Pragmatismo, que faz uma avaliação dos fenômenos por meio de seus aspectos utilitários; o Estruturalismo, que analisa as relações sociais por meio de estruturas relacionais; a Escola de Frankfurt, teoria crítica sobre a sociedade com influências da filosofia do Marxismo; o Desconstrucionismo, questionamento das crenças e valores do pensamento ocidental.

Alguns dos principais filósofos deste período são Arthur Schopenhauer (1788-1850), Sören Kierkegaard (1813-1855), Karl Marx (1818-1883), Friedrich Nietzsche (1844-1900), Edmund Husserl (1859-1941), Ludwig Wittgenstein (1889-1951), Martin Heidegger (1889-1976), Max Horkheimer (1895-1973), Theodor Adorno (1903-1969), Jean-Paul Sartre (1905-1980), Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), Jean-François Lyotard (1924-1998), Michel Foucault (1926-1984), Gilles Deleuze (1925-1995), Jürgen Habermas (1929-), Jacques Derrida (1930-2004).


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.

Referências:
ARANHA, Maria Lúcia; MARTINS, Maria Helena. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 2009.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
COTRIM, G.; FERNANDES, M. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2013.
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