Importância do sofrimento em Nietzsche

Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um filósofo que se dedicou a temas como os impulsos, o sofrimento, a experiência do corpo, os afetos e a moralidade, porém sua obra ainda é pouco explorada na psicologia. Ele questionou e criticou de maneira a tradição da filosofia e da cultura ocidental.

Para ele, o sofrimento não é uma experiência necessariamente ruim, mas pode ser uma forma de potencialização de nossa existência e ampliação de nossas perspectivas de vida. Em sua filosofia, Nietzsche reconhece e retoma a importância do corpo, da afetividade, do sofrimento e da potência.

"Nietzsche recupera o sentido de afirmação do corpo, de afirmação da vivência, e de afirmação dos sentidos. Mesmo, e em particular, como afirmação do sofrimento e da finitude. Como modo natural de potencialização da vida, e de promoção de uma superabundância de suas forças, pela afirmação da potência do retorno da vida."
(Fonseca, em "História das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais')

Nietzsche viveu a segunda metade do século XIX, período atravessado pelo Romantismo, na Europa, movimento artístico que acentuava os sentimentos e as emoções humanas, evidenciando os impulsos e as forças naturais contrapondo à razão. Ele não foi um "teórico", que busca verdades e essências sobre as coisas, mas partia da experiência concreta para anaisar as bases da moral e da cultura ocidental.

Não tendo como intuito propor um sistema de filosofia, ele operou por meio da ampliação de perspectivas, de maneira assistemática e até mesmo antagônica, evidenciando os impulsos, os afetos e as emoções, fazendo um diagnóstico da situação da cultura e possibilitando a criação de novas possibilidades de filosofia e de vida.

Suas perspectivas sobre a saúde e a doença se diferem das concepções tradicionais. Para ele, a experiência de doença e de sofrimento não está desvinculada da experiência de saúde, de modo que as duas se complementam. Há apenas entre elas, segundo o filósofo, diferenças de graus, de modo que uma experiência de sofrimento pode impulsionar uma experiência de saúde.

Para o filósofo, o sofrimento pode ser algo bom, assim como a doença. A dor não é uma objeção à vida, e por ter atravessado diversos momentos de doença e sofrimentos em sua vida, ele comenta sobre a importância dessa condição para que seja possível perceber melhor a sua própria existência. A doença exige uma parada, essa parada possibilita uma revisão sobre sua própria existência.

"O homem que jaz doente na cama talvez perceba que em geral está doente de seu ofício, de seus negócios ou de sua sociedade, e que por causa dessas coisas perdeu a capacidade de reflexão sobre si mesmo: ele obtém esta sabedoria a partir do ócio a que sua doença o obriga."
(Nietzsche, em 'Humano, demasiado humano', aforismo 289)

A filosofia, para ele, não é uma mera experiência de pensamento, mas sobretudo de criação. A afirmação da vida e a ampliação de perspectivas sãomais potentes do que a busca da verdade. Quando nos esforçamos para viver apenas a harmonia e a ordem, deixamos de a desarmonia, a desordem, nos fixando num ideal, tal como a "saúde normal", negando assim o movimento e o fluxo do vir-a-ser.

Nietzsche entende que a tendência para a razão e os ideais acabou priorizando valores superiores à própria experiência, passando a julgar a vida, tomando esta como algo problemático. Foi a busca da verdade e da unidade que negou a aparência, o mundo sentido e experimentado, os afetos e as dores. Influenciando, inclusive, o entendimento que temos de dor e sofrimento na atualidade.

"De fato, assim me aparece agora aquele longo tempo de doença: descobri a vida e a mim mesmo como que de novo, saboreei todas as boas e mesmo pequenas coisas, como outros não as teriam sabido saborear - fiz de minha vontade de saúde, de vida, a minha filosofia..."
(Nietzsche, em 'Ecce Homo')

A dor e o sofrimento não são necessariamente ruins, mas experiências muito valiosas. Sua retomada do corpo na filosofia consiste em não filosofar apenas a partir da razão, mas enquanto uma experiência que parte de um corpo, dos impulsos e dos afetos. A vida é conflito e turbulência, entre ordem e desordem, paz e caos. O sofrimento não é o oposto da alegria, mas parte dela, por isso ele propõe reconciliação entre o sofrimento e a alegria.

A experiência do sofrimento, para ele, pode ser um meio de potencializar a experiência de vida, pois a vida acontece como uma experimentação. Ao afirmar a vida, em sua ordem e em seu caos, em sua beleza e sua feiura, em sua harmonia e sua desarmonia, é possível ampliar as potências em favor da experiência. Ao invés de evitar a dor, ele sugere que façamos algo da dor, criar novas formas de vida a partir do sofrimento.

"A doença libertou-me lentamente: poupou-me qualquer ruptura, qualquer passo violento e chocante. Não perdi então nenhuma benevolência, ganhei muitas mais. A doença deu-me igualmente o direito a uma completa inversão de meus hábitos; ela permitiu, ela me ordenou esquecer; ela me presenteou com a obrigação à quietude, ao ócio, ao esperar e ser paciente...(...) — Aquele Eu mais ao fundo, quase enterrado, quase emudecido sob a constante imposição de ouvir outros Eus, despertou lentamente, tímida e hesitantemente — mas enfim voltou a falar. Nunca fui tão feliz comigo mesmo como nas épocas mais doentias e dolorosas de minha vida."
(Nietzsche, em 'Ecce Homo')

É preciso, portanto, perceber e reconhecer o sofrimento, e a partir dessa experiência estabelecer o que é bom e o que é ruim para nós mesmos, partindo de nossa própria avaliação. É por meio de nossas experiências que percebemos o que nos faz bem e o que não nos faz. Ao invés de partir de razão ou de uma moral estabelecida, ele propõe partir do corpo e dos afetos, propondo uma revisão dos valores a partir das vivências, de modo a experimentar valores afirmativos.

“Não existe uma saúde em si, e todas as tentativas de definir tal coisa fracassaram miseravelmente. Depende do seu objetivo, do seu horizonte, de suas forças, de seus impulsos, seus erros e, sobretudo, dos ideais e fantasias de sua alma, determinar o que deve significar saúde também para seu corpo. Assim, há inúmeras saúdes do corpo.”
(Nietzsche, em 'A Gaia Ciência')

A saúde, para Nietzsche, é um tema pessoal, de modo que não há uma “saúde em si”, ou seja, um conceito que descreva o que seja saúde para todos, mas diversas saúdes e doenças para cada corpo. Por isso, não é possível defender que “o saudável é isso ou aquilo”, de maneira generalista, pois o que é saudável para uma pessoa pode significar doença para outra. Não há “uma saúde normal”, mas inúmeras saúdes. 


Por Bruno Carrasco.

Referências:
FONSECA, Afonso. História das Psicologias e Psicoterapias Fenomenológico Existenciais. Pedang: Maceió, 2006.
GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.
MACHADO, Roberto. Nietzsche e a Verdade. São Paulo: Paz e Terra, 2017.
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia de Bolso, 2005.

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