Grande Saúde em Nietzsche

(Caminhante sobre o mar de névoa, Caspar David Friedrich, 1818)

Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um filósofo alemão que se dedicou ao estudo e diagnóstico da cultura ocidental, constatando os modos de ser tidos por ele como fracos e decadentes, que sustentam posturas de submissão e aceitação, mantendo uma condição de vida doente e reativa, ao invés de afirmar a vida em sua plenitude.

Contrário a esta postura decadente, ele propõe uma ação mais ativa e afirmativa perante a vida, que ao constatar suas dificuldades e problemas não busca evita-los ou agir contra eles, mas que se coloca diante deles e os enfrenta. Trata-se de uma postura que não fica remoendo as dores ou evitando as situações conflituosas, mas se permite experimentar o sofrimento e transcender desta condição.

Segundo o filósofo, é essa a disposição daquele se coloca em favor de si, que possibilita a experiência da grande saúde, que é conquistada por meio da vivência e transmutação da dor e do sofrimento. Não se trata daquela saúde que estamos acostumados, que entende que devemos evitar as situações conflitantes e os sofrimentos, mas de uma saúde que experiencia e diagnostica o que não está saudável, legislando sobre sua existência, de maneira afirmativa.

O tema da saúde e doença, para Nietzsche, está além do entendimento tradicional médico, restrito apenas às condições físicas e sua adaptação ou inadaptação. Recusando essa perspectiva, Nietzsche propõe um entendimento mais amplo, entendendo a existência enquanto um complexo fisiopsicológico, onde não há uma separação entre o físico e o psicológico, mas os dois se afetam mutuamente.

Em sua experiência de vida, apesar de atravessar diversos momentos de enfermidade clínica, ele se considerava extremamente saudável consigo mesmo. Para ele, é possível que uma pessoa esteja doente em sua condição fisiológica, mas saudável consigo mesma, pois a saúde corresponde em encarar a doença como uma possibilidade de vida e não como uma aversão a ela, afirmando a existência apesar de suas alternâncias.
"(...) eu fiz de minha vontade para a saúde, para a vida, a minha filosofia… Pois é preciso que se dê atenção a isso: os anos em que minha vitalidade foi mais débil foram os anos em que deixei de ser pessimista: o instinto do auto-restabelecimento me proibiu uma filosofia da miséria e do desânimo…"
(Friedrich Nietzsche, em 'Ecce Homo')
Nietzsche entende a doença como a incapacidade de um organismo se organizar e se colocar diante da multiplicidade de afetos e circunstâncias que este experimenta. A doença, portanto, seria uma desagregação dos impulsos fisiopsicológicos e a dificuldade de direciona-los em nosso favor. A vontade de saúde corresponde ao uso da doença e do sofrimento como um estímulo à vida, possibilitando novas formas de vida.
"(...) para alguém que é tipicamente saudável uma doença pode, ao contrário, até ser uma estimulação energética à vida, a viver mais. É assim que vejo agora aquele longo tempo de enfermidade: é como se eu tivesse redescoberto a vida de novo, incluindo-me dentro dela."
(Friedrich Nietzsche, em 'Ecce Homo')
A grande saúde, segundo o filósofo, não é algo que possuímos, mas que devemos nos esforçar para alcançar. Ela não é como um objeto que se possa ter, mas algo que deva ser sempre adquirido por meio do reconhecimento da doença, trata-se de uma saúde que nos possibilita o contato com a experiência da doença, e que é conquistada por meio da superação de resistências.
"A grande saúde – Nós, os novos, sem nome, de difícil compreensão, nós, rebentos prematuros de um futuro ainda não povoado, nós necessitamos, para um novo fim, também um novo meio, ou seja, de uma nova saúde, mais forte, alerta, alegre, firme, audaz que todas as saúdes até agora."
(Friedrich Nietzsche, em 'A Gaia Ciência', aforismo 382)
Para ele, a doença tem uma importância muito maior do que pensamos, é por meio do enfrentamento da doença que podemos experimentar a grande saúde; É o contrário da postura de evitar, submissão ou "decadência". Decadente é aquele que foi tomado por sua doença, por sua incapacidade de enfrenta-la, de reconhece-la, preferindo sua evitação, e com isso se afunda ainda mais na doença.
"(...) grande saúde – uma tal que não apenas se tem, mas constantemente se adquire e é preciso adquirir, pois sempre de novo se abandona e é preciso abandonar."
(Friedrich Nietzsche, em 'A Gaia Ciência', aforismo 382)
Com esta constatação, Nietzsche descreve uma postura que se alinha com a grande saúde, que reconhece suas dificuldades e transcende a elas, que busca meios para se curar e utiliza as situações desagradáveis em seu favor, tornando-se mais forte e disposto, ao invés de se sentir pequeno e frágil. Além disso, nunca nega a si mesmo e sua experiência existente total, tanto os prazeres quanto os desprazeres.
"A ele só faz gosto o que lhe é salutar; seu prazer, seu desejo acabam lá onde as fronteiras do salutar passam a estar em perigo. Ele adivinha meios curativos contra lesões, ele aproveita acasos desagradáveis em seu próprio favor; o que não acaba com ele, fortalece-o. Ele acumula por instinto tudo aquilo que vê, ouve e experimenta à sua soma: ele é um princípio selecionador, ele reprova muito. Ele está sempre em sua própria companhia, mesmo que esteja em contato com livros, pessoas ou paisagens."
(Friedrich Nietzsche, em 'Ecce Homo')


Referências:
MARTON, Scarlett. Dicionário Nietzsche. São Paulo: Edições Loyola, 2016.
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo: de como a gente se torna o que a gente é. Porto Alegre: L&PM, 2003.
Grande Saúde em Nietzsche Grande Saúde em Nietzsche Reviewed by Bruno Carrasco on 13:28 Rating: 5
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