Tornar-te quem tu és

O tema de "tornar-se o que se é" aparece muito frequentemente na filosofia de Nietzsche, se destacando de maneira mais enfática em seu livro autobiográfico 'Ecce Homo', cujo subtítulo é "como alguém se torna o que se é", onde ele comenta sobre sua própria vida e algumas de suas obras.

Tornar-se a si mesmo implica em reconhecer-se e afirmar a si mesmo. Nietzsche apresenta o "Torna-te o que és" em oposição ao "Conhece-te a ti mesmo", antiga inscrição no templo de Apolo, em Delfos, que de acordo com Platão teria sido um dos lemas de Sócrates. O "conhecer" se aproxima da razão e da moralidade, enquanto que o "tornar" se relaciona mais com a experiência e da ação.

O "conhecer a si mesmo" implica, um certo caminho perante a si mesmo, um ideal, uma espécie de "conversão", que pressupõe moldar-se a um "si mesmo", como se houvesse uma "essência" a ser alcançada, mediante certas práticas e renúncias. Contrário a esta tendência, Nietzsche propõe o apropriar-se do que se é, ao invés de alcançar um ideal sobre si.

"(...) o conhece-te a ti mesmo seria a fórmula para a destruição, esquecer-se, mal entender-se, empequenecer, estreitar, mediocrizar-se."
(Nietzsche, em 'Ecce Homo')

Um ideal sobre conhecimento de si pode dificultar o contato com seus próprios impulsos e forças, nos apequenando e nos conduzindo a um caminho específico e delimitado, ao invés de possibilitar a apropriação de nossa experiência de vida, nos direcionamos para alcançar um "ideal de si", ao invés de nos colocar ativamente diante da vida.

Nietzsche entende que a busca de conhecer a si mesmo, de se "entender" nos conduz a uma forma de organização sobre nós mesmos, sobre nossos impulsos, que passa então a controlar e a ordenar nossas atividades ao invés possibilitar o contato com a experiência de si. Por isso, ele propõe deixar de lado os ideais e modelos de ser humano, vida, trabalho e relacionamento, para nos lançarmos às experiências.

"Que alguém se torne o que é pressupõe que não suspeite sequer remotamente o que é."
(Nietzsche, em 'Ecce Homo')

Trata-se, portanto, de se aproximar da experiência trágica de vida, que não é apenas alegre ou triste, mas alegre e triste, bela e feia, agradável e desagradável, harmoniosa e desarmônica. Uma postura de afirmar a vida, que valoriza os impulsos não de maneira passiva, mas ativa, criando e agindo a partir das próprias experiências.

Essa postura nos instiga a viver perigosamente, diante da queda dos ideais experimentamos novos valores, encarando como uma oportunidade para se tornar ativo diante da própria vida. Viver com um olhar inocente e sem preconceitos sobre si próprio, inclusive afastando-se de si, possibilitando a abertura para uma multiplicidade de perspectivas.

"o horizonte nos parece enfim ter voltado a ser livre, mesmo que não esteja límpido, nossos navios podem de novo correr os mares, correr ao encontro de todos os perigos, todos os empreendimentos arriscados do homem de conhecimento são de novo permitidos, o mar, o nosso mar, nos oferece de novo o seu espaço aberto, talvez nunca tenha havido semelhante 'mar aberto'."
(Friedrich Nietzsche, em 'A gaia ciência')

Aprendemos, na relação com os outros, a pautar a nossa vida a partir de ideais e expectativas a partir de referenciais da família, escolas, vizinhos, amigos e conhecidos, normas e modelos que com o tempo interiorizamos. Assim elaboramos nossos modos de ser, agir, sentir, vestir, falar, se colocar e se relacionar com os outros; inclusive os ideais de como viver: trabalho ideal, casa ideal, refeição ideal, etc.

Porém, essas experiências não promovem o "tornar-se a si mesmo", mas uma espécie de ajustamento ou conversão a um modo específico de ser, a um modo de vida delimitado. Neste sentido, o "tornar-se a si mesmo" se diferencia do ajustar-se, correspondendo a uma espécie de afinação consigo mesmo, com suas próprias experiências ao invés dos ideais, possibilitando assim emergir suas potencialidades.

"Antes de podermos desenvolver a nossa personalidade singular - que a moral nega opondo-lhe a imagem abstrata e oca do homem 'virtuoso' -, nós devemos reaprender a dizer sim em geral, a afirmar a vida e o mundo como a nós mesmos."
(Balthasar Thomass, em 'Afirmar-se com Nietzsche')

Dizer "sim" à vida, afirmar tal como se apresenta é afirmar a experiência. Isso pode ser encarado de maneira dolorosa, mas Nietzsche nos propõe uma estratégia para lidar com o que nos afeta e com o que não toleramos, trata-se não da negação ou da luta, mas do afastamento. Ao invés de nos esgotar contestando o que nos aborrece, podemos simplesmente desviar o olhar, e criar algo novo.

"Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!"
(Friedrich Nietzsche, em 'A gaia ciência')

Há muitas coisas mais interessantes a serem feitas do que negar ou lutar contra o que nos desagrada, uma delas é justamente afirmar outra coisa, o que caracteriza uma tendência à criação, diferente do ressentimento. Não é preciso se esforçar para deixar de fazer algo, podemos apenas nos dedicar a outra coisa, mais bela, mais interessante e potente.

"É somente como criadores que nós podemos aniquilar."
(Friedrich Nietzsche, em 'A gaia ciência')

Afirmar a vida não é aceitar tudo o que acontece, não significa se submeter às circunstâncias, mas encontrar meios criativos para lidar com as situações. Não basta dizer sim ao mundo, é preciso, inicialmente, dizer sim a si mesmo, e fazer algo daquilo que o impede de tornar-se o que se é. Criar algo novo demanda destruir o antigo, para transformá-lo.

É necessário, portanto, dizer "não" a tudo aquilo que impede nossa capacidade de dizer "sim" à vida. Porém é preciso um tempo para que este "não" possa evoluir para um "sim" criador, onde preparamos a terra e adubamos nossas próprias sementes, fermentando possibilidades de se afirmar e se abrir para novas perspectivas de vida.

"Nós negamos e temos de negar, pois algo em nós está querendo viver e se afirmar, algo que talvez ainda não conheçamos, ainda não vejamos!"
(Friedrich Nietzsche, em 'A gaia ciência')

A coragem é necessária para assumir o risco de tornar o que somos, enquanto algo em processo, inacabado, em permanente criação e destruição, onde não há estabilidade. Não se trata de um caminho fácil, é como andar em corda bamba, sobre um abismo, tal como Nietzsche comenta em 'Assim falou Zaratustra':

"O homem é uma corda, atada entre o animal e o além-do-homem - uma corda sobre um abismo. Perigosa travessia, perigoso o caminho, perigoso olhar-para-trás, perigoso arrepiar-se e parar. O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem, é que ele é um passar e um sucumbir."
(Nietzsche, em 'Assim falou Zaratustra')

Todas essas considerações seguem para assumir-se enquanto ser inacabado, em transformação, de certo modo antagônico, que atravessa paradoxos, enfim, que segue a vida em sua própria experiência, como um andarilho. Por isso, vale mais o desconhecimento, do que o conhecimento de si, que caracteriza o amor à vida, que afirma para transmutar.

Por Bruno Carrasco.

Referências:
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo: como alguém se torna o que é. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
THOMASS, Balthasar. Afirmar-se com Nietzsche. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019.

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