Tornar-te quem tu és

O "tornar-se o que se é" é um tema muito frequente na filosofia de Friedrich Nietzsche (1844-1900), que aparece de maneira mais destacada em seu livro autobiográfico "Ecce Homo", cujo subtítulo é "como alguém se torna o que se é", onde ele comenta sobre seus modos de vida e algumas de suas obras.

Tornar-se a si mesmo consiste em afirmar a si mesmo. Nietzsche apresenta o "Torna-te quem tu és", do poeta grego Píndaro, como uma oposição ao "Conhece-te a ti mesmo", antiga inscrição no templo de Apolo, em Delfos, um dos lemas de Sócrates, de acordo com Platão. O "conhecer" se aproxima mais da razão, enquanto que o "tornar" se relaciona com a experiência e a ação.

O "conhecer a si mesmo" implica um certo caminho perante a si mesmo, uma espécie de ideal de si, uma forma de "conversão", que pressupõe moldar-se a um "si mesmo", como se houvesse um "modelo" a ser alcançado mediante certas práticas e renúncias. Contrário a esta tendência, Nietzsche propõe apropriar-se do que se é, ao invés de buscar um ideal sobre si.

"(...) o conhece-te a ti mesmo seria a fórmula para a destruição, esquecer-se, mal entender-se, empequenecer, estreitar, mediocrizar-se."
(Nietzsche, em 'Ecce Homo')

Um ideal de conhecimento de si pode dificultar o contato com nossas vivências, impulsos e forças, nos  conduzindo a um caminho específico e delimitado, ao invés de apropriar de nossas experiências vividas, sejam estas boas ou ruins, nos direcionando uma forma de ser idealizada, ao invés de nos colocar ativamente perante a vida.

Segundo Nietzsche, a busca de conhecer a si mesmo, de se "entender melhor" pode nos conduzir a uma organização sobre nós mesmos e sobre nossos impulsos, que passa então a controlar e a ordenar nossas atividades, ao invés possibilitar o contato com a experiência de si. Por isso, ele propõe deixar de lado os ideais e expectativas de vida, para nos lançarmos às experiências.

"Que alguém se torne o que é pressupõe que não suspeite sequer remotamente o que é."
(Nietzsche, em 'Ecce Homo')

Trata-se, portanto, de se aproximar da experiência trágica de vida, que não é apenas alegre ou triste, mas alegre e triste, bela e feia, agradável e desagradável, harmoniosa e desarmônica. Uma postura que afirma a vida tal como esta acontece, que valoriza os impulsos de maneira ativa, criando e agindo a partir das próprias experiências.

Essa postura nos instiga a viver perigosamente. Diante da queda dos ideais experimentamos novos valores, encarando esta destruição como uma oportunidade para se tornar ativo diante da própria vida. Trata-se de viver com um olhar inocente e sem preconceitos sobre si próprio, inclusive afastando-se de si, possibilitando a abertura para uma multiplicidade de perspectivas.

"o horizonte nos parece enfim ter voltado a ser livre, mesmo que não esteja límpido, nossos navios podem de novo correr os mares, correr ao encontro de todos os perigos, todos os empreendimentos arriscados do homem de conhecimento são de novo permitidos, o mar, o nosso mar, nos oferece de novo o seu espaço aberto, talvez nunca tenha havido semelhante 'mar aberto'."
(Friedrich Nietzsche, em 'A gaia ciência')

A busca de ideais e modelos de vida não possibilitam o contato consigo, mas apenas um ajustamento a um modo específico de ser, a um modo de vida delimitado. Neste sentido, o "tornar-se a si mesmo" se diferencia do ajustar-se, correspondendo a uma espécie de experienciação de si, por meio de um contato com suas próprias experiências, possibilitando assim emergir suas potencialidades.

Afirmar a vida não é o mesmo que aceitar tudo o que acontece, significa não se submeter às circunstâncias, mas encontrar meios criativos para lidar com as situações. Neste sentido, não basta dizer sim ao mundo e à vida, mas é preciso, inicialmente, dizer sim a si mesmo, e fazer algo daquilo que o impede de tornar-se o que se é. E criar algo novo demanda destruir o antigo, para transformá-lo.

É necessário, portanto, dizer "não" a tudo aquilo que impede nossa capacidade de dizer "sim" à vida. Porém é preciso um tempo para que este "não" possa se evoluir para um "sim" criador, onde preparamos a terra e adubamos nossas próprias sementes, fermentando possibilidades de afirmar a vida e nos abrir para novas perspectivas.

"Nós negamos e temos de negar, pois algo em nós está querendo viver e se afirmar, algo que talvez ainda não conheçamos, ainda não vejamos!"
(Friedrich Nietzsche, em 'A gaia ciência')

A coragem é necessária para assumir o risco de tornar o que somos, enquanto algo em processo, inacabado, em permanente criação e destruição, onde não há estabilidade. Não se trata de um caminho fácil, é como andar em corda bamba, sobre um abismo, assumir-se enquanto ser inacabado, antagônico e em transformação, que atravessa paradoxos, que segue a vida como um andarilho. Por isso, vale mais o desconhecimento do que o conhecimento de si, caracterizando o amor à vida, que afirma para transmutar.

Por Bruno Carrasco.

Referências:
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo: como alguém se torna o que é. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Tornar-te quem tu és Tornar-te quem tu és Reviewed by Bruno Carrasco on 11:50 Rating: 5
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