Críticas à psicologia moderna

A psicologia moderna positivista e tradicional, com sua tendência a classificações e o estabelecimento de uma rígida distinção entre o "normal" e o "anormal" tem feito cada vez mais pessoas se sentirem mal por serem como são, do que auxiliado para lidarem com suas diferenças e dificuldades, em especial quando seus modos de ser não convergem com o padrão tido por "correto".

Esta tendência se utiliza de modelos de "saudável" e "adequado" em oposição ao que é tido por "doentio" ou "inadequado", patologizando as pessoas que não coadunam com os padrões do que é entendido por "saudável" e "adequado". Termos como "ajuste", "maturidade" e "normal" não são usados não apenas como medidas de verificação do sofrimento emocional, mas sobretudo como prerrogativas morais que propõem e instituem modos de ser e de se portar na relação com os outros e consigo mesmo.

Muitas dessas noções são arbitrárias, como quando se diz que uma pessoa é imatura por colecionar gibis ou jogar video-game, inferiorizando e colocando seus hábitos enquanto algo a ser "ajustado", não colocando em questão um piloto de corrida de carros, pois este é visto como um comportamento "adulto". Acredito ser urgente questionar os critérios que são utilizados para pautar as noções de "normal", "adequado" e "saudável", que muitas vezes estão relacionadas a um certo grau de adaptação social.

Além disso, essas tendências à padronização e normalização operam mais por questões morais do que sobre o sofrimento da pessoa, tendo como intuito manter a pessoa num esquadro. Há muitas tendências em psicologia propõem formas de ajustamentos, partindo de uma noção prévia do que seja "adequado" em oposição ao "inadequado", operando uma "correção" dos comportamentos e das emoções, direcionando a um modelo que se supõe "correto", "normal" e "saudável", sem questionar sobre esse modelo.

Precisamos colocar em questão o que temos por "normal" e "anormal", bem como "saudável" e o "patológico", para que seja possível pensar uma prática que, ao invés de extinguir as diferenças, nos possibilite considerar e propociar distintos modos de ser. Por isso torna-se necessário um olhar crítico sobre a atuação daqueles que se dispõem a ajudar outra pessoa terapeuticamente, problematizando suas práticas e questionando os modelos de "saúde" e "doença", para que possam se abrir às experiências das pessoas ao invés de se enclausarar em teorias.

A vida não é algo pronto, os modos de ser e de viver estão em constante movimento e transformação. Não há um modelo adequado de ser humano, pos ele está sempre por fazer, se diferenciando continuamente, se tornando outro. As noções de um modelo de "normal" e "saúde" impedem a criação de novas formas de vida. A psicologia moderna opera a classificação e categorização das experiências de outras pessoas, reduzindo e enfraquecendo o contato com outra pessoa, pois tratam de generalizações e convenções, deixando de lado as peculiaridades de cada um.

Toda essa tendência de psicologia moderna positivista e tradicional não consegue encarar o diferente, pois tende a associar a diferença imediatamente a uma forma de "desajustamento", "problema" ou "falta", passa então a patologizar as diferença, onde a rica experiência do outro é recortada e reduzida a um fragmento totalizado pelo observador. Os psicólogos que assim atuam e declaram "verdades" sobre as pessoas nem sequer tomam contato com suas experiências.

Precisamos urgentemente abrir os olhos e os ouvidos para o diferente e o estranho, não vendo por antecipação, nem supondo saber algo sobre aquilo que se vê, mas apenas olhar, acolher o outro como este se apresenta em suas singularidades e diferenças. Para isso, precisamos largar mão do desejo de enquadrar, definir, classificar, explicar e interpretar. Não há nada a ser interpretado nos modos de ser de outra pessoa, mas uma rica e vasta experiência que podemos nos aproximar em suas peculiaridades próprias.

A existência não é algo a ser examinado e explicado. Não precisamos organizar a experiência do outro em classificações, pois a ordem impõe uma configuração e um caminho, muitas vezes contrário ao fluxo das experiências. Me parece mais interessante acompanhar os modos de ser, sentir, pensar, valorar e reagir de cada pessoa, suas sensações a partir de sua experiência. O que interessa são as diferenças e não as repetições, a experiência e não a explicação.

Assim podemos pensar e possibilitar uma outra psicologia, que rompe com o intuito moderno de analisar, classificar e controlar, conduzindo as pessoas a modelos previamente estabelecidos como "adequados" e "normais", mas nos dispondo à experienciação das vivências de outras pessoas, estando aberto às diferenças, as singularidades e as complexidades de cada um.

Por Bruno Carrasco.

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