Anti-Édipo e a esquizoanálise

Gilles Deleuze e Félix Guattari

Para o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995), nossa experiência de vida acontece em processo, num  devir, que não começa nem termina, apenas flui em movimento. Não criamos o devir, apenas nos colocamos em movimento, percorrendo um trajeto que se faz no processo.

Uma boa alusão para sobre o devir é de um riacho que escava seu leito, tal como sugere Deleuze. Seu trajeto ainda não existe, seu percurso acontece no fluir, no movimento. O trajeto não é propriedade do riacho, o riacho não é seu "dono", mas é algo que lhe acontece, onde o devir se dá justamente neste fluxo, em constante diferenciação.

"Passamos nosso tempo sendo atravessados por fluxos. E o processo é o percurso de um fluxo. O que isso quer dizer? Nesse sentido o processo quer dizer, antes de tudo: é a imagem, bem simples, como de um riacho que escava seu leito. Ou seja, o trajeto não preexiste à viagem. É isso um processo. O processo é um movimento de viagem enquanto que o trajeto não preexiste, ou seja, enquanto ele traça, ele mesmo, seu próprio trajeto. Não se trata do percurso sobre trilhos, não é o espaço estriado, ou seja, não há estrias que preexistem ao movimento."
(Gilles Deleuze, aula 'Anti-Édipo e outras reflexões')

O Anti-Édipo foi a primeira obra publicada por Gilles Deleuze em parceria com Félix Guattari, em 1972. Este livro não foi escrito de maneira sistemática, mas por meio de intensidades, tal como as publicações seguintes de Mil Platôs, ambos com o subtítulo 'Capitalismo e Esquizofrenia', propõem novas perspectivas sobre o incosciente e seu funcionamento a partir do desejo.

A intenção dos autores não era oferecer uma nova teoria totalizante, no sentido de respoder todas as questões e dilemas da vida ou da psiquê, mas caminha mais no sentido de uma "arte", tal como mencionado por Foucault, não buscando responder e entender o "porque" das coisas, mas no sentido de compreender sobre o seu "como": como colocar o desejo na ação, ou como as ordens estabelecidas?

"Seria um erro ler o Anti-Édipo como a nova referência teórica (vocês sabem, essa famosa teoria que se nos costuma anunciar: essa que vai englobar tudo, essa que é absolutamente totalizante e tranquilizadora, essa, nos afirmam, 'que tanto precisamos' nesta época de dispersão e de especialização, onde a 'esperança' desapareceu). (...) Penso que a melhor maneira de ler o Anti-Édipo é abordá-lo como uma 'arte'."
(Michel Foucault, em 'Para uma vida não fascista')

Michel Foucault escreveu que o anti-Édipo pode ser lido como uma introdução à vida não fascista, como uma arte de viver contrária às diversas formas de fascismo, seja na relação com os outros tanto quanto as que já estão instaladas em nós mesmos, inclusive as que estão próximas de surgir. Por isso, não se apresenta como uma teoria totalizante, neutralizando assim os efeitos de poder no próprio discurso, se apresentando como uma arte.

Por isso o interesse de Deleuze pelo processo e pelos fluxos, por aquilo que nos acontece, onde a análise não se trata de uma interpretação nem de significação, tal como ocorre na psicanálise, mas de um traço cartográfico, que se dedica sobre as linhas que cada um traça e seu campo de possibilidades. Mais do que uma história, propõe uma geografia das linhas de fuga, aquelas que apresentam o que há de criador em uma pessoa.

"Eu mesmo gostaria realmente de chegar quase a me conceber e a conceber os outros como, unicamente, pacotes de linhas abstratas. Então, essas linhas não representam nada, mas elas funcionam, elas operam. E, para mim, a Esquizoanálise é unicamente isso: é a determinação de linhas que compõem um indivíduo ou um grupo, o traçado dessas linhas. (...) É por isso que antes que uma história, eu sonho uma geografia, ou seja, uma cartografia. Fazer o mapa de alguém...."
(Gilles Deleuze, aula 'Anti-Édipo e outras reflexões')

Diferente das linhas que nos segmentam - o trabalho, as atividades de lazer, os dias e horários - fazer o mapa de alguém aparece como uma possibilidade de reconhecer as linhas abstratas de fluxo, as rupturas e as fissuras, os pequenos surtos, que muitas vezes impedem que as linhas que nos segmentam se transformem em linhas de morte. Portanto, se há uma intenção, seria de impedir que as linhas se tornem linhas de morte.

A linha de fuga é uma linha de vida, de processo e movimento, que traça novos caminhos vitais. Mas há sempre a possibilidade dessa linha de fuga começar a girar em círculos sobre si mesma, se tornando uma linha de destruição. Por isso, ao invés de estabelecer um modo de ser normalizado e "adequado", em oposição a outras formas tidas por "inadequadas", a análise busca se ater aos fluxos e à criação.

Enquanto a psicanálise opera por associar os delírios sempre à estrutura familiar, a esquizoanálise entende que o delírio faz parte de um campo histórico e social. O delírio é entendido como uma forma de investimento do desejo no campo histórico e social, não sendo apenas um delírio, mas também uma política. As linhas de fuga são aquelas que reconectam o delirante ao campo histórico mundial.

"Se vocês não encontram a linha que compõe alguém, que compreende suas linhas de fuga, vocês não compreendem o problema colocado, ou que se coloca. Ora, com efeito, as linhas de fuga não são uniformes. Uma linha de fuga mesmo é uma operação ambígua. E é isso o processo, é isso que nos carrega. Evidentemente, isso quer dizer que, para mim, as linhas de fuga são o que há de criador em alguém. (...) Se dizemos: fazer uma esquizoanálise de alguém. Isso seria chegar a determinar essas linhas, e os processos dessas linhas."
(Gilles Deleuze, aula 'Anti-Édipo e outras reflexões')

Assim, os afetos e os processos são tomados como mais importantes que os conceitos e as segmentações, encarando a experiência enquanto algo que acontece em fluxos, valorizando assim aquelas que proporcionam vitalidade.


Por Bruno Carrasco.

Referências:
AMARAL, Leonardo. Trechos selecionados da aula Anti-Édipo e outras reflexões. Fractal: Revista de Psicologia, v. 28, n. 1, p. 160-169, jan.-abr. 2016.
FOUCAULT, Michel. Para uma vida não fascista. Prefácio em: DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia, New York, Viking Press, 1977, pp. XI-XIV. Traduzido por Wanderson Flor do Nascimento.

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