Sofrimento emocional e diferença

Jay Hirabayashi dançando Butoh, foto de Joe Mabel, 2014

Tem momentos em nossa vida que atravessamos situações difíceis de sofrimento emocional intenso, seja quando perdemos uma pessoa querida, quando sentimos muitas dúvidas sobre o que fazer ou qual escolha tomar, diante de situações tensas e estressantes, entre tantas outras.

São situações que todos experimentamos num momento ou outro. Isso não significa que temos uma patologia, mas que estamos diante de circunstâncias que nem sempre conseguimos resolver por conta própria, e que podem ser resolvidas com apoio de outras pessoas ou mesmo de terapia, para que possamos reestabelecer nosso equilíbrio anterior, ou apenas nos sentir melhor.

Qualquer pessoa pode atravessar situações de sofrimento emocional, tanto aquelas que vivem uma vida de maneira bem próxima do "padrão" do que é tido por "normal", de acordo com a maioria, e aquelas que vivem de maneira diferente. Quem avalia o sofrimento emocional e a necessidade de cuidados é o próprio indivíduo que vivencia sua dor. 

Algumas pessoas vivem de maneira bem diferente do "padrão", que são vistas como excêntricas, e até mesmo como "desequilibrados socialmente", mas que nem sempre experimentam sofrimento emocional. Portanto, a desadaptação social não é um fator determinante para ser tomado como causa do sofrimento emocional, por isso o uso de critérios de adequação social para a avaliação psicológica é muito questionável.

O sofrimento emocional é resultante da interação entre o individuo e o meio em que vive, não é consequência apenas de uma individualidade fechada em si, mas de sua relação concreta e afetiva com as outros pessoas, espaços, lugares e tempo. O sofrimento surge e se desenvolve na relação que estabelecemos com outros, com a família, o trabalho, a escola, ou diante de adversidades.

Além disso, nem sempre as pessoas que se diferenciavam do "padrão" eram classificadas como neuróticas, obssessivas compulsivas, psicóticas ou anoréxicas. Essas classificações começam a aparecer do século XIX em diante. Se fizermos um breve estudo sobre a história da loucura, veremos que os "desviantes da norma" nem sempre foram vistos como problemáticos, inclusive nem eram submetidos a tratamentos.

A psiquaitria clássica entende os sofrimentos emocionais, os sintomas e as diferenças como sinais de um distúrbio orgânico, como uma questão de doença mental, com origem interna, dentro do organismo. Partindo dessa premissa, ela propõe o tratamento por meio de medicamentos para o reajuste do funcionamento do cérebro a um padrão específico, tido como "adequado".

Na perspectiva psicológica, muitas vezes se entende a doença mental como uma forma de desvio de personalidade, onde a doença provoca uma alteração na estrutura de uma pessoa, ou uma ruptura em seu desenvolvimento. O desvio, neste sentido, é sempre entendido a partir de uma norma, ou uma personalidade "padrão", tida como saudável ou adequada.

Tanto na psiquiatria clássica, quanto na perspectiva psicológica, há implícito um modelo de normalidade e um padrão a ser "alcançado", tido como "normal" e "saudável". Porém, as dferenças entre o normal e patológico são muitas e os colocam em posição de relatividade, pois o que num grupo de pessoas é considerado normal e adequado, pode ser considerado anormal, desviante e até mesmo patológico em outro grupo ou em outro período histórico.

A homossexualidade, por exemplo, era comum e normal na Grécia Antiga, mas passou a ser entendida como um problema no final do século XIX e por quase todo o século XX. Por isso, muitas vezes o trabalho do psicólogo ou do psiquiatra confunde-se com uma ajuste a uma conduta que é moralmente reprovada, correndo-se o risco de patologizar diferentes formas de vida apenas por não serem consideradas como "adequadas" num certo momento ou lugar.

Opondo-se à essas tendências tradicionais, normalizadoras e moralistas sobre a doença mental, há vertentes que problematizam e questionam os conceitos de normalidade convencionais, como a antipsiquiatria, que critica e questiona a psiquiatria tradicional, entendendo a doença mental enquanto criação social, que não existe por si mesma. A psiquiatria social e alternativa também questionam as tendências clássicas sobre a doença mental, apesar de não negarem a existência das doenças.


Por Bruno Carrasco.

Referência:
BOCK, Ana M. Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, M. de Lourdes. Psicologias - uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2002.
FRAYZE-PEREIRA, João. O que é Loucura. São Paulo: Brasiliense, 2002.

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