Breve história da loucura

A Balsa da Medusa, Jean Louis Théodore Géricault, 1819

Michel Foucault (1926-1984) foi um filósofo francês que se dedicou principalmente ao estudo do sujeito, em especial sobre como este se torna sujeito, como se transforma, e quais os elementos que constituem a subjetividade de cada pessoa.

Em suas primeiras obras, Foucault se dedica ao tema da loucura, partindo da compreensão de que os modos de entender e lidar com a loucura não foram os mesmos no tempo, ele faz um resgate histórico da loucura. No livro ‘Doença Mental e Psicologia’ (1954), ele reflete sobre as relações entre a doença mental e sua evolução, a doença e a história do indivíduo, a doença e a existência, questionando a relação entre loucura e cultura.

Em 1961, ele publicou sua tese de doutorado com o título ‘História da loucura’, que, ao lado do livro ‘Nascimento da Clínica’, de 1963, compõem suas primeiras obras, numa forte crítica às práticas psicológicas e psiquiátricas. Na 'História da Loucura', Foucault descreve como o conceito de loucura se transformou através do tempo. Para isso, ele parte do entendimento de que a loucura não é algo natural, nem uma doença, mas uma questão histórica e cultural.

A história e a cultura nos trazem referências ora positivas, ora negativas sobre a loucura e isso nos leva a refletir sobre uma linha tênue que diferencia a saúde da doença. Em alguns momentos temos uma ideia quase romântica da loucura, que associa a loucura à genialidade artística e/ou intelectual. Em outro momento, a figura do louco aparece como a de alguém descontrolado e perigoso, sendo esta última concepção que deu origem à psiquiatria como ciência, no século XIX.

Mas, em que momento a loucura passou a ser uma patologia, ou um problema social? Que mudanças fizeram com que o termo “loucura” passasse a ser entendido como alienação mental, depois como doença mental, até chegarmos ao entendimento atual de sofrimento psíquico?

Segundo Foucault, a concepção de loucura se transformou no decorrer do tempo, tendo influências de crenças, costumes, rituais, da religião e do regime político de cada época. Vamos agora traçar um breve histórico das transformações do sofrimento psíquico, da doença mental e emocional.

Foi numa época relativamente recente que o Ocidente concedeu à loucura um status de doença mental.
(Michel Foucault, em 'Doença mental e psicologia')

Na antiguidade, acreditava-se que as doenças e moléstias mentais eram causadas por ações mágicas ou demoníacas, por conta disso, os primeiros médicos foram sacerdotes e feiticeiros. O louco era visto como alguém excêntrico, ou possuído pelo demônio, devido ao seu comportamento que sempre se distanciava do que era considerado o padrão para um determinado grupo de pessoas.

Na Grécia Antiga, os loucos eram valorizados pela sociedade, considerados como escolhidos pelo Divino, os gregos antigos acreditavam que as crises de agitação estavam relacionadas às forças sobrenaturais. Em Esparta, era comum lançar crianças com deficiências físicas ou mentais em em precipícios com mais de dois mil metros de altitude.

Os primeiros modelos de explicação racional das enfermidades mentais surgiram no ocidente por volta de 450 a.C., com Alcmeón de Crotona, filósofo pré-socrático, e Hipócrates, considerado o pai da medicina, que propôs a primeira teoria sobre os distúrbios mentais, atribuindo ao cérebro a origem de toda a atividade mental humana.

Hipócrates (460-337 a.C.) passa a entender a doença mental como resultante de causas naturais, e não de possessão demoníaca ou feitiçarias. Segundo ele, a patologia cerebral era consequência de lesões cerebrais ou hereditariedade. Ele estudou alguns dos distúrbios mentais e os classificou em três categorias gerais: mania, melancolia e frenite.

Na Roma Antiga, tanto os nobres como os plebeus tinham permissão para sacrificar filhos que nasciam com alguma deficiência. Os médicos Romanos, influenciados pela filosofia gregas dedicavam-se a psiquiatria forense, definindo por meio de leis as patologias mentais.

Durante a Idade Média, os loucos andavam livremente pela sociedade, sendo muitas vezes considerados sagrados. Porém essa situação vai se transformar após o final da Idade Média. Com a lepra controlada, os leprosários começam a ser utilizados para tratamento das doenças venéreas no fim do século XV. Depois passam a ser usados para tratar todos os  tipo de doentes, inclusive os loucos. Os portadores de doenças venéreas e os loucos passam a compartilhar a exclusão.

No Renascimento, entre os séculos XIV e XVI, a loucura era ser vista como um saber esotérico, sendo tema recorrente de expressões artísticas, como peças de teatro e romances. Os loucos “conhecidos” eram tolerados, mas os loucos “estranhos”, com comportamentos desviantes e bizarros, incluindo os bêbados e os devassos, eram confinados em navios numa espécie de exílio ritualístico.

Há na França, no começo do século XVII, loucos célebres com os quais o público, e o público culto, gosta de se divertir; alguns como Bluet d’Arbère escrevem livros que são publicados e lidos como obras de loucura. Até cerca de 1650, a cultura ocidental foi estranhamente hospitaleira a estas formas de experiência.
(Michel Foucault, em 'Doença mental e psicologia')

O início da Idade Moderna, entre os séculos XVI e XVII, é marcado pela presença do filósofo René Descartes (1956-1650) como maior representante da cisão entre razão e desrazão, entendendo a loucura como algo que não faz parte da razão e por conta disso nos conduz ao erro. Deste modo, passou a separar o que era racional e verdadeiro do que era equivocado e falso, silenciando a loucura do discurso racional e internando ela no aspecto institucional.

Em 1656 é fundado por decreto o Hospital Geral de Paris, inaugurando a grande internação dos pobres. O Hospital Geral tinha como objetivo recolher e “hospedar” os pobres de Paris, suprimindo a mendicância e a ociosidade. Pessoas de qualquer sexo ou idade, doentes ou em recuperação, curáveis ou não eram forçados a trabalhar como forma de “purificação”.

Foucault observa que essas casas de internamento se espalharam rapidamente por toda a Europa, especialmente na França, Alemanha e Inglaterra, muitas delas estabelecidas dentro dos muros dos antigos leprosários, sendo mantidas com dinheiro público. A grande internação é o momento onde a loucura é relacionada com a incapacidade para o trabalho e de integrar-se no grupo, passando a se inserir no contexto dos problemas da cidade.

Chega um tempo em que a pobreza não precisa mais ser encarcerada, mas a loucura sim. O louco, além de ser entendido como desajustado, perturbado e perigoso, também é entendido como aquele que não produz, que é incapaz de trabalhar e participar da sociedade, que não consegue se integrar nos grupos sociais, e por conta disso atrapalha a estrutura social e a ordem estabelecida.

Desde a alta Idade Média, o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros; pode ser que sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância, não podendo testemunhar na justiça, não podendo autenticar um ato ou um contrato.
(Michel Foucault, em 'A ordem do discurso')

O entendimento da loucura como uma doença mental, no final do século XVIII, entendendo como um rompimento entre a razão e a desrazão, tal como entre a loucura e a não loucura. No final da Idade Moderna, alguns filósofos e psiquiatras reformistas começaram a ver o confinamento do louco como uma maldade, deixando de ver a loucura como um crime, passando a ver ela como uma doença. Neste momento surge a ideia da existência de um ser normal, anterior à doença, e passa-se a ver o louco como um doente, fora da normalidade.

No final do século XVIII e durante o século XIX, surgem os asilos com valor terapêutico, a loucura passa a ser definida como “alienação mental”, Na França, Philippe Pinel liberta os loucos de Bicêtre, em 1794, e defende sua reeducação através do controle social e moral. Na Inglaterra, Samuel Tuke busca curar os doentes numa casa de campo, livre de grades e correntes. Apesar destes movimentos, não houve um rompimento com a o internamento. Os loucos passam a serem liberados do encarceramento mas colocados sob cuidados médicos.

Tanto para Pinel quanto para seu aluno Esquirol, o asilo era o melhor meio de garantir a segurança pessoal dos loucos e sua família, ao libertá-los de influências externas. Lugar de vigilância e de trabalho como principal meio de cura. É o trabalho que dignifica o homem e transforma o alienado num ser útil e dócil.

Quando a medicina, com o nascimento da psiquiatria, inicia um controle do louco, ela cria o hospício, ou hospital psiquiátrico, como um espaço próprio para dar conta de sua especificidade; institui a utilização ordenada e controlada do tempo, que deve ser empregado sobretudo no trabalho, desde o século XIX considerado o meio terapêutico fundamental; monta um esquema de vigilância total que, se não está inscrito na organização espacial, se baseia na ‘pirâmide de olhares’ formada por médicos, enfermeiros, serventes; extrai da própria prática os ensinamentos capazes de aprimorar seu exercício terapêutico. Mas, além de serem interrelacionadas, umas servindo de ponto de apoio às outras, essas técnicas se adaptam às necessidades específicas de diversas instituições, que cada uma à sua maneira, realizam um objetivo similar, quando consideradas do ponto de vista político. (...) Tornar o homem 'útil e dócil'.
(Roberto Machado, 'Por uma genealogia do poder', prefácio do livro 'Microfísica do Poder', de Michel Foucault, 1985)

Referências
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 2006.
FOUCAULT, Michel. Doença Mental e Psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Universitário, 2000.
FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. Gallimard, 1972.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
BATISTA, Micheline D. G. Breve história da loucura, movimentos de contestação e reforma psiquiátrica na Itália, na França e no Brasil. Revista de Ciências Sociais, n. 40, Abril de 2014, pp. 391-404, fev. 2014.

Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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