Psicologia e poder disciplinar

A psicologia nem sempre esteve relacionada com o cuidado, por muito tempo esteve associada ao controle, a vigilância e a normalização. O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) entendia o sujeito contemporâneo enquanto resultante dos dispositivos disciplinares e das práticas de poder, realizadas por agentes autorizados, entre eles o padre, o policial, os médicos, os psicólogos e psiquiatras.

Segundo Foucault, os dispositivos disciplinares são praticados com o intuito de promover um controle sobre o corpo, por meio do controle de horários e das atividades que devem ser feitas e como devem ser feitas, pelo controle do espaço em que o corpo ocupa ou pode ocupar, inclusive por meio do controle das atividades de distração - quais são adequadas, e por quanto tempo pode-se dedicar a elas.

De início, o papel profissional do psicólogo se iniciou trabalhando com problemas de ajustamento nas áreas da educação e do trabalho. A psicologia era utilizada como um dispositivo do poder disciplinar, sendo inclusive produtora de enunciados de saber-poder, se sustentando por meio de seus discursos, práticas e enunciados de "verdades".

"O psicólogo 'aplicava testes': para selecionar o 'funcionário certo' para o 'lugar certo', para classificar o escolar numa turma que lhe fosse adequada, para treinar o operário, para programar a aprendizagem, etc."
(Figueiredo & Santi, em 'Psicologia: uma (nova) introdução')

Essas práticas ainda fazem parte, por vezes, do trabalho do psicólogo na atualidade, que muitas vezes se pauta de acordo com as necessidades do regime disciplinar, direcionando a liberdade humana a um caminho específico, assujeitando as pessoas a um modelo normativo, desvalorizando seus desejos pessoais, suas necessidades particulares e suas singularidades.

O regime disciplinar opera um controle sobre os corpos, com o intuito de evitar as dispersões, reduzindo assim as diferenças, as particularidades e as excentricidades, por meio da prática da docilização e domesticação dos corpos, sendo efetivado por meio da aplicação das técnicas "científicas" para o controle social e individual.

A disciplinarização dos corpos é frequentemente operada em diversas instituções sociais, entre elas as escolas, as fábricas, as prisões, os hospitais, os asilos, os centros administrativos do Estado, os meios de comunicação, entre tantos outros. Elas não operam de maneira descarada, mas de maneira velada, escondida, dissimulando e nos fazendo crer que somos livres, enquanto nossas escolhas estão sendo direcionadas por elas.

"Trata-se dos procedimentos disciplinares que são praticados em instituições como hospitais, escolas, fábricas e prisões, garantindo uma vigilância e normatização da sociedade autorizada e legitimada pelo saber. Não são estabelecidos por meio de leis, mas pela concordância dos sujeitos para com os discursos de 'verdade'."
(Michel Foucault, em 'A microfísica do poder')

Essas disciplinas reduzem fortemente as possibilidades de exercer nossa liberdade de escolha, por meio de um extenso controle de padrões de condutas, modos de ser, maneiras de se expressar os sentimentos, escolhas que podem ou não ser feitas, gerando uma sensação de permanente cobrança sobre si, para que esteja sempre de acordo com um padrão "adequado" e "normativo".

Tudo isso ocorre no corpo de cada indivíduo, com o intuito de padronizá-lo, normaliza-lo, colocando este a serviço de uma certa "ordem social", onde a psicologia, entre tantas outras áreas do saber-poder, servem ao regime disciplinar, limitando a autonomia e a liberdade de escolha dos indivíduos, por meio de projetos de previsão e controle do comportamento individual.

"Ou seja, o Regime Disciplinar, em si mesmo, exige a produção de um certo tipo de conhecimento psicológico de forma a tornar mais eficazes suas técnicas de controle."
(Figueiredo & Santi, em 'Psicologia: uma (nova) introdução')

O psicólogo do trabalho se dedica à indústria, para torná-la mais eficiente, o psicólogo escolar serve ao sistema educacional, para que tudo ocorra de maneira mais eficaz. Ambos atuam com o intuito de tornar as atividades mais eficientes, porém pouco se dedicam ao indivíduo e suas necessidades particulares de cada indivíduo.

Este regime disciplinar produz corpos dóceis, submissos e adestrados, aumentando suas forças de utilidade e diminuindo suas possibilidades de escolha, promovendo uma postura de obediência constante. Os indivíduos são constantemente vigiados para verificar se o que fizeram está de acordo as regras e o esperado, por uma série de olhares alheios, e não apenas um.

"A disciplina fabrica corpos submissos e adestrados, corpos 'dóceis'. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência)."
(Michel Foucault, em 'Vigiar e punir')

As instituições disciplinares costumam operar de maneira parecida, mantendo seus membros em confinamentos, instalações construídas e organizadas em modelos semelhantes, como ocorrem nos asilos, presídios, quartéis, escolas e hospitais, onde há uma arquitetura direcionada para o controle, onde toda vigilância e normalização é autorizada e legitimada pelo saber.

No início do século XIX, as fábricas precisavam de uma força de trabalho organizada e disciplinada, o que fez surgir uma sociedade reguladora e disciplinada. Deste modo, os indivíduos são constantemente vigiados para verificar se o que fizeram está conforme as regras, de modo que todos se tornam agentes de normalização, passando a exigir a si mesmos e aos outros uma adequação a às normas.

"Torna-se importante, então, mudar comportamento, alterar as práticas, adotar estilos de vida diferenciados, subtrair-se ao grilhão disciplinar que regulamenta a existência singular e coletiva dos indivíduos nos vários e específicos âmbitos da vida cotidiana e institucional."
(Salvo Vaccaro, em 'Foucault e o Anarquismo')


Por Bruno Carrasco.

Referências:
FIGUEIREDO, Luiz Cláudio; SANTI, Pedro Luiz. Psicologia, uma (nova) introdução: uma visão histórica da psicologia como ciência. 2. ed. São Paulo: Educ, 2004.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. 
VACCARO, Salvo. Foucault e o Anarquismo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 2000.

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