Psicologia e disciplinarização

A psicologia não é uma ciência neutra que se dedica apenas ao cuidado, mas faz uso também de práticas disciplinares, como o controle, a vigilância e a normalização. O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) entendia o sujeito contemporâneo resultante de dispositivos disciplinares e das práticas de poder realizadas por agentes autorizados, como o padre, o policial, os médicos, os psicólogos e psiquiatras.

Segundo Foucault, os dispositivos disciplinares são um conjunto de técnicas que visam promover um controle sobre o corpo, por meio do regulamento de horários, das atividades que podem ser feitas e como devem ser feitas, o controle do espaço que cada corpo ocupa ou pode ocupar, o controle das distrações - aquelas que são adequadas ou não, e o controle do tempo que pode ser dedicado a cada uma elas.

"à diferença do que sucede com o conhecimento da natureza, a psicologia não nasce das regularidades, mas das contradições da vida humana. A psicologia da adaptação surge, por exemplo, do estudo das formas de inadaptação; a da memória, do esquecimento e do inconsciente; a da aprendizagem, do fracasso escolar."
(Edgardo Castro, em 'Introdução a Foucault')

No século XIX, as fábricas precisavam de uma força de trabalho organizada e disciplinada, diante de uma estrutração econômica e social que possibilitou o surgimento de uma sociedade reguladora e disciplinada. O papel profissional do psicólogo se iniciou, no século XX, diretamente sobre os problemas de desajustamento nas áreas da educação e do trabalho.

A psicologia era utilizada como um dispositivo do poder disciplinar para "ajustar" e "adaptar" as pessoas na escola e no trabalho, inclusive produzindo enunciados de saber-poder, sustentando suas práticas por meio de seus discursos e enunciados, de "verdades" apoiadas nas técnicas, nos exames e nos testes psicológicos.

"O psicólogo 'aplicava testes': para selecionar o 'funcionário certo' para o 'lugar certo', para classificar o escolar numa turma que lhe fosse adequada, para treinar o operário, para programar a aprendizagem, etc."
(Figueiredo & Santi, em 'Psicologia: uma (nova) introdução')

Essas práticas ainda estão presentes no trabalho de psicólogos na atualidade, que muitas vezes se orientam de acordo com as necessidades técnicas e de normativas disciplinares ao invés de se abrirem para as sensibilidades e necessidades singulares de cada pessoa. Assim, acabam direcionando os modos de ser a uma norma específica, assujeitando as pessoas a um padrão normativo, desvalorizando seus desejos, suas necessidades e diferenças.

O poder disciplinar opera um controle sobre os corpos, com o intuito de evitar as dispersões, reduzindo diferenças, as particularidades e as excentricidades, por meio da prática de docilização e domesticação dos corpos, efetivado por meio da aplicação das técnicas "científicas" para o controle social e individual, organizando assim uma multiplicidade de pessoas, direcionando-as para uma normativa específica.

A disciplinarização dos corpos é frequentemente operada em diversas instituções sociais, como escolas, fábricas, prisões, hospitais, asilos, exército, nos centros administrativos do Estado, nos meios de comunicação, nas famílias, entre outras. Essas técnicas não operam de maneira descarada, mas veladas, dissimulando sua atuação e nos fazendo crer que somos livres, enquanto nossas escolhas estão sendo guiadas por normativas.

"Trata-se dos procedimentos disciplinares que são praticados em instituições como hospitais, escolas, fábricas e prisões, garantindo uma vigilância e normatização da sociedade autorizada e legitimada pelo saber. Não são estabelecidos por meio de leis, mas pela concordância dos sujeitos para com os discursos de 'verdade'."
(Michel Foucault, em 'A microfísica do poder')

As disciplinas reduzem fortemente as possibilidades de exercer nossa liberdade de escolha, por meio de um extenso controle de padrões de condutas, modos de ser, maneiras de expressar os sentimentos, das escolhas que podem ou não ser feitas. Tudo isso acaba gerando uma sensação de permanente cobrança sobre si mesmo e seus modos de ser e agir, para que esteja sempre de acordo com um padrão "adequado" e "normativo".

Essas experiências operam no corpo de cada indivíduo, com vias de padronizá-lo, normaliza-lo, colocando este a serviço de uma certa "ordem social", onde a psicologia, entre tantas outras áreas de saber-poder, acaba servindo ao poder disciplinar, limitando cada vez mais a autonomia e a liberdade de escolha dos indivíduos, por meio de projetos de previsão e controle do comportamento individual.

"Ou seja, o Regime Disciplinar, em si mesmo, exige a produção de um certo tipo de conhecimento psicológico de forma a tornar mais eficazes suas técnicas de controle."
(Figueiredo & Santi, em 'Psicologia: uma (nova) introdução')

O psicólogo do trabalho se dedica à indústria para torná-la mais eficiente, o psicólogo escolar serve ao sistema educacional para que tudo ocorra de maneira mais eficaz. Ambos atuam com o intuito de tornar as atividades das pessoas mais eficientes e técnicas, porém pouco se dedicam às pessoas ou às necessidades particulares de cada indivíduo.

Este poder disciplinar produz corpos dóceis, submissos e adestrados, aumentando suas forças de utilidade e diminuindo suas possibilidades de escolha, promovendo uma postura de obediência e autovigilância constantes. Os indivíduos são constantemente vigiados para verificar se o que fizeram está de acordo as regras e o esperado, por uma série de olhares alheios, e não apenas um.

"A disciplina fabrica corpos submissos e adestrados, corpos 'dóceis'. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência)."
(Michel Foucault, em 'Vigiar e punir')

As instituições disciplinares possuem algumas semelhanças operacionais, elas costumam manter seus membros em instalações construídas e organizadas em modelos estruturalmente semelhantes, nos asilos, presídios, quartéis, escolas e hospitais, onde há uma arquitetura direcionada para o controle e vigilância, onde a prática de normalização é autorizada e legitimada pelo saber.

Os indivíduos estão sendo constantemente vigiados nas instituições, para verificar se o que fizeram está conforme as regras. Com o passar do tempo cada pessoa vai se tornando um "agente de normalização" de si mesma e dos outros, passando a exigir a si e aos outros uma adequação às normas. Porém, é preciso tomarmos consciência disso para que seja possível mudar, por uma atitude de insubmissão.

"Torna-se importante, então, mudar comportamento, alterar as práticas, adotar estilos de vida diferenciados, subtrair-se ao grilhão disciplinar que regulamenta a existência singular e coletiva dos indivíduos nos vários e específicos âmbitos da vida cotidiana e institucional."
(Salvo Vaccaro, em 'Foucault e o Anarquismo')


Por Bruno Carrasco.

Referências:
CASTRO, Edgardo. Introdução a Foucault. Trad.: Beatriz de Almeida Magalhães. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2014.
FIGUEIREDO, Luiz Cláudio; SANTI, Pedro Luiz. Psicologia, uma (nova) introdução: uma visão histórica da psicologia como ciência. 2. ed. São Paulo: Educ, 2004.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. 
VACCARO, Salvo. Foucault e o Anarquismo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Achiamé, 2000.

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