Verdade: veritas, aletheia e emunah


O que é verdade? Será que existe uma verdade universal, uma única concepção do que seja verdade? Ou, pelo contrário, coexistem diversas concepções e entendimentos sobre o que seja a verdade? Será que o entendimento do que seja verdadeiro se transforma no decorrer do tempo?

Há pelo menos três entendimentos sobre o que seja a "verdade" que marcam o pensamento e o entendimento sobre o mundo, sobre os seres e as coisas. Um deles parte do latim "veritas", outro vem do grego "aletheia", e o terceiro do hebraico "emunah".

No ocidente herdamos um entendimento sobre verdade que se aproxima muito ao "veritas" do latim, que relaciona a ideia de verdade com as noções de precisão, exatidão e ao rigor. Trata-se de um relato que busca entender os fatos por meio de enunciados sistemáticos, conferindo ao status de verdade a precisão e o estudo metódico sobre as coisas.

Podemos perceber esta tendência nos discursos de verdade e nos termos que utilizamos ainda hoje, como "veredicto", "verossímil", "averiguado", "verificado", ambos transmitem a ideia de um juízo estabelecido que é legitimado pela noção de verdade enquanto algo que foi minuciosamente verificado, analisado e comprovado.

Este entendimento de verdade, estabelece uma clara distinção entre a verdade e a mentira, onde a mentira estaria relacionada com a ideia de falsificação dos fatos, relacionada ao uso de ideias imaginárias ou enunciados que alterados intencionalmente.

Diferente desta concepção, quando partimos do grego, a verdade era entendida por "aletheia", termo composto por dois elementos: "a", que significa negação, e "lethe", que significa ocultamento. Neste sentido, a verdade seria aquilo que não está oculto, ou que foi desocultado, se opondo ao que está encoberto ou escondido.

A verdade, enquanto aletheia, corresponde ao entendimento de que a verdade está nas coisas mesmas que aparecem, mas para alcançar é preciso que estas sejam desocultadas. Esta compreensão foi abordada por pensadores da Grécia Antiga e pelo filósofo alemão Martin Heidegger, se relacionando com a concepção da fenomenologia, de algo que se mostra por meio de seu desocultamento.

Segundo a fenomenologia, fenômeno é aquilo que aparece, que não se oculta. Entende que há vários desvelamentos possíveis da coisa que aparece, seja esta um objeto, um indivíduo ou um acontecimento. Por isso a fenomenologia ser uma filosofia dos fenômenos, e não dos fatos. Além disso, existem vários níveis de desocultamento, e a verdade estaria justamente no aparecer e desvelar. 

Uma terceira concepção, segundo o hebraico, a verdade carrega o termo 'emunah', e seu significado está mais próximo da ideia de confiança num Deus ou num amigo que cumpre o que promete. Esta compreensão evidencia a importância da fidelidade e da honra num pacto realizado, estando relacionada aos que não traem a confiança.

A origem da palavra emunah é a mesma que a palavra "amém", que significa "assim seja". Por isso, essa noção de verdade está relacionada ao cumprimento de um pacto, contendo uma crença na esperança, na espera do que foi prometido e que será cumprido, se referindo a um futuro que será ou acontecerá. 

De modo sintético, pode-se dizer que veritas está mais relacionada a situações que aconteceram e que podem ser estudadas metodicamente, aletheia se refere as coisas que são, ou que estão sendo, tal como se mostram enquanto estão sendo, e emunah se refere as coisas que serão ou que podem ser. Podemos, portanto, relacionar essas três tendências às noções de passado, presente e futuro.



Referência:
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

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