Existencialismo e fenomenologia - diferenças

(Double Take-Takell, Alexa Mead, 2014)

Existencialismo e fenomenologia são dois termos que se fundem e se confundem em diversos momentos, pois possuem muitos elementos que se aproximam. Há pessoas que falam sobre o existencialismo que estão comentando também sobre a fenomenologia, outros comentam sobre a fenomenologia e também citam a filosofia da existência.

Ambas vertentes correspondem a filosofias contemporâneas, que surgiram e se desenvolveram entre os séculos XIX e XX, sendo uma com maior característica de teoria e outra de método. Apesar de suas semelhanças, há também algumas diferenças que pretendo comentar brevemente neste texto.

Existencialismo é uma filosofia contemporânea que busca compreender a existência humana, partindo dela mesma, refletindo sobre nossa ação no mundo, o modo como nos colocamos e estabelecemos nossos valores, como fazemos escolhas e nos responsabilizamos (ou não) por elas.

O existencialismo propõe um olhar para a existência humana em seus aspectos concreto, singular, afetivo, histórico e temporal. Alguns dos principais temas do existencialismo são a liberdade de ser, a responsabilidade, a angústia, o sentido da vida, a finitude, a autenticidade, o tédio, a entre outras.

"O existencialismo (...) centra sua reflexão sobre a existência humana considerada em seu aspecto particular, individual e concreto."
(João da Penha, em 'O que é existencialismo')

A fenomenologia é um método, uma atitude sobre como conhecemos ou entendemos as pessoas em seu modo de ser subjetivo. Trata-se de uma abertura para a compreensão sobre como captamos, sentimos e percebemos as coisas, o mundo e nós mesmos.

Enquanto método, a fenomenologia rompe com as velhas tendências racionalistas e empiristas, entendendo que não há uma separação entre o sujeito e o objeto, ou seja, entre a consciência e a coisa percebida, mas uma correlação entre eles.

De acordo com a fenomenologia, toda consciência é sempre consciência de um objeto, e o objeto é sempre objeto para uma consciência. Constatando isso, propõe-se observar os fenômenos tal como eles aparecem para uma consciência, buscando captar seus modos específicos de aparecer.

"A palavra 'fenomenologia' significa 'o estudo dos fenômenos', onde a noção de um fenômeno e a noção de experiência, de um modo geral, coincidem. Portanto, prestar atenção à experiência em vez de àquilo que é experienciado é prestar atenção aos fenômenos."
(David Cerbone, em 'Fenomenologia')

Para a prática da psicoterapia, o existencialismo possui uma característica mais de teoria, mas é o método fenomenológico que possibilita ao psicoterapeuta acessar as peculiaridades de cada indivíduo, ao invés de apenas avaliar suas descrições objetivas. Por meio do método fenomenológico, o psicoterapeuta pode compreender as questões subjetivas de uma pessoa, seus modos de ser, de se relacionar consigo mesmo e com os outros.

A psicoterapia fenomenológico existencial não busca detectar sintomas na pessoa atendida, ou interpretar sua fala de acordo com uma metapsicologia, como ocorre no modelo tradicional, mas busca compreender as singularidades existenciais de cada um, ou seja, o modo como cada pessoa se percebe, sente o mundo, lida com suas dificuldades e com a condição de estar no mundo.

A fenomenologia é uma ciência da subjetividade, que compreende que não somos seres meramente racionais, mas que nos relacionamos com as pessoas, com as coisas e com o mundo de maneira afetiva e pré-reflexiva. Esse método não tem como intuito encontrar  "verdades" objetivas sobre o ser humano, mas compreender os modos de ser de cada existente, reconhecendo suas singularidades e sua subjetividade.

O existencialismo e a fenomenologia se entrelaçam por serem duas tendências de filosofia contemporânea que questionam a objetividade da ciência positivista, a metapsicologia e a ideia de que o conhecimento objetivo e as explicações racionais sobre os indivíduos seja o único caminho sua análise. Além disso, ambas se desenvolveram num local e período histórico aproximado, na Europa entre o final do século XIX e início do século XX.

Segundo essas filosofias, a experiência humana no mundo não é tão objetiva quanto se acredita nas ciências naturais, nem tão idealizada como supõem as filosofias metafísicas. Estudar essas filosofias é primordial para se compreender a prática psicoterapêutica na abordagem existencial, e inclusive para entender o caminho das filosofias contemporâneas, que se diferenciam das tendências da filosofia moderna.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.

Referências:
CERBONE, David R. Fenomenologia. Petrópolis: Vozes, 2012.
PENHA, João da. O que é Existencialismo. São Paulo: Brasiliense, 2014.
REYNOLDS, Jack. Existencialismo. 2 ed. Vozes: Petrópolis, RJ, 2014.
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