Psiquiatria tradicional e controle social

A psiquiatria é um campo de saberes e práticas que foi se constituindo visando o controle de um grupo amplo de pessoas distintas em favor de uma sociedade tecnológica de consumo. O psiquiatra tradicional é um agente de poder, que visa a manutenção de uma lógica econômica capitalista e neoliberal.

As pessoas que buscam um atendimento em psiquiatria tradicional são inicialmente convertidas em objetos de estudo, classificadas a partir de uma intrepretação da leitura psiquiátrica, num viés biomédico sobre o estado da pessoa. Tal prática no sentido positivista visa a uma administração da conduta humana.

De acordo com a antropologia cultural, as noções de "nornal" e "anormal" são culturalmente relativas, onde o que é entendido como absolutamente normal numa sociedade pode ser percebido como anormal em outra. Portanto, não há como se utilizar de uma norma universal para a avaliação de seres humanos, pois o "normal" varia de uma cultura para outra e de uma época histórica para outra.

Muitos dos critérios que a psiquiatria utiliza para avaliar e diferenciar o comportamento "normal" do "anormal" são baseados nas convenções sociais e do quanto a pessoa está adaptada às normas de um grupo social específico, avaliadas a partir de noções morais e políticas.

"Não existe fato que seja normal ou patológico em si."
(Georges Canguilhem, em ‘O normal e o patológico’)

O termo "doença mental", que se refere a uma percepção organicista e biomédica, onde as doenças são entendidas como resultantes de problemas no sistema nervoso, que afetam a mente e o comportamento, é usado equivocadamente, pois confunde um problema neurológico a um desvio de conduta, ético e social. Assim, o termo adequado deveria ser "doenças cerebrais".

Outro problema no conceito de doença mental está no fato deste gerar uma circularidade na sua descrição, uma série de comportamentos e experiências que não condizem com o padrão esperado pela sociedade em que vivemos são considerados como "doença mental". Quando questionamos sobre a "causa" desses comportamentos, se diz que é a "doença mental", e quando perguntamos o que é a "doença mental", se diz que são esses comportamentos.

Por exemplo, uma pessoa que vai a uma consulta relatando que está sentindo preocupação excessiva, insônia, tensão nos músculos, medos diversos, excesso de perfeccionismo. Na maioria das vezes essa pessoa é avaliada com o diagnóstico de "ansiedade", se perguntamos as causas da "ansiedade", será dito que são as preocupações, as tensões e os medos.

Assim, os diferentes modos de ser, as inadequações, distintas perspectivas de sentir e experienciar a vida e o mundo, são classificados como "doença mental", além do sofrimento emocional. Porém, nem todo sofrimento emocional é uma doença mental, muitas vezes é uma forma de reagir às solicitações e exigências de um mundo cada vez mais perverso e danoso.

"(...) o sofrimento emocional ou a infelicidade não são doenças; são, pura e simplesmente, sofrimentos emocionais ou infelicidade."
(Nick Heather, em 'Perspectivas radicais em psicologia')

O comportamento entendido como desviante não é necessariamente uma doença, pode ser entendido como uma maneira diferente de se inserir no mundo, perceber e viver. Há inúmeras maneiras possíveis de se levar a vida, porém algumas delas são selecionadas num período e num local como "corretas", enquanto que as outras são descartadas como "inadequadas".

Enfim, o intuito da psiquiatria tradicional é muitas vezes a manutenção deste modelo de cultura aos indivíduos que são desviantes a ela, para que retornem ao modelo de vida estabelecido omo "adequado" e "normal", ajustando os que diferem do esperado, simplesmente para a manutenção de um modo de vida específico. É aí que a psiquiatria exerce uma forma de poder visando o controle social.

A psiquiatria tradicional opera uma forma de saber e poder que mantém as estruturas de uma sociedade desigual e a exploração de uns sobre os outros, servindo à um modelo de economia e à moral dominante, se colocando como anunciadora da verdade sobre os sofrimentos emocionais e desvios das pessoas, operando um ajustamento dos desviantes a um modo de vida que serve a uma ordem moral imperante.

"Evidentemente, a finalidade de qualquer controle social é estabilizar a espécie de sociedade que existe agora e assim impedir que ela mude A contribuição da psiquiatria para esse esforço pode ser vista de diferentes maneiras. Em primeiro lugar, a psiquiatria serve à máquina industrial consertando suas peças quebradas e repondo-as, literalmente, em ordem funcional. Em tempo de guerra, a tarefa da psiquiatria consiste em devolver às linhas de frente as vítimas de traumas neuróticos; em períodos de paz, tem a tarefa análoga de devolver o produtor consumidor à mesa de trabalho, à pia de cozinha e ao supermercado. Em segundo lugar, a psiquiatria reforça a gama cada vez mais restrita de possibilidades humanas exigidas pela sociedade, legislando o que é conduta normal, sã e permissível, e o que é anormal, mórbido e intolerável."
(Nick Heather, em 'Perspectivas radicais em psicologia')


Por Bruno Carrasco.

Referências:
CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.
HEATHER, Nick. Perspectivas Radicais em Psicologia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.

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