Psiquiatria e Antipsiquiatria - David Cooper

O livro 'Psiquiatria e Antipsiquiatria' ainda é polêmico, nele o psiquiatra David Cooper propõe uma completa revisão do conceito de 'alienação mental' vigente na psiquiatria tradicional. Esta revisão inclui uma ampla socialização da psiquiatria e um enfoque crítico e aberto do que se entende por método científico.

Escrito em 1967, o livro ainda é muito atual, pois critica e coloca em questão os fundamentos da psiquiatria convencional. Cooper é o responsável por uma comunidade terapêutica organizada em moldes inteiramente novos. Trata-se de um livro fundamental para todos aqueles interessados em ciências humanas, em especial a psicologia e psiquiatria.

Trechos do livro:

Teremos, de fato, de considerar o ponto de vista de que a Psiquiatria, no âmbito de uma área de grande importância de todo o seu campo de operação, tem colaborado com a sistemática inbvalidação da ampla categoria de pessoas.

Se a repetição de situações histórico-vitais é impossível, então os critérios científico-naturais de verificabilidade e falseabilidade de hipóteses se tornam irrelevantes e devemos encontrar outros critérios mediante os quais possamos saber que dizemos "a verdade".

O paciente procura, assim, tornar mais inteligíveis os acontecimentos reais entre ele e os outros, mas os únicos caminhos através dos quais pode fazê-lo foram previamente classificados como "delirantes" pelo resto de sua sociedade. Constitui uma ironia o fato de que se procurarmos inteligibilidade com bastante empenho, corremos o risco de ser julgados loucos ou de ser, de alguma outra maneira, repudiados ou invalidados.

As análises reducionistas, quer se enquadrem em termos de filosofia, teoria da aprendizagem ou teoria psicanalítica, podem, com muita proficiência e em detalhe, retratar o fundo, extra e intra-organismal contra o qual a pessoa se situa, porém, em cada caso e pela mesma razão, a realidade pessoal em si é omitida.

Existem, em primeiro lugar, os atos pelos quais uma pessoa se apresenta a nós; nestes atos rastreamos uma intenção ou intenções, que se relacionam a uma prévia e mais básica escolha do eu: esta apresentação do eu, que é puro fluxo perpetuamente ultrapassando sua perpétua objetivação de si no mundo, é a dialética constituída. De uma descrição fenomenológica deste momento constituído passamos, por um movimento regressivo, a uma dialética constitutiva: termo com o qual significamos todos os fatores condicionantes sócio-ambientais (intrafamiliais, extrafamiliais, de classe econômica, sócio-histórica), na sua plenitude interpenetrante. Mas não podemos terminar aqui. Por um movimento progressivo, precisamos atingir a síntese pessoal, a totalização total - a totalização pessoal única da totalização condicionante, na base de sua totalização de si. Atingiremos, então, a "verdade" da vida da pessoa ou de algum setor específico de sua vida.

Em outras palavras, temos de seguir o que a pessoa faz com o que é feito a ela, o que ela faz do que ela é feita. Cada um desses termos - "o que ela faz", "o que é feito a ela", "do que ela é feita" - pode ser, individualmente, objeto de uma investigação analítica.

Se se quer falar de violência em psiquiatria, a violência que brada, que se proclama em tão alta voz que raramente é ouvida, é a sutil, tortuosa, violência perpetrada pelos outros, pelos "sadios", contra os rotulados de loucos. Na medida em que a psiquiatria representa os interesses ou pretensos interesses dos sadios, podemos descobrir que, de fato, a violência em psiquiatria é preeminentemente a violência da psiquiatria.

Quem são, porém, as pessoas sadias? Como se definem a si próprias? As definições de saúde mental propostas pelos especialistas usualmente correspondem à noção de conformismo a um conjunto de normas sociais mais ou menos arbitrariamente pressupostos ou que, então, são tão convenientemente gerais - como, por exemplo, "a capacidade de tolerar e desenvolver através do conflito" -, que se privam de significação operacional.

Talvez, contudo, isto não precise ser assim. Talvez exista alguma maneira pela qual possamos escapar ou nos libertar, adentrando-nos em um futuro mais real e menos estereotipado. Penso que existe, mas, neste caso, se corre o risco de ser julgado de louco e de sofrer, por isso, a ameaça do tratamento psiquiátrico.

(...) poder-se-ia dizer que vivemos vidas que são encaixadas, desde o nascimento à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos tão condicionados a viver numa caixa, que, daí em diante, erigimos nossa própria caixa, uma prisão, um receptáculo em nossa volta ... até que, finalmente com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório.

(...) numerosas pessoas, nunca nasceram ou, mais habitualmente, seu nascimento foi apenas um acontecimento obscuro e suas vidas representam somente uma forma marginal de existência. Finalmente, até sua morte podem ser destituídos, tornando-se esta meramente um acontecimento "para outros", ou seja, a pessoa carece de consciência da direção de sua vida no sentido de sua morte pessoal.

Foi somente nos últimos dez anos aproximadamente que certos psiquiatras começaram a levar em conta o outro lado da história da violência. Foi notado que o paciente rotulado esquizofrênico é repetidamente confrontado por exigências contraditórias em sua família e, às vezes, na enfermaria psiquiátrica.

É assim que a família, a fim de preservar na sua inautêntica maneira de viver, inventa uma doença. Sensível a tais necessidades sociais generalizadas, a ciência médica providenciou uma disciplina especial, a Psiquiatria, para conceituar, formalizar e classificar esta doença e fornecer seu tratamento.

O paciente mental, uma vez assim rotulado, é obrigado a assumir o papel de doente. Essencial a este papel é certa passividade. Supõe-se que há uma doença que, vindo de alguma maneira de fora da pessoa, constitui um processo que a altera. O paciente é afetado, alterado de maneira tal, que seu próprio afetar e alterar se tornam relativamente inessenciais. Ele é coisificado até se converter no objeto em que o processo patológico se elabora.

Com fundamento em que isto violenta a realidade humana, precisamos questionar toda esta maneira de pensar, centrada na noção de passividade, do ser alterado por um processo patológico, biológico, e/ou psicológico e/ou social.

Não obstante, ainda é quase revolucionário sugerir que o problema não reside na chamada "pessoa doente", porém na rede de interações de pessoas, particularmente sua família, da qual o paciente admitido, por um truque de prestidigitação conceitual, já foi abstraído. Dito em outras palavras, a loucura não se encontra "numa" pessoa, porém num sistema de relacionamentos em que o "paciente" rotulado participa: a esquizofrenia, se é que significa alguma coisa, constitui um modo mais ou menos característico de comportamento grupal perturbado. Não existem esquizofrênicos.

No hospital psiquiátrico tradicional, atualmente, a despeito da proclamação de progresso, a sociedade consegue o melhor de ambos os mundos - a pessoa, que é "vomitada" para fora de sua família, para fora da sociedade, é "engolfada" pelo hospital e, então, digerida e metabolizada, fora da existência como pessoa identificável. Creio que isto deve ser encarado como violência.

Os graus de processo são os seguintes: em primeiro lugar, há um ato negativo, um ato de invalidação de uma pessoa por outros, o que pode envolver rotulação diagnóstica, sentença em julgado, remoção física eda pessoa do seu contexto social; em segundo lugar (concomitantemente, ao invés de cronologicamente depois), este ato negativo é negado de várias maneiras: sustenta-se que a pessoa se invalidou a si própria ou foi invalidada pela sua debilidade inerente ou pelo processo da doença, nada tendo outras pessoas a ver com a questão. (...) Os homens "bons", "mentalmente sadios", que se definem como tais ao definir certos outros de seu meio como "loucos" e "maus", expulsando-os, a seguir, do grupo, mantêm uma homeostase segura e confortável com esta mentira sobre a mentira.

Há um sentido em que as "afirmações delirantes" de Artaud representavam uma profunda realidade da vida, uma realidade que, dezessete anos após sua morte, apenas começamos a apreciar: ele tinha mais a dizer em relação à loucura do que todos os livros didáticos de Psiquiatria, mas a dificuldade consistia em que Artaud via demais e falava demais a verdade. Tinha de ser curado. Não é talvez excessivamente absurdo afirmar que, com muita frequência, é quando as pessoas começam a ficar mentalmente sadias que elas entram no hospital de doenças mentais.

Por enquanto, se alguém tiver de ficar louco, a tática de aprender em nossa sociedade é a da discrição.


Referência:
COOPER, David. Psiquiatria e Antipsiquiatria. Tradução: Regina Schnaiderman. São Paulo: Editora Perspectiva, 1989.

Psiquiatria e Antipsiquiatria - David Cooper Psiquiatria e Antipsiquiatria - David Cooper Reviewed by Bruno Carrasco on 01:30 Rating: 5
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