Terapia dos afetos em Spinoza e Nietzsche

Baruch Spinoza elaborou uma ética dos afetos que pode ser entendida como uma prática terapêutica consigo mesmo, que pode ser relacionada inclusive com elementos da filosofia de Friedrich Nietzsche. Apesar de estar situado no período da filosofia moderna e ser relacionado ao racionalismo, Spinoza possui grandes diferenças com relação à de René Descartes.

Descartes propõs uma filosofia dualista, separando mente e corpo, apontando a mente como responsável por controlar e conduzir o corpo. Suas perspectivas iam de encontro com uma moral normativa, onde a mente deveria exercer um controle sobre o corpo, os afetos, os impulsos e as paixões.

Diferente dessa tendência, Spinoza entendia que não há separação entre mente e corpo, nem o poder de um sobre o outro. Segundo ele, tudo é composto de uma substância infinita, onde somos apenas uma modificação finita desta substância, tal como todas as coisas do Universo. Por fazermos parte da natureza, somos por ela afetados e também exercemos afetos a todo momento.

Ao invés de se ocupar com a distinção moral entre bom e ruim, Spinoza se interessou pela ética, os afetos e a ação. Segundo ele, agimos passivamente quando algo nos acontece sem que dependa de nós, e agimos ativamente quando somos a potência criadora daquilo que nos acontece. O filósofo propõe sair de um estado passivo para um estado ativo, tomando conhecimento daquilo que nos faz bem e do que nos faz mal.

O caminho para se alcançar uma vida feliz implica necessariamente no aperfeiçoamento das emoções. Há muitas paixões que diminuem o nosso conatus. E outras, por outro lado, o aumentam. A libertação das paixões escravizadoras se encontra na substituição dessas paixões, assegurando assim a independência e a serenidade ante as adversidades do meio. (Lima, 2008, 98p.)

Ao invés de buscar controlar o corpo, os desejos e os afetos, como propunha Descartes, Spinoza nos sugere utilizar os desejos de uma maneira mais interessante, direcionando da passividade à atividade, utilizando a razão em favor do corpo, tomando conhecimento dos afetos e buscando ir de encontro com aqueles que favorecem nossa potência de agir de maneira ativa.

Para Espinosa, o melhor remédio para os afetos passivos é tomar conhecimento deles, para que se possa buscar os afetos ativos. Sua avaliação não é moral, no sentido de certo ou errado, mas ética, no sentido do que agrega ou o que dissolve, o que amplia e o que inferioriza, o que aumenta e o que diminui a nossa potência de agir.

Assim, ele destaca a importância em conhecer nosso funcionamento afetivo, de modo a realizar encontros que aumentem a nossa potência de agir, e deixar de lado aqueles que diminuem. Segundo o filósofo, o aumento da potência de agir está diretamente relacionado com a alegria. Do mesmo modo, a diminuição da potência de agir estaria relacionado com a diminuição da alegria de viver.

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, entendia que a felicidade pode ser alcançada a partir da experiência de dor e sofrimento. Segundo ele, o mais interessante não era evitar os sofrimentos, mas experienciar e superar, de modo a transformar tais circunstâncias em saúde, fazendo algo novo e criativo das dores, afirmando a vida, tanto em seu caos quanto em sua plenitude.

A filosofia de Nietzsche, parece sugerir-nos o autor, ao reconhecer a dor como condição necessária do prazer, a justifica, e com isso, justifica também a vida. (...) os impulsos apolíneo e dionisíaco, a partir de cujo influxo esta cultura se forma e se desenvolve, são forças naturais através das quais a vida diz sim a si mesma. (Benchimol, 2013, 143p.)

O caminho para uma Grande Saúde, segundo Nietzsche, demanda uma reavaliação dos valores e atividades que compõem nossos movimentos, buscando uma recriação ética pessoal, visando valores e atividades que ampliam nossas potências, entendendo a felicidade resultante do sentimento de que a potência aumenta, que um afeto foi superado, possibilitando assim novos modos de vida.

A saúde, para Nietzsche, está relacionada com a capacidade de manter os afetos em movimento, criando novas formas de vida, buscando superar os momentos de dificuldades, se recriando constantemente. Trata-se de uma transformação da doença e dos sofrimentos em novos modos de vida, mais salutares e interessantes para si, fazendo da dor uma experiência criativa e afirmativa.

De fato, assim me aparece agora aquele longo tempo de doença: descobri a vida e a mim mesmo como que de novo, saboreei todas as boas e mesmo pequenas coisas, como outros não as teriam sabido saborear — fiz da minha vontade de saúde, de vida, a minha filosofia...
(Nietzsche, em 'Ecce Homo')

Esse procedimento se inicia com um diagnóstico de nossa dinâmica afetiva, com o intuito de combater os afetos do ressentimento, atuando de maneira seletiva, escolhendo aquilo que nos potencializa. A vida é entendida como um movimento constante de auto-superação, onde todo vivente busca se expandir para tornar-se mais, tudo está em crescimento e expansão, buscando se ampliar e transbordar.

Nietzsche e Espinosa entendem que o aumento da potência de agir depende da escolha e criação de novos valores e modos de vida, caminhando para uma ética da afirmação da vida, onde podemos pensar numa terapêutica que atue a partir da dinâmica afetiva, em favor do que potencializa uma vida em fluxo, movimento e criação, deixando de lado ou se afastando do que bloqueia ou inferioriza.

Referências Bibliográficas:
BENCHIMOL, Márcio. Dores do parto, dores do mundo: notas sobre a oposição de Nietzsche a Schopenhauer. Estudos de Nietzsche, [S.l.], v. 4, n. 2, nov. 2013.
LIMA, Orion Ferreira. O Conceito de Felicidade em Espinosa. Filogênese (Marília), v. 1, p. 99-107, 2008.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo: como alguém se torna o que é. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
SEPE, Fernando. Spinoza crítico de Descartes: uma ética dos afetos como alternativa à moral. Revista Conatus - Filosofia de Spinoza. Vol. 7. No. 13. Julho, 2013.
SPINOZA, Benedictus de. Ética. Trad.: Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

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