A fenomenologia existencial

A fenomenologia pode ser descrita como um método, uma atitude ou uma disposição para com o fenômeno, que não busca interpretar nem objetificar, mas descrevê-lo do modo como se apresenta. Pode ser utilizada em diversas áreas de humanas, na psicologia costuma ser usada nas abordagens existenciais, humanistas e na gestalt-terapia.

Esta disposição se coloca ao estudo e compreensão do fenômeno do modo como este se apresenta a uma pessoa ou a um grupo de pessoas. O fenômeno consiste justamente na experiência e percepção, do modo como captamos, entendemos, sentimos e somos afetados pelas vivências, resultantes de uma correlação entre o ser e o mundo, a consciência e o objeto, a subjetividade e a objetividade.

"A palavra 'fenomenologia' significa 'o estudo dos fenômenos', onde a noção de um fenômeno e a noção de experiência, de um modo geral, coincidem. Portanto, prestar atenção à experiência em vez de àquilo que é experienciado é prestar atenção aos fenômenos."
(David Cerbone, em 'Fenomenologia)

Esta correlação implica justamente em entender que em tudo o que percebemos ocorre por meio de uma relação entre o percebido e aquele que percebe, entre o sujeito e suas experiências, onde um não se separa do outro. Pode ser entendida como a intencionalidade, que consiste no direcionamento da consciência para o objeto, ao mesmo tempo que o objeto se dispõe à consciência.

Enquanto método, se difere do racionalismo e do empirismo. O racionalismo buscava entender os objetos a partir da razão e do sujeito do conhecimento, priorizando o sujeito e o pensar, enquanto que o empirismo entendia os objetos a partir da observação destes, mediada por instrumentos objetivos de medição, como o uso de uma régua para medir o tamanho ou uma balança para medir o peso.

A fenomenologia rompe com tais perspectivas pois busca captar o fenômeno do modo como este se apresenta para o sujeito, destacando uma relação singular entre o sujeito e a coisa percebida, tendo como intuito a descrição dessa relação do modo como acontece, sem a tentativa de interpretar algo ou torna-la objetiva, mas captando suas singularidades.

O existencialismo de Jean-Paul Sartre oferece um contraponto para com a perspectiva predominante no entendimento do ser humano na filosofia ocidental, o essencialismo, que entende o ser humano previamente determinado, fechado em si, definido e estático. Diferente desta, a concepção existencialista entende o ser humano em constante transformação, aberto ao mundo, num constante vir-a-ser.

"O existencialismo surge, pois, como uma teoria que afirma o primado ou a prioridade da existência. Mas em relação a que afirma este primado ou prioridade? Em relação à essência."
(Paul Foulquié, em 'Existencialismo')

Sartre entende que o ser humano é livre, pois a todo momento pode fazer escolhas, mas é também condenado, pois a cada escolha que faz está escolhendo a pessoa que vai se tornar a partir desta escolha. Por isso, a liberdade implica numa responsabilidade ética e uma permanente angústia, pois nunca sabemos qual será a melhor escolha a ser feita, apesar disso, a todo momento temos de escolher.

Na perspectiva fenomenológica, o mundo não é o resultado de especulações a partir da razão, nem um algo objetivo que possa ser calculado pela medição, mas um mundo vivido, sentido, experienciado. Trata-se de uma perspectiva que leva em consideração o modo como captamos o mundo, os espaços e as relações cotidianamente, a partir de nossas percepções, sentimentos e pensamentos.

Diferente da tendência da ciência positivista, que prioriza o que pode ser calculado e medido, a fenomenologia existencial se volta para o mundo da vida, ou seja, o mundo tal como é vivenciado a partir de nossa experiência. Portanto, não pretende explicar objetivamente as experiências, mas se esforça em compreender o modo como experienciamos a vida.

"A reflexão fenomenológica vai em direção ao 'mundo da vida', ao mundo da vivência cotidiana imediata, no qual todos nós vivemos, temos aspirações e agimos, sentindo-nos ora satisfeitos e ora contrariados."
(Yolanda Forghieri, em 'Psicologia Fenomenológica')

A fenomenologia existencial busca compreender o ser existente em movimento e transformação, contextualizando suas experiências e as relações que estabelece. Pretende-se de tomar contato com a existência a partir da própria existência, em sua concretude e singularidades, se colocando aberto ao que se mostra, evidenciando a liberdade de escolha, sem buscar interpretar.

Há algumas diferenças entre as perspectivas sobre a fenomenologia e o existencialismo, de acordo com cada autor e seus temas de investigação. Entre os principais autores em fenomenologia estão Edmund Husserl, Margin Heidegger, Merleau-Ponty. Os mais destacados existencialistas foram Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.



Referências:
CERBONE, David. Fenomenologia. Petrópolis: Vozes, 2014.
FORGHIERI, Yolanda. Psicologia Fenomenológica. São Paulo: Cengage Learning, 2019.
FOULQUIÉ, Paul. O Existencialismo. São Paulo: DIFEL, 1975.
LIMA, Antônio Balbino, org. Ensaios sobre fenomenologia. Ilhéus, BA: Editus, 2014.
PENHA, João da. O que é Existencialismo. São Paulo: Brasiliense, 2014.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Petrópolis: Vozes, 2014.

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