Epicuro e o Tetrapharmakos

Epicuro entendia que a filosofia deveria ter um uso prático, ao invés de apenas especular sobre as coisas. Ele utilizava o filosofar com a intenção de olhar melhor para nós mesmos, buscando conhecer o que nos proporciona uma vida feliz e tranquila. Segundo ele, o conhecimento de nossos desejos possibilita direcionar melhor nossas escolhas e recusas, em favor da saúde de nosso corpo e a serenidade do espírito.

Para este filósofo grego do período helenístico, a filosofia era um caminho que possibilitava uma vida feliz e tranquila, sendo útil para qualquer um, seja novo ou velho, mas que demandava um certo exercício. Ele comenta na 'Carta sobre a felicidade (a Meneceu)' que é útil ao jovem, para que possa levar a vida sem medo sobre que pode acontecer, e para o velho para que possa se sentir mais jovem, recordando das coisas boas do passado.

"Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou, ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la."
(Epicuro, em 'Carta sobre a felicidade')

A felicidade, para ele, consistia na ausência de dores e preocupações, e para isso bastava o conhecimento e a autoavaliação. Sua filosofia tinha como intuito proporcionar uma vida feliz, portanto o filosofar não era apenas uma questão de raciocínio ou abstração, mas envolvia ações para consigo mesmo, como uma prática ética de cuidado de si, destacando a simplicidade como modo de vida.

Segundo Epicuro, tudo que é bom é também simples, e pode ser alcançado facilmente. Por exemplo, se uma pessoa está com fome, uma refeição basta, não importando ser algo específico, desde que seja de acordo com a fome que a pessoa estivesse sentindo no momento. Assim, um prato muito cheio poderia fazer mal a quem que tem pouca fome, do mesmo modo um prato com pouca comida não fará bem ao que tem mais fome.

"Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte."
(Epicuro, em 'Carta sobre a felicidade')

Com influências da filosofia de Demócrito (460-370 a.C.), Epicuro não concebia a alma como uma instância eterna, mas algo mortal, por isso defendia a necessidade de se viver bem a vida enquanto não morremos, visto que a morte seria o fim da vida. Mesmo que a vida seja curta, esta deve ser bem vivida, pois não adiantaria viver por muito tempo se a vida não for bem aproveitada.

Neste sentido, viver bem teria mais relação com a qualidade de vida do que com a quantidade de tempo vivido, por isso o filósofo evidenciava a necessidade de se atentar para o que, a cada momento, escolhemos e rejeitamos, de modo a priorizar o que nos fornece uma sensação de tranquilidade da alma. O mais importante não era a duração da vida, mas o modo como é vivida.

"Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos."
(Epicuro, em 'Carta sobre a felicidade')

Na perspectiva de Epicuro, o prazer era entendido como o início e o fim de uma vida feliz, juntamente com a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. O prazer é um bem pois pode ser escolhido ou recusado, por isso devemos aproveitar e escolher bem os prazeres que nos dedicamos. Não se trata do prazer do "gozo dos sentidos", mas o prazer que proporciona tranquilidade.

Portanto, os melhores prazeres não são aqueles que nos colocam em movimento ou que nos trazem perturbações, mas aqueles que nos possibilitam a sensação de repouso, a ausência de sofrimentos do corpo e da alma. O prazer em movimento é aquele que resulta da satisfação de um desejo, mas que pode se transformar numa insatisfação quando não realizado.

Diferente deste, o prazer em repouso possibilita uma saciedade constante, que não é perturbada pelo sofrimento ou pelo desejo. Por isso, o principal prazer que Epicuro se refere não é o do corpo, mas o da alma, sendo mais profundo e completo. O corpo vive apenas a sensação presente, enquanto que a alma recorda do passado e se remete ao futuro.

"Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma."
(Epicuro, em 'Carta sobre a felicidade')

A busca dos prazeres não se direciona a qualquer tipo de prazer, mas aos prazeres escolhidos por meio de uma avaliação sobre o que podem nos proporcionar. Há prazeres podem trazer sofrimentos e dores podem nos proporcionar prazeres. O verdadeiro prazer consiste naquele que possibilita uma ausência de dor no corpo e a tranquilidade da alma, por isso o prazer em repouso.

Neste sentido, a ética de Epicuro nos sugere a busca dos prazeres que não causem dores ou perturbações, propondo viver de maneira prudente e simples, buscando assim alcançar uma paz de espírito sem perturbações. Seus ensinamentos nos convidam ao cuidado para com a vida e um cálculo dos prazeres, priorizando a qualidade ao invés da quantidade.

O cuidado com a alma proposto por Epicuro se aproxima do que hoje entendemos como a prática de terapia, que visa lidar com nossas angústias e ansiedades. Para isso ele indicou quatro remédios para a alma, o Tetrapharmakos, que consiste em não temer os deuses, não se alarmar por conta da morte, perseguir o que é bom e suportar o que é mau.

O filósofo defendia uma cosmologia materialista, partindo da perspectiva de que tudo é composto de átomos e vazios. Deste modo, as divindades não podem fazer nada de mau às pessoas, e temer elas seria uma perda de tempo. Além disso, o medo da morte é algo desnecessário, pois a morte cessa a nossa sensação e existência, sendo o mesmo que nada, pois morrer seria não mais sentir.

"Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve."
(Epicuro, em 'Carta sobre a felicidade')

Segundo Epicuro, o mal é algo que não devemos nos preocupar, pois não há sofrimento ou dor que seja eterna, toda dor e qualquer sofrimento cessa num dado momento, e podemos nos direcionar a diversas atividades para não nos alarmar com as dores durante o tempo que elas acontecem, para que possamos assim minimizar as dores e ampliar os prazeres. Por isso, o essencial consiste em estar atento a nossas buscas, ao que desejamos.

O prazer a ser buscado é o da sabedoria, do bom uso de nossas escolhas, que nos possibilita sentir satisfeitos. Para isso é necessário um certo tempo e distanciamento para avaliar bem o que desejamos e o que realmente nos proporcionará prazeres tranquilos. Sua filosofia tem como intuito proporcionar uma melhor avaliação de nossos desejos e a escolha daqueles que nos possibilitem uma vida mais feliz e tranquila.


Referências:
EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). Trad.: Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. São Paulo: UNESP, 2002.
GHIRALDELLI JR, Paulo. A filosofia como medicina da alma. Barueri, SP: Manole, 2012.
GOMES, Táura Oliveira. A ética de Epicuro: um estudo da carta a Meneceu. Revista Eletrônica UFSJ. São João del-Rei, n. 5, p.147-162, jul. 2003.