Cartografia em Deleuze e Guattari

Cartografia é um método de pesquisa sobre a produção de subjetividades de pessoas e grupos. A partir das perspectivas de Deleuze e Guattari, propõem um mapeamento de modos de vida, dos processos e movimentos dos desejos e afetos, partindo da lógica do rizoma, com o intuito de captar a dimensão processual dos fenômenos, acompanhando seus trajetos para dar vazão às diferenças e aquilo que está por vir.

Trata-se de um processo potente e criador, que realiza um rastreamento dos afetos para captar as rotas dos desejos em seus movimentos, velocidades e lentidões. Por partir do rizoma, não visa um centro nem uma unidade, muito menos representar imagens ou formas, mas acompanhar processos, possibilitando deslocamentos para o complexo heterogêneo de fluxos e movimentos numa pessoa ou grupos em suas relações com os outros e com os espaços.

Enquanto método pesquisa pode ser considerada uma pesquisa-intervenção, onde o pesquisador e o pesquisado se transformam no processo. O pesquisador não se coloca como piloto ou comandante dos processos, não busca estabelecer um centro de poder, mas abandona a interpretação ou a busca de uma unidade para dar lugar à experimentação e as variações. Esta pesquisa não opera a partir de uma linha histórica, mas busca os diferentes percursos e traçados geográficos.

"Princípio de cartografia e de decalcomania: um rizoma não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo. Ele é estranho a qualquer idéia de eixo genético ou de estrutura profunda. (...) O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente."
(Deleuze & Guattari, em 'Mil Platôs')

Não se trata de um método no sentido de reproduzir ou reduzir o fenômeno estudado, mas uma prática que prioriza tomar contato com os múltiplos movimentos que se conectam, a partir de um plano sem eixos ou estruturas profundas, sem centralidades ou hierarquias. Neste sentido, não se busca estabelecer significados ou representações, mas tomar contato com as diferenciações. Ao invés de evitar a diferença, opor um adequado a um inadequado, busca-se compor com a diferença.

Diferente de uma análise histórica que busca encontrar a "raiz" ou a "essência" dos problemas, como se houvesse um centro fundante que precisaria ser "ajustado", a cartografia visa estabelecer conexões com os movimentos de diferenciação, com os fluxos de desejos, seus movimentos e deslocamentos. Sua atenção não se direciona apenas para as configurações aparentemente sólidas do atual, mas as virtualidades que estão por vir, os movimentos de variação do devir.

cartógrafo é aquele que se atenta ao plano de forças e intensidades, visando acompanhar processos, tomando contato com a experiência em sua dimensão criadora, incluindo seus movimentos. Opera numa transversalidade que valoriza as tramas para a criação de novas éticas existenciais, analisando os atravessamentos descontínuos, e o funcionamento complexo do que está fora da hierarquia ou das semelhanças, não buscando encontrar uma identidade ou unidade, mas criar a partir das heterogeneidades.

"Se vamos cartografar um território, temos de apreender uma dimensão que vai além do reconhecimento de formas, mas remete aos vetores transversais que lhe dão consistência, ou seja, atmosferas, ritmos, velocidades e intensidades que configuram a dinâmica das formas."
(Kastrup & Passos, em 'Cartografar é traçar um plano comum')

Seguindo os fluxos é possível a construção de um saber não dualista, que não separa ser e devir, natureza e cultura, objetivo e subjetivo, produzindo um conhecimento local e transitório que reconhece a necessidade de pluralidade e heterogeneidade. Analisando as intensidades, os fluxos desejantes, os movimentos que possibilitam o fluir e aqueles que bloqueiam ou impedem o movimento, tanto em suas concretudes quanto em suas abstrações.

Ao invés de buscar as semelhanças, identidades ou constâncias, desloca sua atenção aos desvios, diferenças, variações e dissonâncias, seguindo os vetores de força quase imperceptíveis que conectam atividades e pensamentos, que compõem modos de vida, tomando contato com os processos assignificantes que produzem a realidade. Acompanha, portanto, o fenômeno investigado em seus fluxos e movimentos, em suas trajetórias e variações.

Este procedimento não busca uma verdade em oposição a uma falsidade, nem uma certeza em contraste com o equívoco, mas possibilitar novas conexões e configurações para que o desejo possa fluir e criar novos movimentos no plano de imanência, para que seja possível novos modos de vida, utilizando as potências criativas heterogêneas, aproximando multiplicidades distantes por suas intensidades, ao invés de codificar e representar as diferenças em imagens já instituídas. 

"(...) a cartografia não se restringe na busca do que é representado, no significante, na materialidade discursiva. Para captar este novo elemento, as intensidades, não reduz os múltiplos dados do campo somente ao texto. O método cartográfico opera também com outras materialidades que vão além da representação, busca captar o extralinguístico e os distintos componentes da expressão."
(Domenico Hur, em 'Cartografia das intensidades')

A cartografia possibilita destotalizar o "eu", entendendo este como resultante de uma multiplicidade de processos e desejos em tensão, acompanhando os caminhos onde os desejos se conectam ou se dispersam, buscando assim compor forças do corpo e em relação, de modo a produzir novas maneiras de ser e de se relacionar.

Por Bruno Carrasco.

Referências:
DELEUZE; GUATTARI. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 1. Trad.: Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. São Paulo: Ed. 34, 1995.
HUR, D. Cartografia das intensidades: pesquisa e método em esquizoanálise . Práxis Educacional, [S. l.], v. 17, n. 46, p. 1-18, 2021.
KASTRUP e PASSOS. Cartografar é traçar um plano comum. Fractal: Revista de Psicologia [online]. 2013, v. 25, n. 2, pp. 263-280.

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