Vocabulário: existencialismo e fenomenologia


Mini vocabulário das terminologias mais frequentemente utilizadas no existencialismo e na fenomenologia, elaborado por meio de pesquisa bibliográfica de livros de referência e dicionários de filosofia.

Absurdo: relacionado ao que é contraditório, irracional ou sem sentido. Entende que a existência e o mundo não possuem uma explicação ou justificação, seja esta científica ou metafísica.

Aletheia: termo grego que corresponde a uma maneira de entender a verdade enquanto aquilo que não está oculto, não consiste na descoberta de uma verdade substancial, mas um aspecto da dimensão originária. Heidegger relaciona ao desvelamento do ser.

Angústia: em Kierkegaard é uma espécie de medo ou temor que não é direcionado a um objeto específico, mas que volta-se para si mesmo, relacioando com a dificuldade de se fazer escolhas, por não termos uma definição prévia. Em Heidegger trata-se da consciência da morte como finitude da existência, que incita a assumir a singularidade ao invés da impessoalidade ou da massificação. Em Sartre é resultante da consciência da contingência e da liberdade, de que a vida não possui um sentido prévio, mas que somos nós que a fazemos, e portanto somos responsáveis por nossas escolhas, e que escolhendo escolho a mim mesmo.

Autenticidade: termo utilizado na filosofia de Heidegger, para descrever o momento em que o Dasein assume sua condição de ser-para-a-morte, ao invés de perder-se na inautenticidade e na banalidade do cotidiano.

Autonomia: capacidade de determinar-se segundo suas próprias leis.

Condição humana: no existencialismo não se utiliza o termo 'natureza humana', que corresponderia a elementos fixos e idênticos a todas as pessoas. Em contraste a esta terminologia, se utiliza 'condição humana', que corresponde a circunstâncias que cada pessoa pode atravessar, porém cada um de sua maneira singular. 

Contingência: condição do que não possui uma necessidade lógica, onde tudo que pode ser pode também não ser, ou tudo o que aconteceu poderia ter sido de maneira diferente, ou nem existido. Sartre diz que o ser humano é contingente, ao invés de necessário.

Cotidianidade: o que se vivencia na existência concreta, entre o nascimento e a morte.

Cuidado: termo utilizado por Heidegger enquanto uma das características fundamentais do Dasein, que segundo o filósofo está sempre envolvido no cuidado de si, no cuidado dos outros e das coisas do mundo.

Dasein: termo alemão utilizado por Heidegger, que costuma ser traduzido por 'ser-aí', composto da partícula "da", que significa 'aí', e do verbo "sein", que significa 'ser'. Significa estar-aí, presente enquanto existência lançada no mundo, sujeita à facticidade, sendo constituído juntamente com o mundo, o tempo e o espaço, de maneira cooriginária.

Daseinsanalyse: análise fenomenológica do Dasein, onde busca facilitar uma maior consciência das experiências vividas num dado momento por meio da relação terapêutica. Proposta inicialmente por psiquiatras como Medard Boss e Ludwig Binswanger, com influências da filosofia de Heidegger.

Desespero: termo utilizado por Kierkegaard para representar o afastamento da própria existência, quando se deixa de viver autenticamente ou busca-se viver de maneira alienada, ao invés de assumir sua própria existência. Insatisfação com um modo de vida meramente estético, que vive somente para a realização dos prazeres, se aprisionando numa existência vazia.

Devir: processo de transformação do qual todos os seres e as coisas do mundo estão submetidas, aparece inicialmente na filosofia de Heráclito.

Ente: entidade, tudo aquilo que existe, que possui propriedade, o ser enquanto existente.

Engajamento: corresponde a tudo aquilo para o qual uma pessoa se envolve, se engaja e direciona sua existência. Pode ser uma causa política, filosófica, religiosa, familiar, ética ou pessoal. Para Sartre, não há como descrever uma pessoa sem considerar seu engajamento.

Epoché: termo grego que propõe uma atitude de suspensão dos juízos prévios sobre as coisas e os seres. Na fenomenologia de Edmund Husserl, corresponde a uma atitude de abertura para as coisas que se mostram, para as experiências colocando as teorias e pressuposições entre parênteses.

Espacialidade: o modo como o ente se coloca e se constrói no espaço.

Existência: palavra que vem do latim existentia, derivada de existere, que significa sair de uma casa, um domínio ou de um esconderijo. Em sua origem é sinônimo de colocar-se, mostrar-se, movimento para fora. Trata-se do poder ser, onde está em jogo seu próprio ser, poder ser próprio.

Existenciais: elementos que compõem as estruturas essenciais da existência do Dasein, de acordo com Heidegger.

Existencialismo: corrente filosófica voltada para a existência humana, considerando seus aspectos histórico, singular, afetivo, concreto e finito. Se opondo à metafísica tradicional, que supunha uma essência prévia, o existencialismo defende que não há uma essência que determine a existência, mas que a existência é resultante da relação do indivíduo com o mundo, o tempo, o espaço, os objetos e os seres.

Experiência: vivência de mundo afetiva e empírica.

Facticidade: condição originária da existência, de estarmos num mundo que não criamos e que não escolhemos. Envolve as condições contingentes do espaço e do momento histórico, como a data de nosso nascimento, a família que somos criados, o local onde nascemos, que constituem as referências e possibilidades de nossas ações. Trata-se da situação onde estamos inseridos, que não impede nossa liberdade, pois a liberdade se dá justamente em situação, de modo que podemos sempre fazer algo do que fizeram de nós.

Fenômeno: termo que resulta do grego phainomenon, que significa 'aquilo que aparece ou se mostra', corresponde à tudo aquilo que nos aparece por meio do conhecimento sensível, tudo o que experimentamos.

Fenomenologia: estudo dos fenômenos, método filosófico que busca olhar para as coisas tal como aparecem a uma consciência, enquanto aparência fenomênica. Atitude pela qual se coloca a observar a coisa como se mostra, deixando de lado as especulações objetivistas, teóricas ou metafísicas.

Filosofia de ação: termo utilizado por Sartre para definir a filosofia existencialista enquanto uma filosofia que nos solicita uma ação, ao contrário das filosofias de quietismo, que ele considera aquelas que ficam apenas na reflexão teórica, que não se ocupam das coisas do mundo, que não se engajam na realidade concreta.

Gestalt: termo alemão que pode ser traduzido por 'forma' ou 'configuração', utilizado na psicologia e na filosofia, entendendo que os fenômenos devem ser considerados enquanto um todo indivisível. Trabalha com conceitos como semelhança, unidade, continuidade, segregação e unificação.

Humanismo: conjunto de concepções filosóficas, literárias e artísticas que colocam maior ênfase no ser humano, caracterizado pela produção filosófica e artística do renascimento e a filosofia moderna, que retomam a valorização do ser humano em detrimento do divino.

Imaginação: faculdade de reproduzir representações sem a presença do objeto, relacionando o entendimento com a sensibilidade.

Inautenticidade: termo utilizado na filosofia de Heidegger para designar a vida cotidiana, caracterizada pela facticidade, por sua estreiteza ao mundo e um desvio ao seu modo de ser autêntico e singular.

Intencionalidade: característica da consciência que está sempre voltada para um objeto, de modo que não há objeto nem consciência separadas em si, mas sempre consciência 'de' alguma coisa e objeto 'para' uma consciência. Termo muito presente em Franz Brentano e Edmund Husserl.

Intuição ou percepção: apreensão ou captação particular e imediata do sensível.

Liberdade: condição da existência humana. Para Sartre o ser humano está "condenado a ser livre", pois não escolhe ser livre, e sempre precisa escolher o que fazer de sua vida, sendo responsável pelas escolhas que fizer. Porém essa liberdade se exerce em situação, num contexto e diante de condições e possibilidades.

Má-fé: quando a pessoa nega sua liberdade para evitar a responsabilidade por suas escolhas, colocando estas como responsabilidade de elementos externos a ela, como: o passado, a herança biológica, a personalidade, a astrologia ou um deus. Termo corrente na filosofia de Sartre, utilizado como meio de fuga da angústia de ter de escolher por e para si mesmo.

Morte: em Heidegger, a morte atribui sentido à existência humana pois a limita temporalmente, portanto permite o sentido de sua completude, sendo uma experiência constantemente presente. Segundo este filósofo, a consciência da morte nos convida a viver de maneira autêntica.

Mundanidade: o mundo que circunda o ser e que oferece as bases para a constituição da existência, que se relaciona constantemente com o mundo e no mundo.

Ontologia: campo da filosofia que é parte da metafísica e se dedica ao estudo do ser em geral.

Pre-sença: o ser em sua condição de abertura, disponível para a interação com o mundo e com outros entes, inserido na totalidade do mundo e do ser.

Projeto: a existência é um constante projetar-se para fora, para agir uma pessoa necessita estabelecer projetos, que consiste em decidir entre as coisas que pode fazer, quais ela irá se dedicar.

Psicanálise existencial: proposta de análise fenomenológica elaborada por Sartre, voltada para os distintos modos de ser e de se colocar no mundo de uma pessoa, partindo de sua experiência concreta, buscando compreender o processo de constituição de uma pessoa a partir de suas relações com as outras pessoas, com os objetos e com o mundo.

Redução fenomenológica: atividade de abertura para se aproximar daquilo que se mostra, do modo como se mostra.

Responsabilidade: a primeira decorrência da liberdade de escolhas é justamente a responsabilidade por suas escolhas, o que nos torna eticamente responsáveis, enquanto co-autores de nossa existência e do mundo.

Sensação: estado do sujeito enquanto afetado pela presença de algo empírico ou de uma imaginação.

Sensibilidade: faculdade receptiva do material fornecido pelas sensações, transformando-o em intuições.

Sentido da vida: por constatar que não há uma essência prévia que determine e oriente a nossa vida, entende-se que esta não possui um sentido prévio, portanto o sentido da vida é algo que deve ser criado, encontrado ou abraçado.

Ser: segundo a filosofia de Heidegger, corresponde à instância originária, que não se pode nomear ou descrever, da qual emergem todos os entes. O ser não pode ser delimitado por nenhum conceito nem descrito por nenhuma categoria lógica fixa.

Ser-em-si: termo da filosofia de Sartre, se refere ao modo de ser de uma pessoa que se afirma numa identidade fixa e pronta de si, tratando a si mesma de maneira rígida e determinada, vivendo de acordo com a ideia que se estabeleceu para si. Não possui consciência de sua liberdade, pois se autodetermina como uma essência já definida, pronta e fechada.

Ser-para-si: termo da filosofia de Sartre, se refere ao modo de ser de uma pessoa que encara a liberdade e o risco de suas escolhas autônomas, que não se fixa a uma identidade rígida, estando sempre voltada para fora, aberta às coisas do mundo e às transformações que acontecem, reconhecendo sua singularidade e como um vir-a-ser, disponível à possibilidade de mudança.

Ser-no-mundo: trata-se da constituição da existência humana, constantemente implicada no mundo, que se constitui de maneira cooriginária, onde ser e mundo não são instâncias separadas mas constantemente conjuntas, que envolve os espaços físicos, a relação com as outras pessoas, a relação consigo mesmo e a intuição. Ver Dasein, o ser-aí que pronuncia o fenômeno e o dá sentido a partir da interação com o contexto.

Singularidade: característica do que não é igual, próprio, específico, diferente, particularidades. Corresponde a tudo aquilo que caracteriza uma pessoa e que a diferencia das outras.

Situação: conjunto de condições, circunstâncias e facticidades que determina, em parte, as condições e limitações, próprias de um tempo e espaço, de uma pessoa ou um grupo de pessoas.

Temporalidade: dimensão temporal da condição do Dasein, que possui um passado, se envolve num presente e se projeta para o futuro, onde ambos acontecem simultaneamente, somando o sentir, o entender e o discorrer. Traço fundamental da existência humana presente na filosofia de Heidegger, que consiste na significação própria que o ente atribui às suas experiências na vivência do tempo.

Transcendência: condição da consciência e da existência, de estarem sempre para fora, junto às coisas do mundo, se direcionando sempre para algo fora de onde estamos. A todo momento nos projetamos em direção ao futuro, que sempre ultrapassa as experiências atuais. Na filosofia de Heidegger é uma das dimensões ontológicas do Dasein, que corresponde a sua condição de abertura para o acolhimento dos anúncios do Ser.

Transcendental: condição de possibilidade diante da existência humana, disponibilidade de abertura da existência. Não se trata da relação com algo abstrato, mas da abertura para as experiências concretas do mundo da vida.


Por Bruno Carrasco, professor de filosofia e psicologia.

Referências:
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MACIEL, Luiz Carlos. Sartre: Vida e Obra. São Paulo: Paz e Terra, 1980.
REZENDE, Antonio. Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
REYNOLDS, Jack. Existencialismo. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
PENHA, João da. O que é Existencialismo. São Paulo: Brasiliense, 2014.
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