Existencialismo: contexto histórico


Há uma série de saberes, circunstâncias e acontecimentos que, de certo modo, possibilitaram o desenvolvimento da vertente existencialista. Neste texto pretendo apresentar brevemente o contexto que antecedeu ao existencialismo, buscando compreender suas precondições históricas.

O existencialismo, enquanto vertente filosófica, surge no século XX, com Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, entre outros. Porém, tem seu berço no século XIX, com influências de filósofos como Arthur Schopenhauer, Soren Kierkegaard e Friedrich Nietzsche. Portanto, iniciarei remontando aspectos deste período, até chegar no início do século XX.

No final do século XVIII, ocorrem três eventos que marcam fortes mudanças na sociedade ocidental a partir do século XIX: a Revolução Industrial, que modifica o modo de trabalho e impulsiona o surgimento de novas tecnologias, a Revolução Francesa, que propõe um novo modelo político e de organização social, e a Independência das Américas. Todos esses eventos transformam os modos de vida das pessoas, a filosofia e a ciência.

Essas mudanças afetam diretamente a produção filosófica do século XIX, que atravessou a crise da razão e da subjetividade, indo em direção de uma nova concepção de sujeito, juntamente com uma retomada dos sentimentos e da importância da afetividade, influenciado pelo Romantismo nas artes e literatura.

O século XVIII, também conhecido como o século das luzes na filosofia, foi vivido com grande otimismo com relação à razão. Os desenvolvimentos tecnológicos da Revolução Industrial foram inicialmente recebidos com entusiasmo e grandes expectativas. Acreditava-se que a sociedade estaria progredindo e poderia alcançar uma melhor qualidade de vida.

Porém, com o passar do tempo, o otimismo e o entusiasmo com o progresso foram substituídos pela perplexidade e por incertezas. As contradições vivenciadas pela humanidade, durante o final do século XIX e início do século XX promoveram uma série de questionamentos por parte dos filósofos, chegando a pensamentos divergentes e, muitas vezes, contraditórios.

O início do século XX foi marcado por guerras, revoluções, genocídios, epidemias, crises econômicas, desemprego, destruição e sofrimento humano em larga escala, com eventos marcantes como a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Revolução Russa (1917), a Crise de 1929, e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

“A experiência traumática da guerra gerou desânimo e desespero, sentimentos que atingiram principalmente os jovens, descrentes dos valores burgueses tradicionais e da capacidade do homem de solucionar racionalmente as contradições da sociedade.”
(PENHA, João da. O que é Existencialismo. São Paulo: Brasiliense, 2014)

Entre o final do século XIX e início do século XX, o povo europeu vivenciou muitas transformações, experimentando sentimentos diversos de inquietação e caos, primeiramente diante da crise da subjetividade, que foi expressa por meio do Romantismo nas artes, e posteriormente com os conflitos e as guerras mundiais.

Essas experiências geraram um sentimento de questionamento sobre o ser humano, possibilitando uma nova maneira de refletir sobre sua própria existência, temas como o sentido da vida, o sofrimento emocional, as dores de existir e as angústias existenciais passaram a fazer parte de obras literárias e filosóficas, fazendo com que as pessoas buscassem novas respostas para novas indagações.

Neste mesmo período também ocorrem diversos questionamentos e um sentimento de desconfiança para com o cientificismo, a crença de que a ciência e a razão humana poderiam resolver todos os problemas da humanidade, tornando a vida e a convivência entre as pessoas melhor e mais saudável. Após as duas grandes guerras no início do século XX, mortes de militares e civis, por armas e bombas com alto grau de destruição, construídas por meio de pesquisas científicas, muitos filósofos e inclusive cientistas passam a desacreditar na ciência como algo unicamente bom, e perceber que ela pode ser utilizada para outros fins. Esses questionamentos influenciam um novo olhar sobre o ser humano.

Grande parte dos existencialistas também criticam a filosofia Racionalista, vertente de filosofia que se desenvolveu durante os séculos XVII e XVIII, que tomava a razão como principal meio do ser humano conhecer as coisas e o mundo, deixando de lado o corpo, os sentidos e as emoções.

O racionalismo tem como influência a filosofia de Platão (século V a.C.), que dividiu o entendimento do mundo em duas esferas: o mundo das ideias e o mundo dos sentidos, entendendo que o mundo que vivemos e percebemos é mutável e irreal, pois tudo se transforma e não há como garantir conhecimentos seguros, entendendo esse mundo como “falso”, de modo que a verdade estaria no mundo das ideias, que seria alcançado apenas por meio da razão.

Grande parte dos autores existencialistas também criticam e contrariam as concepções metafísicas, voltando suas reflexões para as coisas concretas do mundo, o que podemos ver, perceber e sentir. Para a filosofia existencialista, o significado da existência humana não está em abstrações ou racionalizações metafísicas, mas na própria existência concreta.

A metafísica corresponde à toda ideia, saber ou crença que esteja além da física, ou seja, além do mundo material e concreto, que podemos ver, sentir, tocar. A filosofia idealista é muitas vezes tida como metafísica, por se tratar especialmente de ideias ao invés de coisas concretas, contrário à filosofia materialista.

O ser humano, antes visto como "senhor de si", um ser que pode ser controlado por meio da razão, e que se solidariza com as outras pessoas, passa a ser visto como um ser que nem sempre consegue se controlar, muito mais afetivo do que racional.

Tudo isso traz um novo entendimento sobre o ser humano, sua individualidade e sobre sua vida privada, uma percepção nova, que surge justamente com o desenvolvimento industrial, promovendo novas formas de vida. A alienação, a angústia, as incertezas e as inseguranças são novos temas diante de novos tempos.

“A primeira coisa que a filosofia existencial faz é recusar-se a reduzir o ser humano e sua personalidade a uma entidade qualquer. Não se pode reduzir o homem a ser um animal racional, mas tampouco a ser um animal social, ou a um ente psíquico, ou biológico. O homem não é, pois, nenhuma substância, suscetível de ser determinada objetivamente, seu ser é um constituir-se a si próprio.”
(MORA, José. Dicionário de Filosofia, tomo II, São Paulo: Loyola, 2005)

Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
Tecnologia do Blogger.