Fenomenologia e esquizoanálise oferecem perspectivas distintas para pensar a experiência humana e o sofrimento psíquico na contemporaneidade. Embora ambas contrariam o positivismo e explicações reducionistas sobre a subjetividade, seus pontos de partida, procedimentos e intenções clínicas são significativamente diferentes.
Grande parte das práticas clínicas buscam responder duas questões fundamentais: compreender como alguém vive sua experiência e investigar como se produzem determinados modos de vida e sofrimento. A fenomenologia responde prioritariamente à primeira questão, enquanto a esquizoanálise se dirige à segunda.
Enquanto a fenomenologia se dedica à compreensão da
experiência vivida, a esquizoanálise volta-se para a análise e intervenção nos processos que produzem os modos de vida. A fenomenologia procura acessar a experiência tal como ela é vivida, suspendendo explicações externas e teorias prévias para alcançar o modo como o mundo aparece à consciência. A esquizoanálise desloca o foco do sujeito para os processos sociais que produzem subjetividades.
Fenomenologia
A fenomenologia se inicia como um retorno à experiência concreta de vida, anterior às interpretações e leituras científicas e psicológicas. Edmund Husserl usa o termo “voltar às coisas mesmas”, num movimento que procura suspender os pressupostos teóricos para examinar como os fenômenos se manifestam à consciência.
Um dos pilares dessa tradição é a noção de intencionalidade, entendendo que toda consciência é consciência de algo. Não há separação entre consciência e objeto percebido, do mesmo modo que não há um sujeito isolado, pois toda experiência já implica uma relação com o mundo. A investigação fenomenológica consiste, portanto, em descrever como algo é vivido, antes de explicá-lo.
Outro conceito central é o mundo-da-vida, entendido como o mundo cotidiano anterior às abstrações científicas. A experiência é entendida como algo não primariamente teórica, mas prático e corporal, ela é pré-reflexiva. Maurice Merleau-Ponty aprofunda essa dimensão, entendendo que o corpo é nosso meio de captar o mundo, constatando que não somos consciências puras, mas existências encarnadas.
Na clínica inspirada pela fenomenologia, o terapeuta busca compreender o sentido que determinada experiência possui para a pessoa atendida, investigando como esta se encontra no mundo, como vive e estabelece seus vínculos e como experiencia seus sofrimentos e desejos. O intuito da terapêutica é promover um maior esclarecimento e apropriação da própria experiência.
Esquizoanálise
A esquizoanálise emerge como uma ruptura com as concepções tradicionais da subjetividade, especialmente com modelos psicanalíticos centrados na estrutura familiar e na constituição edipiana. Para Deleuze e Guattari, o desejo não é falta, mas potência produtiva, que se relaciona com o mundo e com uma época. O desejo para eles é mais produtivo do que faltoso.
Neste sentido, o sujeito deixa de ser entendido como origem da experiência e passa a ser concebido como resultado de processos de subjetivação. Esses processos envolvem relações sociais, discursos, instituições, tecnologias, afetos e práticas cotidianas que compõem os agenciamentos. Um agenciamento é sempre uma composição entre elementos heterogêneos, sejam estes familiares, econômicos, culturais ou afetivos, que produzem modos de vida.
O trabalho clínico acontece por meio de uma cartografia, um mapeamento das intensidades e forças que atravessam a existência de alguém. O sofrimento não é entendido como algo interior, mas como um efeito de capturas e bloqueios nos fluxos de vida e do desejo. Deste modo, o trabalho terapêutico busca as linhas de fuga, movimentos que permitam escapar de formas de existência rígidas e compor outras configurações existenciais, de modo experimental.
Diferenças na clínica
Na clínica fenomenológica, o foco está na descrição e compreensão do vivido. O terapeuta procura suspender seus julgamentos e interpretações para compreender como o sofrimento aparece na experiência da pessoa atendida. A atividade terapêutica promove uma ampliação da compreensão de si e de sua relação com o mundo, permitindo ao sujeito apropriar-se de sua existência e fazer escolhas com maior autonomia.
Na esquizoanálise, o encontro clínico tende a ser menos descritivo e mais interventivo. O sofrimento é analisado em sua relação aos agenciamentos que o produzem, como as relações de trabalho, as expectativas sociais, os padrões familiares, as capturas tecnológicas e as exigências de produtividade. A clínica busca pensar junto deslocamentos nos modelos padronizados e abrir possibilidades de experimentação existencial.
Enquanto a fenomenologia promove clareza sobre o modo de viver, a esquizoanálise procura criar condições para que novos modos de vida possam emergir. A fenomenologia se orienta a partir da experiência vivida, propondo uma clínica do sentido, enquanto a esquizoanálise se dirige a experimentação de outros modos de vida, atuando como uma clínica da invenção.
Exemplo
Vamos pensar uma queixa de ansiedade relacionada ao ambiente digital e às exigências de produtividade. A fenomenologia investigaria como essa pressão é vivida pela pessoa, como ela se sente estar sempre disponível e atenta às notificações, quais afetos emergem, como o tempo e o corpo são afetados nessa condição.
A esquizoanálise, por sua vez, examinaria os dispositivos que produzem essa ansiedade. Os fluxos contínuos de informação, as exigências de desempenho, a captura da atenção pelas redes e dispositivos de controle produtivo. O trabalho clínico poderia envolver experimentações práticas para romper ou reconfigurar essas relações com o digital.
Numa terapia com base na fenomenologia, a pessoa frequentemente experimenta o processo terapêutico como um espaço de compreensão e acolhimento de sua experiência, num aprofundamento do sentido do vivido. A esquizoanálise tende a produzir deslocamentos mais diretos nos modos de vida, convocando a pessoa a experimentar novos arranjos de existência e a romper padrões que aprisionam o desejo.
Enquanto a fenomenologia pergunta como acontece o vivido, a esquizoanálise tenta pensar junto o que produz seus modos de viver e como experimentar mudanças para transformar. A primeira aprofunda na compreensão da experiência, a segunda aposta na invenção de outras formas de vida.
Referências:
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 2010.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 2011.
HUSSERL, Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica. Aparecida: Ideias & Letras, 2006.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
