A teoria do “não”, elaborada por Gaston Bachelard, propõe um gesto ativo do pensamento, entendendo que o conhecimento avança por meio da negação das evidências imediatas, imagens espontâneas e saberes previamente consolidados. Trata‑se de uma negação produtiva, metodológica e histórica, inseparável da ideia de "ruptura epistemológica".
Essa teoria atravessa obras centrais de Bachelard, especialmente "O Novo Espírito Científico" (1934), "A Formação da Mente Científica" (1938) e "A Filosofia do Não" (1940). Nessas obras, o filósofo francês apresenta uma concepção descontínua do progresso científico, segundo a qual o saber não cresce por acumulação, mas por retificações sucessivas, frequentemente violentas, com relação ao pensamento anterior.
A epistemologia bachelardiana emerge num momento de profundas transformações científicas. O início do século XX foi marcado por rupturas decisivas nos fundamentos da física clássica, com o surgimento da teoria da relatividade e da mecânica quântica. Essas novas teorias colocaram em crise categorias tradicionais como tempo, espaço, causalidade e substância, entendendo que o saber científico não coincide com a experiência sensível imediata.
Bachelard, que tinha sólida formação científica e atuou como professor de física e química antes de se dedicar à filosofia, percebeu que essas transformações demandavam uma nova filosofia da ciência. Contra o positivismo e o empirismo ingênuo, ele sustentava que a ciência moderna é essencialmente teórica, construtiva e matemática, e que seus objetos não são dados naturais, mas produtos de uma atividade racional historicamente situada.
É nesse contexto que emerge a necessidade do “não”. A ciência moderna, segundo Bachelard, avança expressando seu não ao senso comum, às evidências primeiras e as imagens herdadas da tradição. O “não” torna‑se, assim, o gesto inaugural de toda racionalidade científica autenticamente moderna. Como um laboratório de negações criativas, o conhecimento se expande por meio do movimento de negar, desmontar e reconstruir.
Na sua obra "A filosofia do não" (1940), Bachelard analisa o desenvolvimento das ciências físicas a partir da ideia de que todo novo conceito científico se constitui contra os conceitos anteriores. Ele afirma que o progresso do conhecimento supõe uma dialética peculiar, na qual o novo não conserva o antigo, mas o nega, limita, corrige e reorganiza, oferecendo outra perspectiva e disposição.
Deste modo, o “não” de Bachelard não deve ser entendido como negação absoluta, mas como uma negação determinada. Quando se diz "não" a uma teoria anterior, a ciência não a destrói completamente, mas reinscreve como caso limite, aproximação ou momento superado. A física newtoniana, por exemplo, não é simplesmente falsa, mas válida dentro de certos limites, definidos pela física relativística.
O “não” é, portanto, um gesto constitutivo do espírito científico, que se opõe tanto ao real imediato quanto às formas cristalizadas do saber. Ele não apaga o passado, mas desloca, reconhece limites, atuando como uma intervenção cirúrgica no pensamento.
“o espírito científico se forma contra a natureza, contra o dado imediato”
(Bachelard, em 'A formação do espírito científico')
Um dos principais conceitos de Bachelard é o de obstáculo epistemológico, que não corresponde a dificuldades externas ao conhecimento, mas formas internas de pensamento que impedem o avanço da ciência. Entre eles estão o apego à experiência sensível, o uso ingênuo de metáforas, as generalizações apressadas e as pré-críticas e imaginativas de explicar fenômenos.
Sua teoria do “não” atua principalmente como um instrumento crítico capaz de desmontar esses obstáculos. Dizer não, aqui, significa romper com hábitos intelectuais profundamente enraizados. Para Bachelard, o erro científico não é um simples acidente, mas uma estrutura histórica do pensamento, que precisa ser analisada e superada.
Essa análise assume uma psicanálise do conhecimento, expressão que Bachelard atribui ao trabalho reflexivo que revela os desejos, imagens e crenças que contaminam o pensamento científico. O “não” é um momento "terapêutico" desse processo, que interrompe a repetição automática do erro e abre espaço para a construção conceitual.
Seu “não” é essencialmente criador. Negar é criar novas condições de inteligibilidade, novos objetos e novas formas de racionalidade, entendendo que a ciência progride por meio de negações. Para Bachelard, a razão moderna se transforma ao se dedicar a novos problemas, e cada negação obriga a razão a se reconfigurar, a inventar novos instrumentos conceituais.
A filosofia do não se afasta tanto do empirismo quanto do racionalismo. Contra o empirismo, ela afirma que o real científico não é dado, e contra o racionalismo dogmático, defende que a razão não é fixa, mas histórica e móvel. Seu pensamento exerceu forte influência na filosofia da ciência e na epistemologia histórica. A ideia de ruptura epistemológica foi retomada e transformada por autores como Georges Canguilhem e Louis Althusser, tornando‑se um conceito fundamental para pensar a história das ciências como um campo descontínuo e conflitivo.
No plano filosófico mais amplo, a teoria do não contribuiu para deslocar a ideia de verdade como correspondência imediata, para uma concepção mais construtiva, histórica e crítica do conhecimento. O “não” torna‑se, assim, uma ética do pensamento, que sugere uma vigilância permanente contra a acomodação intelectual. O ensino científico, nessa perspectiva, não consiste em transmitir informações, mas em provocar rupturas no modo de pensar
Pensar, para Bachelard, não é confirmar o que já se sabe, mas aprender a dizer não no momento exato em que o pensamento se torna confortável. Esse “não” não destrói o conhecimento, mas renova, retifica e reinventa, reconhecendo o caráter histórico, conflitivo e construtivo do saber científico.
Referências:
BACHELARD, Gaston. La philosophie du non: essai d’une philosophie du nouvel esprit scientifique. Paris: Presses Universitaires de France, 1940.
BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
BACHELARD, Gaston. O novo espírito científico. Tradução de Juvenal Hahne Júnior. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1986.
ALMEIDA, Maria Cecília Pedreira de. Bachelard: ciência e poética. São Paulo: Loyola, 1995.
MACHADO, Roberto. Ciência e saber: a trajetória da arqueologia de Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1981.
