Existencialismo, psicologia e psicoterapia


A filosofia existencialista influenciou a psicologia e diferentes modelos de psicoterapia, que se denominam por "Psicoterapia Existencial". Cada um deles possui características próprias, de acordo com os autores e referenciais utilizados.

De um modo geral, as psicoterapias existenciais possuem como objetivo facilitar na pessoa atendida a autopercepção e uma aproximação de suas experiências e sentimentos, desenvolvendo sua autonomia psíquica para escolher seus modos de vida, consciente de suas responsabilidades de escolha.

O entendimento de psicoterapia na abordagem existencial não se trata de uma técnica para "curar" as perturbações mentais, mas um meio de ampliar as possibilidades de ser de cada pessoa, de modo a assumir a sua existência mais livremente no mundo, com os outros e consigo próprio.

Existem diferentes definições sobre o intuito da psicoterapia existencial, segundo distintos autores, entre elas estão:
  • Promover o encontro consigo próprio para assumir sua existência e projetá-la mais livremente no mundo (Manuel Villegas);
  • Aumentar a autoconsciência, aceitar a liberdade e ser capaz de usar as suas possibilidades de existir (Tereza Erthal);
  • Liberar os modos restritos de se relacionar com as pessoas e com as coisas no mundo (Medard Boss);
  • Tornar-se mais autêntico na relação consigo próprio e com os outros (James Bugental)
  • Superar dilemas, tensões, paradoxos e desafios do existir (Emmy van Deurzen);
  • Procura de sentido da existência (Victor Frankl);
  • Facilitar o modo mais autêntico de existir (Hans Cohn).

Em todas as descrições percebe-se que o foco da psicoterapia existencial é o indivíduo, e não suas perturbações mentais. Suas perturbações são entendidas como resultantes de dificuldades da pessoa em fazer escolhas mais autênticas e significativas em sua própria vida. Desta forma, pretende-se auxiliar a pessoa a agir de forma cada vez mais autêntica e responsável.

Outras questões enfatizadas na psicoterapia existencial são a dimensão histórica e a construção de projetos de vida. A pessoa é compreendida como fruto de sua condição histórica e espacial, sendo livre para criar novos modos de vida e se fazendo por meio das escolhas e dos projetos que empreende para si mesma.

O existencialismo acredita que não há nenhum saber que dê conta de toda a complexidade do ser humano. A prática da psicoterapia prioriza muito mais o encontro terapêutico do que a técnica em si, sendo um tanto flexível para que se possa variar de uma pessoa a outra, em uma fase e outra de sua experiência de vida.

Existir é escolher a si mesmo, criando projetos para sua vida, se transformando de acordo com suas experiências e escolhas, fazendo escolhas em seu próprio favor. A autenticidade é fazer valer como você se sente, confrontando com as condições de entorno onde está inserido, experimentando seu modo de ser e se transformando com ele.

Escolher ser quem somos é sempre um risco pois não há garantias de nossas escolhas. É um processo em constante transformação, pois estamos também sempre nos transformando. A escolha é o processo central da psicoterapia existencial, quando escolhemos estabelecemos um compromisso com nossa escolha. Cada escolha pode nos levar a um caminho e podemos rever o que escolhemos, buscando novos caminhos.

A escolha de nosso projeto existencial é uma criação que envolve o nosso passado, presente e futuro, criando novas possibilidades de ser e se fazer, estabelecendo coerência interna na escolha do que seja significativo para si. Busca-se a partir das experiências de vida o sentido delas, para a criação de seu projeto.

A pessoa autêntica escolhe viver de acordo com seus próprios valores, com o que acredita e a faz sentir bem consigo mesma, e se responsabiliza por suas escolhas. A escolha de um projeto de vida envolve a responsabilidade por si mesmo, por ter escolhido para si. Escolher uma opção não é um fim, mas apenas um caminho, que, se não nos sentirmos bem, podemos mudar.

Para conhecer a existência humana, questionamos sobre quem é a pessoa, quais seus sentimentos e histórias de vida, o que ela faz com suas lembranças, qual significado atribui à sua própria vida, quais suas proteções e potências, o que faz com que ela viva uma vida autêntica ou inautêntica consigo mesma.

Na prática, o existencialismo privilegia a experiência do momento presente, o que a pessoa está vivenciando, sentindo, experimentando, no momento atual, em detrimento de interpretações ou teorizações sobre o que a pessoa diz. O existir no momento presente dispensa explicação ou interpretação, apenas sua compreensão e aprofundamento.

Não há nada oculto a ser desvendado, nenhuma realidade por detrás da pessoa a ser encontrada, trata-se apenas de perceber o que está acontecendo naquele momento com a pessoa, seus sentimentos, pensamentos e experiências.


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial. 
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