Com o significativo aumento das classificações diagnósticas nos últimos anos, a psicologia e a psiquiatria, em geral, têm assumido um papel cada vez mais normativo em nossa sociedade. Isso pode ser facilmente observado no nosso cotidiano mais banal. Hoje, não é incomum que toda pessoa adote uma ansiedade para si, seja pelo rótulo dado a partir de uma autoridade médica ou mesmo pela identificação com o discurso dominante das redes sociais. Não é mais preciso tempo, investigação e cuidado. Qualquer sintoma virou transtorno, qualquer criança desatenta tem TDAH.
Na busca por ajustar a pessoa a um determinado padrão de vida, o aspecto mais subjetivo, isto é, o caráter histórico do sujeito é desconsiderado em favor de um raciocínio objetivo e positivista; logo, supostos desvios de comportamento são prontamente apontados como doenças. Isso se alia à necessidade inegável de existirem cada vez mais transtornos, uma vez que favorece diretamente a indústria farmacêutica, bem como reforça o caráter de alienação de nosso tempo: o diferente se torna patológico.
A partir desse olhar, como um dos sintomas de nossa época é essa ânsia por adaptação social, tem sido muito problemático que nós tenhamos que buscar pouco a pouco mais rótulos para justificar o nosso modo próprio de ser. É na contramão dessas tendências que a perspectiva existencial de terapia se esforça para levar em consideração a pessoa em sua totalidade, compreendendo, neste caso, que diagnósticos são relativos, circunstanciais e dependem de um caráter histórico (individual e coletivo).
Longe de negar o sofrimento psicológico, o que é uma constatação evidente da existência humana, o que essa mudança de perspectiva propõe é justamente o inverso: a afirmação da angústia como condição do viver. Existir é estar em conflito.
A crítica a ser feita é sobre a colonização de um tipo de discurso sobre saúde mental. Como se as pautas de saúde e doença, normal e patológico, sanidade e loucura, estivessem nas mãos de um só grupo, que se apresenta, não raramente, com ares de autoritarismo.
Uma consequência importante desse processo é que o diagnóstico deixa de ser apenas uma ferramenta clínica e passa a funcionar também como uma forma de organizar socialmente as experiências humanas. Sentimentos como tristeza, angústia, inquietação ou desmotivação, que muitas vezes estão profundamente ligados às condições concretas de vida, ao trabalho, às pressões sociais e às contradições do nosso tempo, passam a ser compreendidos exclusivamente como problemas individuais.
É que ao negar o aspecto propriamente humano da existência, ficamos reféns de visões mecanicistas e simplistas de ser humano, que buscam justificar experiências complexas da vida reduzindo à falta de neurotransmissores no cérebro. Quem sabe “o ansioso” não precisa somente de um jejum de dopamina?
Portanto, em favor de um olhar mais compreensivo, atento à experiência e priorizando as diferenças, faz-se necessário questionar o viés patologizante que encontramos atualmente. Saúde pode ser muito mais do que se ajustar, é uma maneira pessoal de se sentir potente, de experimentar a vida com toda a sua complexidade e intensidade.
