O fio das palavras - Luiz Cancello

No livro 'O fio das palavras', o autor Luiz A. G. Cancello apresenta um estudo de caso de psicoterapia existencial, com base na analítica existencial.

O autor nos convida a aproximarmos da experiência de atendimento psicoterapêutico com base na vertente existencial, uma abordagem que busca conciliar a singularidade do indivíduo com a concepção de liberdade, escolha e angústia da filosofia existencialista. É um livro acessível, quase literário, indicado tanto para especialistas, como também estudantes e leigos.

Segue abaixo alguns fragmentos do livro:


É pela linguagem que terapeuta e paciente se engajam na psicoterapia. As palavras terão como função trazer à presença daquele que as escuta (ou lê) aquilo de que falam. Um texto sobre psicoterapia precisa recuperar essa voz, esse som anterior à mera exposição técnica.

João tem um vago sentimento de mal-estar. Frequentemente não sabe o que quer. Ou, quando sabe, não consegue realizar o desejo. A vida o leva, ele não tem rédeas. Seus pais faleceram relativamente cedo. Aos 20 anos, órfão, foi morar com a avó. Foi viver em casa de parente mais próximo, pois "a vida é assim"; não questionou outra possibilidade de se organizar. A convivência mostrou-se muito difícil, mas ele a manteve.

O terapeuta sabe que o artista, ao contemplar seu modelo, revela uma singularidade. Cada rosto é digno de ser retratado pelo pincel. Uma obra de arte é algo único. Eis a tarefa: realizar um trabalho científico, sem desfigurar a singularidade do outro. É possível?

Fazer ciência como quem a recria a cada instante. Com o mesmo assombro e a mesma indagação frente ao fenômeno.

Um dia marcou hora e foi ao consultório. Abro a porta e convido João a entrar.

"Eu estava lembrando de meu pai, como ele me humilhava, às vezes". O paciente "viu'' uma cena, singular, mas conta a coisa vista de maneira coletiva - como se juntasse várias ocasiões em que o pai o tivesse humilhado. Fala em generalidades. Insisto: "Tive a impressão, olhando, de que você lembrou uma cena particular, um fato passado”. Ele sorri: “Tem razão... Foi uma vez, na casa da minha avó...".

João foi trazido do geral para o particular, do coletivo para o singular.  O fato vivido poderá ser revivido com envolvimento, em sua dimensão mais ampla.  A cena da casa da avó poderá se tornar tão real quanto a dor, o desafio ou a cadeira – se João tiver a necessária confiança em mim. Quando essas coisas acontecem, sinto o paciente me convidar para passear com ele por sua experiência, na qualidade de uma testemunha muito privilegiada. Percorro sua singularidade - sua verdade.

Volta agora para a casa de sua avó. Descreve, enumera as peripécias, o jeitão das pessoas se torna presente. Facilmente me ocorre a imagem da cena, que certamente nada tem de semelhante à que João imagina. Mas não importa. Agora, o nosso vínculo é o podermos estar juntos na casa da avó. Para ele, é o poder me levar lá, eu, a testemunha confiável. Ele espera que eu percorra seu roteiro, interessado e solidário. Algumas vezes tem medo. Medo da transformação da testemunha em juiz. Medo da traição, que é tanto mais terrível quanto maior for o contexto da confiança.

Criamos ali juntos uma nova casa da avó. Não mais aquela exclusiva de João, mas outra, talvez até parecida, mas também real, por partilhada. Dificilmente, agora, ele vai poder esquecer essas cenas com o pai, essa humilhação infligida. Eu também estava lá, e poderei estar sempre a lembrá-lo. João me conferiu um poder enorme, e espera que eu não abuse dele. Espera apenas que eu o ajude. Como? 

Pergunto, com jeito: "Esse ponto lhe sugere alguma coisa?” ou “Percebo que você sentiu algo, nessa parte do seu relato. Quer me contar o que é?”, ou ainda qualquer outra maneira de perguntar apropriada ao momento. 

Assim é a sessão terapêutica: uma oportunidade para que algo aconteça. Há a possibilidade - talvez a mais frequente de aparentemente nada acontecer. Mas nesses encontros o tempo está sutilmente tecendo a intimidade.

A interpretação, o discorrer sobre seu estado nas minhas palavras, seria quase um roubo; tornaria meu o que é dele, em sua radical intimidade. E dizer "isso acontece..." devolveria o estado mais singular à generalidade. São traições.

Recordando: o terapeuta cuidou para que o assunto não fechasse. Com isto, vários outros modos de considerar as coisas foram se organizando. Outros caminhos se abriram.

E num dado momento, a percepção de João mudou.

João me olha, como perguntando: "Está por aí a minha cura?". E se frustra, continuamente. Pois a cura não está em lugar nenhum. Ele não tem doença para  ser curada. Tem um jeito de se relacionar com as pessoas perpassando por toda sua história, compondo nossa história, tentando me cooptar.

Criando esse ambiente, João se reconhece: esse sou eu, o suplicante, o coitado, deem-me a mão. Não lhe dou a mão. Estou ali, com ele, com a história, com a sua maneira de ser. Estou presente, não fornecendo um rumo, mas confiando que ele o ache.

O recordar sempre adquire seu sentido em função do presente e de um projeto. O tempo se apresenta numa síntese. No tecer e retecer da vida, abre um caminho, dá uma laçada, direciona um fio da história. 

Sentir-se vivo, existente, aproxima-se disto: poder de transformar. Se isto não é possível através do tom usual da fala, berra-se. Se o berro em nada resulta, pode acontecer a agressão física. Transformar o mundo e o outro: sem essa possibilidade, é virtualmente impossível viver.

Transformar é também criar as condições para que outro se transforme, seguindo a direção que para ele fizer sentido.

Só uma sensibilidade muito bem sintonizada com o estado afetivo do paciente é capaz de distinguir se a comunicação configurou para ele um sentido verdadeiro. Verdade, aqui, significa não-mentira. E como não há apenas um sentido possível, pois as direções de uma vida são inesgotáveis, há diversas aberturas verdadeiras.

A experiência humana é mais vasta que os conceitos morais de forma dicotômica: isto é bom, aquilo é mau...

Testemunho sua intimidade com o neto, participo do renascimento desse contato. Espero o encontro dos dois (ou de nós três?) ficar mais intenso. Vou cuidando disso, na expectativa de recuperar uma intimidade perdida, a possibilidade de uma aproximação superadora da distância que atormenta João. 

Notemos, aqui, a reiteração do papel do terapeuta como testemunha. Se antes nessa função ele lembrava o conflito, agora compartilha da reconciliação.

O terapeuta se dedica a confiar em João. Frase curiosa! Confiar é co-fiar: seguir junto o mesmo fio. O que faz João, no consultório? Ele fala. E o terapeuta? Segue o fio da fala de João. Assim confia: seguindo, no correr do tempo, o discurso do outro. Participando, a seu modo, da trama que as palavras vão tecendo. Ouvindo muito, às vezes falando com o paciente.

O caminho da cura é a pro-cura da palavra em sua intimidade.

No processo psicoterápico a palavra aprisionadora é denunciada, e são criadas as condições para proferir a palavra libertadora. O aprisionamento aponta para o lugar onde a libertação pode acontecer.

A cada instante selecionamos as vivências que dão sentido ao nosso pensar sobre nós, sobre os nossos projetos de agora. E não somos essas vivências. Somos, antes, a possibilidade de costurá-las com sentido.

Tanto a cura como os momentos básicos em seu elaborar-se são reconhecidos como tais somente depois de efetivados. A cura será, sempre, um conceito a posteriori; a concepção singular de estar curado não poderá jamais preceder ao seu elaborar-se.

Ninguém detém a verdade sobre a definição e sobre o tratamento dos desconfortos psíquicos. Não há garantia absoluta a priori.

A psicoterapia existencial pretende buscar a compreensão dos fenômenos que abarca em âmbito especificamente humano. 

A psicoterapia existencial não pretende ter um mapa que sirva de orientação prévia para a leitura das pessoas. Ao contrário, ao ampliar os significados possíveis da realidade, almeja devolver ao cliente a tarefa de traçar seus próprios mapas, a partir dos quais pode e quer ser visto.

A psicoterapia existencial cabe inserir a opção do cliente no contexto de sua vida. Mas a feição dessa escolha cabe exclusivamente a cada ser humano. 

Vamos esboçar neste ponto uma definição de angústia: o não poder ter certeza, nem antes nem depois da escolha, se a outra opção – aquela que não foi feita — seria melhor que esta pela qual estou me resolvendo ou já me resolvi.

"Somos o que fizeram e o que fizemos de nós; importa o que vamos fazer com isso". Se a memória está sempre aí para nos lembrar quem somos, a possibilidade de reformular os rumos está junto para projetar o futuro. É possível não ser escravo da memória, mas poder dispor dela para orientar a vida? Com essa pergunta, acercamo-nos do âmbito da cura.

Assim o cliente vai se aproximando de confiar no terapeuta e, no mesmo movimento, confiar em si. Pois não perdeu sua identidade, ao expor seus sentimentos mais íntimos na sessão; sua identidade não está aqui ou ali, em um lugar quase material. Está na certeza de continuar se reconhecendo como este indivíduo singular, seja qual for a situação que o mundo lhe apresente.

Os conceitos de identidade, singularidade e cura são, afinal, muito próximos. Quando são criadas continuamente as condições para a cura, apesar de nem sempre ser possível escolher os rumos da vida, o paciente percebe que sempre é possível dar um sentido ao que vem pela frente.

O homem tem à sua disposição um número indeterminado de possibilidades de agir no mundo - mas certamente não um número infinito! E a cada apresentação de um leque de possíveis caminhos à sua frente ele estará inexoravelmente escolhendo algum deles, em direção à execução de seu projeto. 

Mas a cada instante o indivíduo está delineando os rumos desse projeto em seu embate contínuo com o mundo, modificando o mundo e sendo por ele modificado, definindo seu mundo e sendo por ele definido.

Por mais opções que a vida ofereça a um indivíduo, ele terá de limitar sua escolha a alguma (ou algumas) delas mesmo porque não há tempo para fazer todas as coisas disponíveis e desejáveis.

Nunca é demais ressaltar a diversidade de concepções de homem e mundo nas diferentes culturas e, na mesma cultura, em diferentes segmentos sociais. O terapeuta principiante, se não atentar a esse fato, tenderá a classificar como patológica cada visão da realidade que não venha ao encontro das formulações do seu próprio grupo social. E, ao proceder assim, deixará de respeitar as escolhas de vida de seu cliente.

Vamos chegar perto de João. A esta altura já é de se notar que as respostas estão nele; a nós cabe criar as condições para que apareçam.

"Hoje meu estômago doeu”, disse ele certa vez. "Em que situação você estava?” perguntei. Nada de especial surgiu imediatamente daí. Estava no quarto se preparando para sair. Perguntei-lhe aonde ia. Disse, um tanto contrafeito, que precisava levar a namorada a uma festa. Fez um pequeno intervalo no discurso. Percebi que ele estava fazendo um nexo causal entre a dor de estômago e o compromisso indesejado.

E logo apareceu uma dimensão inesperada de ciúmes, pois o ex-namorado dela também iria à festa. Quando ficou furioso ao me contar isso — deixando, agora, que eu participasse da intensidade da narrativa – não estava pensando no "nexo causal” entre a dor e a raiva; a dor fazia parte da raiva, no caso talvez do medo. Está presente, totalmente de acordo com o estado em que o cliente está agora – e como dói!

Jamais existiu um homem "puro" ou "inicial", de um lado, em oposição à realidade "pura", do outro lado, para então lançar mão da linguagem e começar a "interpretar” a realidade. Linguagem não é uma ferramenta para interpretar a realidade" a partir do nada. Sempre habitamos a linguagem, sempre estivemos num mundo já interpretado pelas palavras daqueles que nos antecederam nessa tarefa. Queiramos ou não, é esse o ponto de partida. Por isso temos limites. 

Ao escutar seu cliente, o terapeuta cria o âmbito para "curar" os estereótipos culturais, deixando esses fenômenos (re)aparecerem à luz do sentido próprio de cada vida. Por isso, o método que segue é chamado de fenomenológico.

Ao oferecer ao seu cliente a possibilidade de recriar a realidade, empreende junto com ele a trajetória rumo à cura. Essa experiência de relacionamento humano, o pro-curar junto com o outro, não se reduz a "solucionar um problema" ou a "eliminar um sintoma". Pretende ser uma experiência prototípica, evidenciando a imensa capacidade humana de reinventar o mundo.


Fonte:
CANCELLO, Luiz. O fio das palavras: um estudo de psicoterapia existencial. 2ed. São Paulo: Summus, 1991.
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