Gestalt-Terapia


Gestalt-Terapia é uma abordagem em psicoterapia desenvolvida entre as décadas de 1940 e 1950, pelo (ex-)psicanalista alemão Friedrich Perls, juntamente com sua esposa, Laura Perls, e o psicoterapeuta norte-americano Paul Goodman. A palavra "gestalt" é um termo alemão que não possui tradução para o português, seu significado seria algo como configuração, forma ou integração.

Com bases no existencialismo, no humanismo e na fenomenologia, a Gestalt-Terapia se dedica ao entendimento do modo como se constitui a percepção que cada pessoa possui da realidade e de si mesma, tendo como objetivo entrar em contato com os fenômenos e com as pessoas de forma afetiva e ativa, possibilitando uma ressignificação criativa da experiência vida de cada indivíduo.

Sua prática psicoterapêutica incentiva a conscientização dos sentimentos e pensamentos próprios da pessoa atendida, valorizando a vivência do momento presente, no aqui e no agora, possibilitando o desenvolvimento de um modo de ser autêntico na sua relação consigo mesma e com as outras pessoas.

Acredita que nossa concepção de realidade é criada pela maneira como interpretamos as nossas experiências e não pelos fatos que acontecem. A maneira que escolhemos encarar a vida implica na maneira como vivemos ela, as verdades que acreditamos são sempre verdades pessoais.

Os gestaltistas negavam um dos princípios básicos do método científico, o de que "o todo" pode ser entendido mediante sua redução em pequenas partes. Eles entendem que as coisas se apresentam primeiramente em sua totalidade de forma e configuração, e somente depois nos atentamos para os seus detalhes.

Deste modo, toda a percepção que temos de algo, seja um objeto, uma pessoa ou de uma situação, compõe uma "gestalt", uma configuração totalizante que não pode ser compreendida pela soma de suas partes. O conjunto do todo é mais que a soma das partes.

Na experiência de escutar uma música, por exemplo, se uma nota da música que conhecemos é alterada, altera-se o todo, a música deixará de ser a mesma. Do mesmo modo, não são as partes separadas de uma melodia que caracterizam a percepção de uma música. Se mudarmos as relações, a qualidade do todo mudará completamente.

Uma paisagem não é apenas um elemento, como "mato", mas uma soma de vários elementos, como céu, árvores, nuvens, brisa, entre outros detalhes, é uma percepção única que depende das relações existentes, estabelecidas umas com as outras.  A percepção que temos de algo é um todo, acontece em caráter global.

Apesar de termos uma percepção do "todo", nosso foco perceptivo acontece sempre parcialmente, de modo que nossa percepção se caracteriza por um processo de figura-fundo, onde sempre focamos em algo específico, considerado como "figura", e deixamos de lado todo o restante, chamado de "fundo".

O processo terapêutico consiste em auxiliar a pessoa atendida a tomar consciência de seus sentimentos presentes e de suas percepções, possibilitando assumir a responsabilidade por suas escolhas e incentivando o encontro e a criação novos caminhos que sejam satisfatórios para si, incentivando uma fluidez nos processos do indivíduo e colocando este como participante ativo em suas percepções, ao invés de um recipiente passivo.

"Perca a cabeça e encontre as suas razões."
(Fritz Perls)

De acordo com Fritz Perls, um dos criadores da Gestalt-Terapia, a capacidade de entrar em contato com os sentimentos autênticos - emoções e pensamentos verdadeiros - era mais importante para o crescimento pessoal do que as explicações psicológicas. Segundo ele, o "porquê" dos comportamentos não tinha a menor importância, seu foco era o "como" ou "o que", ao invés de usar perguntas como "porquê você fez isso?", usava "como você fez isso?" ou "o quê você fez?", com a intenção de promover a consciência da pessoa sobre seus sentimentos, pensamentos e ações.

Essa terapia propõe uma mudança na hierarquia entre cliente e terapeuta, pois incentiva uma relação mais afetuosa e empática, onde o terapeuta trabalha em conjunto com o cliente, como um parceiro e apoiador, e não o como um detentor do saber, analisando a pessoa atendida com "ar" de superioridade.

Para assumir a autenticidade, a pessoa é incentivada a reconhecer seus sentimentos e suas escolhas, percebendo melhor o que quer e o que não quer. Podemos perceber isso na linguagem cotidiana, quando uma pessoa diz "não posso fazer isso", mas gostaria de ter dito "não quero fazer isso", ou, diz algo como "eu preciso ir embora", ao invés de "eu quero ir embora".

Quando a pessoa percebe o que sente e o que deseja e comunica autenticamente, ela deixa claro que está fazendo uma escolha e assumindo a responsabilidade pelo que escolheu. Com isso, percebe-se que não estamos à mercê de coisas que "simplesmente acontecem", deixamos de nos colocar como vítima ao reconhecer que a maneira que vemos e experimentamos as coisas e a realidade são opções que escolhemos, e que não somos impotentes a elas.

"Eu sou eu, você é você. Eu faço as minhas coisas e você faz as suas coisas. Eu sou eu, você é você. Não estou neste mundo para viver de acordo com as suas expectativas. E nem você o está para viver de acordo com as minhas. Eu sou eu, você é você. Se por acaso nos encontrarmos, é lindo. Se não, não há o que fazer."
(Fritz Perls)


Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial.
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